
Não consta que Maria fosse uma jovem triste nem que cantava ou dançava. Provavelmente, se comportou como as jovens judias de seu tempo. Aliás, sabe-se tão pouco sobre ela que corremos dois riscos: idealiza-la perfeita demais, incapaz de rir ou brincar; ou como a jovem dedicada somente à oração. É verdade que, por seu chamado especial, foi diferente das demais mulheres. Afinal, não é sempre que se concebe um filho em suas condições. Mas foi igual às outras no aspecto mais comum da feminilidade e no seu modo bonito de ser mulher. Até aposto que ria, cantava e dançava. O Evangelho traz alguma coisa a respeito.
Lucas diz (cap. 1, 39-56) que ela acompanhou os últimos três meses de gravidez da já idosa Isabel e a intimidade do parentesco as fez cúmplices do mistério que as envolvia. Quem não crê achará inverossímil Isabel e Zacarias terem um filho especial e Maria ter um filho de Deus. Mas é como diz Isabel: “Feliz aquela que acreditou”. Maria foi ajudar Isabel, que, no dia do encontro, demonstrou saber do importante segredo da sua parenta. Maria não se conteve: agora poderia repartir sua alegria de poder ser mãe tão especial, já que os outros a achariam louca e pretensiosa. E ali mesmo, segundo Lucas, ela improvisou um canto, a partir do cântico de Ana, mãe de Samuel (1 Sm. 2, 1-10), e de outros que conhecia. Quem meditava as coisas de Deus e as guardava no coração (cf. Lc. 2, 19) era muito bem capaz de improvisar uma oração, como a rezada por Maria diante de Isabel. Maria cantou um pouco do livro do Deuteronômio, de Samuel, de Isaías e dos Salmos 111, 107, 103, 98 e 89.
O canto de Maria tem força teológica. Fala de um Deus misericordioso que pensa em todos os homens e mulheres, chama a todos, mas dá tarefas e missões especiais a alguns, sem, com isso, amar de maneira limitada; de um Deus justo que defende os pequenos e oprimidos, tira o poder da mão dos injustos e, um dia, dá chance aos pobres e pequenos, enquanto mostra, a quem tem tudo, a experiência de não ter. Teria sido também um canto político, improvisado por uma jovenzinha desinformada? Ou cheio de fé, ensaiado por alguém inspirado nas lutas e no sofrimento de seu povo? Se Maria cantou, então mostrou conhecer muito bem os erros e acertos de Israel, as profecias e as constantes presenças de Deus na história de seu povo. Trata-se, pois, de excelente oportunidade de refletirmos.
É difícil imaginar Maria inserida em política partidária ou indiferente à sorte de seu povo e incapaz de compreender o peso de sua missão. Seu canto tinha alta teologia e política, mas também amor e misericórdia. Só não vê quem não quer. A quem idealiza apenas como a mãe de um grande político judeu, o canto é um prato cheio; mas, para os que a imaginam como uma jovem mãezinha assustada, é mais difícil negar que ela tenha cantado. Maria amou a seu Deus, seu tempo e seu povo. E, nesse contexto, não é provável que ela tenha contado a Lucas o ocorrido naquele encontro: que cantou a experiência de ser mãe de alguém que anunciaria um novo tempo e uma ordem para o mundo. É mais um motivo para admirarmos essa mulher.
Um comentário:
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Fique com Deus!
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