sexta-feira, 29 de dezembro de 2017

11º Congresso Internacional de Mariologia em Aparecida


A Academia Marial de Aparecida e a Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP) promoveram o 11º Congresso Mariológico do Santuário Nacional, nos dias 09 a 12 de agosto de 2017. Realizado no Centro de Eventos do Santuário, na Cidade de Aparecida, interior do Estado de São Paulo, o Congresso contou com uma presença maciça de presbíteros, leigos e leigos, religiosas e seminaristas. O tema: “Aparecida, 300 anos de fé e devoção” evoca o tricentenário a descoberta de uma pequena imagem da Imaculada Conceição, por três pescadores, nas águas do Rio Paraíba do Sul. A imagem de Maria, encontrada no fundo do rio, em duas partes (a cabeça e o corpo) provocou na época uma pesca milagrosa. E lentamente levou à difusão desta devoção à Nossa Senhora. Espalhada por todo o país, “Nossa Senhora (Madonna) Aparecida” foi proclamada a padroeira do Brasil em 1930. Embora invocada com o nome de “Aparecida” (pois apareceu no fundo das águas), não se trata de uma “Aparição”, no sentido estrito. Pois não há videntes, nem mensagens atribuídas a Maria.

O Congresso Mariológico teve como objetivo principal estudar sobre o fenômeno de Aparecida, com o múltiplos olhares da teologia, da pastoral e das Ciências da religião. A Conferência da Abertura, intitulada “As hermenêuticas de Aparecida”, foi apresentada pela teóloga Maria Clara Bingemer (PUC – Rio), na primeira noite. O segundo dia do Congresso iniciou com a celebração eucarística presidida pelo Arcebispo de Aparecida, Dom Orlando Brandes. A seguir, a Conferência “A história da devoção a Aparecida no contexto do catolicismo popular”, proferida pelo historiador Frater Dilermando Ramos Vieira, OSM. A tarde de trabalho foi coordenada pelo grupo de pesquisadores de Ciências da Religião da PUC-SP. O painel foi composto por Denise Ramos (A imagem das águas: leitura junguiana) e  Edin Abumanssur (Análise comparada dos mitos de origem dos Santuários brasileiros). Seguiu-se uma “mesa redonda”, com perguntas e intervenções dos participantes. O período da noite foi dedicado ao momento cultural, com lançamento de livros e apresentação da Orquestra sinfônica do Santuário Nacional. Convém citar que esta orquestra é composta em grande parte por jovens pobres da região, que aprendem gratuitamente a desenvolver seu talento artístico, como forma de promoção social.

O terceiro dia do Congresso de Mariologia iniciou-se, como sempre, com um momento orante. A seguir, a conferência “A devoção a Aparecida e a identidade nacional brasileira”, proferida pelo sociólogo Rubem Cesar Fernandes. Na segunda parte da manhã aconteceram seminários simultâneos. Os participantes se inscreveram em um deles. Metodologia diferente das conferências, esses seminários visavam abordar algum tema mariano específico, com maior interação entre os participantes. Foram os seguintes, com os respectivos coordenadores: (1) A composição do espaço sagrado do Santuário Nacional de Aparecida – Zenilda Cunha; (2) Aparecida em números – Jorge Sampaio;  (3) Maria e as mulheres – Cecília Domezi; (4) A mariologia de Lutero – Haidi Jarschel,  (5) Visita Guiada ao santuário. No período da tarde, o Irmão Afonso Murad apresentou a conferência “Devoção a Maria – Ancoragem e perspectivas”. A seguir, aconteceu mais uma rodada de Seminários simultâneos:  (1) Devoção mariana entre Portugal e Brasil – João Emanuel Duque (Portugal);  (2) A pastoral do Santuário: um balanço histórico – Vitor Hugo;   (3) Aspectos teológico-pastorais da devoção a Maria – Agenor Brighenti; (4) Visita Guiada ao Santuário. Este longo e produtivo dia de trabalho se encerrou com a mesa redonda “A devoção mariana na América Latina. Entre o popular e o oficial”, sob a coordenação de Lina Boff.

O último dia do 11º Congresso Mariológico foi abrilhantada com a Conferência de Encerramento, apresentada por  Dom Francisco Biasin, bispo de Volta Redonda (RJ). Após a apresentação do conferencista, que discorreu sobre os elementos fundamentais da mariologia bíblica, houve espaço para perguntas e observações dos participantes. A parte da tarde foi destinada à Assembleia dos Associados da Academia Marial. Por fim, a celebração eucarística coroou estes dias de intensa reflexão, estudo e oração.

Alguns aspectos merecem destaque neste evento:

(1) Esse congresso mariológico de Aparecida foi antecedido por outros congressos anuais. Em relação aos anteriores, pode se dizer que ele foi mais teológico do que devocional. Respondeu assim a uma necessidade pastoral de iluminar a piedade mariana com uma reflexão respeitosa e consistente.

