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domingo, 3 de maio de 2020

O Cântico de Maria (Magnificat)

Como é bom cantar! Santo Agostinho dizia que os cânticos religiosos são uma oração em dobro. No tempo de Jesus, as pessoas entoavam de cor vários hinos e Salmos, que hoje encontramos na Bíblia. Nos grandes momentos de festa, o canto era acompanhado de danças. Se você abrir o livro dos Salmos, encontrará várias expressões de oração: louvor, ação de graças, pedido de perdão, recordação da atuação de Deus na Criação e na libertação do povo, preces de confiança, clamor  o sofrimento e na perseguição, renovação do compromisso da aliança, ditos de sabedoria, orações dos peregrinos para o templo. O evangelho de Lucas nos oferece também algumas orações e cânticos: do pai de João Batista (Lc 1,67-79), do velho Simeão (Lc 1,29-32), de Jesus (Lc 10,21), e de Maria (Lc 1,46-55).

O cântico de Maria foi chamado pelos católicos de “Magnificat”, por causa da primeira palavra de sua tradução em latim.  Ela significa: engrandecer, exaltar, reconhecer como Deus é magnífico! Imagine a cena: Maria chega na casa de Isabel e Zacarias, cansada da viagem, mas radiante de alegria. Saúda sua parenta: Shalom! A paz esteja com você! As duas mulheres, uma jovem e a outra, idosa, se abraçam carinhosamente, trocam uns beijos no rosto. Isabel proclama que Maria é feliz, por que acreditou na promessa de Deus! (Lc 1,45). A reação de Maria não podia ser outra: começa a louvar a Deus por aquilo que estava acontecendo com as duas. Então, ela lembrou do Canto de Ana, a mãe de Samuel (1 Samuel 2,1-11). Essa mulher era estéril, e por causa disso era humilhada e deixada de lado. Quando Deus lhe deu a graça de um filho, ela cantou os louvores de Deus e afirmou, com valentia, que o poder dos fortes foi quebrado e que os fracos sairão da opressão e serão promovidos.

Mas Maria não repete simplesmente o passado, e espontaneamente ela vai mudando a letra da música. Como Ana, ela exulta de alegria em Deus, salvador! Vai além. Reconhece que o Senhor fez maravilhas nela. Isso não é motivo de orgulho, e sim de gratidão. Ela diz para Deus: olha, como estou muito feliz, pois sinto que Sua misericórdia se estende a todos os que O respeitam (Lc 1,50)! A seguir, Maria canta a Deus com a força e a esperança dos profetas: Os poderosos não ficarão para sempre nos seus tronos! O Senhor fará justiça aos pobres e pequenos. Todos terão direito a uma vida digna, a começar da alimentação (Lc 1,51-53)! Assim, ela já antecipa as bem-aventuranças e as advertências de Jesus (Lc 5,20-24). E, por fim, como Maria se sentia membro do seu povo, ela agradece porque Deus é fiel às suas promessas. Nós fazemos parte dessa história! Deus nos socorre e nos acompanha!  Desde a hora que Abraão sentiu o apelo do Senhor, deixou tudo e partiu com sua mulher em direção à nova terra (Lc 1,54-55).

Eu imagino que enquanto cantava, Maria chamou Isabel para dançar, numa ciranda que vem até nós, hoje! Nessas duas mulheres grávidas até hoje a humanidade se reconhece como capaz de gerar vida, cuidar dela, resistir, estabelecer laços de ternura e recriar a esperança. Vamos cantar os louvores de Deus, com Maria! Vamos proclamar a justiça e a misericórdia de Deus. Amém!

domingo, 28 de maio de 2017

Orar como Maria: o Magnificat

O evangelista Lucas coloca nos lábios de Maria um belo cântico, que em latim se chama “Magnificat” (Lc 1,46-56). Traduzindo na linguagem de hoje, seria: “proclamo a grandeza (de Deus)”. Baseado no cântico de Ana (1 Sam 2,2-10), e escrito muitos anos depois da visita a Isabel, o Magnificat expressa várias características de Maria. E consiste numa verdadeira lição de oração para nós, hoje.
Maria inicia sua oração com um louvor intenso, que brota do mais íntimo, onde se integram as emoções e as convicções (v.46-47). Qual a razão desta incontida alegria? Deus olhou para sua condição social: jovem, mulher, da desconhecida Nazaré, na Galiléia (v.48). Maria reconhece com gratidão que Deus fez nela maravilhas (v. 49). E aí reside o segredo da humildade: não em autodesvalorização, mas sim em uma percepção real do que somos, agradecendo a Deus por tanta graça recebida. A pessoa humilde, como Maria, não ignora suas qualidades; e sim as coloca à disposição dos outros.

A oração de Maria começa na interioridade, na alma, no espírito, no coração, e dali se expande. Sai de si mesma, louvando a Deus pela misericórdia que se prolonga “de geração em geração”, na história de seu povo, no atual momento e no futuro (v.50). Ecoa nela a fé bíblica que o amor de Deus é “para sempre”, pois podemos prova-lo tanto na criação como nos fatos (Sl 136).
A seguir, baseada no cântico de Ana e antecipando as Bem-aventuranças e os alertas de Jesus (Lc 6,20-26),  Maria proclama que Deus faz uma grande mudança na realidade social. A boa nova de Jesus tem repercussão estrutural. Exige uma mudança na distribuição dos bens produzidos e do exercício do poder (v.51-53). Embora utilizando a imagem da inversão, não propõe simplesmente uma mudança de posição, e sim novas relações.

Por fim, Maria recorda que este tempo novo do Messias, que se inaugura com ela, é a realização da promessa a Abraão (v.54-55). Este homem, símbolo da fé do povo de Israel, confiou radicalmente em Deus, deixou sua segurança para trás e saiu em busca de nova terra.
Portanto, o cântico de Maria resume os diversos elementos da oração cristã: louvor, ação de graças, recordação, súplica, reconhecimento da ação de Deus no coração de cada pessoa e na sociedade.  Situada no presente, faz memória e abre-se de forma esperançada para o futuro. Maria, ensina teu povo a rezar!

Fonte: Afonso Murad, Folheto O Domingo, 28/05/17