(2) O congresso realizou seu intento de refletir sobre o fenômeno de Aparecida, de forma multidisciplinar. Neste sentido, os pesquisadores das Ciências da Religião trouxeram importante contribuição, ao mostrar, por exemplo, a força do mito nas devoções e a associação do culto a Maria com a figura arquetípica da “Grande Mãe”. Tal abordagem amplia a nossa visão. E fornece elementos para um discernimento pastoral, que distingue os fatores teológicos daqueles culturais.

(3) O acontecimento abriu novas portas para a pesquisa da teologia e das Ciência da Religião. Mostrou que as duas ciências podem estar juntas e estabelecerem uma colaboração recíproca, respeitando a especificidade de cada saber.

 (4) O Congresso não foi um evento isolado. Ele fez parte de uma série de celebrações, encontros, cursos, seminários, peregrinações e vigílias que marcaram o “Ano Mariano da Igreja do Brasil”, em comemoração aos 300 anos da manifestação de Maria, como a “Senhora Aparecida”.

 (5) O Congresso mariológico de Aparecida se somou a outros importantes eventos de natureza acadêmica, durante o ano mariano. A título de exemplo, citamos aqui: o Simpósio Internacional Mariológico, promovido pelo Santuário N.S. de Fátima e a Universidade Católica de Pernambuco (UNICAP); o VII Simpósio de Teologia PUC-Rio, com o tema Maria: Escritura, Teologia e Religiosidade; e o Congresso de Mariologia: Piedade Popular, Cultura e Teologia, da PUC Rio. Em diferentes graus, tais eventos mostraram que a devoção mariana necessita articulação com a mariologia bíblica e dogmática. E que a devoção, tão saudável, precisa ser regida por critérios teológico-pastorais e centrar-se em Jesus Cristo.

(6) A organização do Congresso preparou um livro, no qual já se encontravam as principais conferências, painéis, mesas redondas e até os temas de alguns seminários. Com o título do Congresso, “Aparecida, 300 anos de fé e devoção”, a obra editada pela Editora Santuário contém 14 artigos, divididos em: (a) 300 anos depois; (b) As dinâmicas da devoção; (c) A fé e a vida. Trata-se, na verdade, dos Anais do conteúdo teológico-pastoral do Congresso. Tal procedimento é essencial para conhecer e difundir as contribuições do Congresso para a mariologia atual.

Esperamos que o 11º Congresso Mariológico de Aparecida, desta vez com caráter internacional, fomente uma devoção mariana equilibrada, madura e centrada em Jesus.
Ir. Afonso Murad

sexta-feira, 8 de dezembro de 2017

Imaculada Conceição

Cada ser humano recebe um dom de Deus quando vem a este mundo. Somos criados em Cristo, marcados pelo selo da Trindade, mesmo que não tenhamos consciência disto. Paulo diz que antes da criação do mundo, Deus nos escolheu em Cristo para sermos diante dele, santos e sem mancha (Ef 1,4). Mas sabemos por experiência que somos seres fragmentados, numa luta interior. A gente quer fazer o bem, ser inteiro nas decisões, perdoar, exercitar a generosidade, lutar para melhorar o mundo... As realizações ficam abaixo dos bons desejos. Somos frágeis, com a tendência ao mais fácil e imediato.

O dogma da Imaculada afirma que Maria, sendo humana como nós, recebe de Deus uma graça especial, para ser forte diante das tentações do mal, assumir com inteireza suas decisões e ser proativa. Maria foi preparada por Deus para a missão de mãe, educadora e discípula de Jesus. E assim ela assumiu sua missão, como nos mostra o evangelho: ouviu a palavra, guardou no coração e frutificou.
A graça de Deus, quando atua no ser humano, é sempre uma estrada de duas mãos. De um lado, o Senhor nos oferece sua presença irradiante, que purifica, perdoa, fascina, integra e convoca para a missão. De outro lado, a gente responde, ao viver na fé, na esperança e no amor solidário. 
O dogma da Imaculada não fala somente de um privilégio de Maria, e sim da vitória da graça de Deus nela. Isso tem enorme valor para toda a humanidade. Mostra que o mais original no ser humano não é o pecado, a mediocridade, as sombras, mas sim o dom de Deus, a criatividade, a luz.

Desde o início Deus nos chama para a comunhão com ele. Assim já experimentaram os profetas: Antes de saíres do ventre de tua mãe, eu te conhecia, e te consagrei (Jr 1,5)”; O senhor me chamou desde o ventre materno (Is 49,1).
Na conhecida canção sobre a Imaculada se diz: Um coração que era sim para a vida/ Um coração que era sim para o irmão. Um coração que era sim para Deus, Reino de Deus renovando este chão! Maria, mais do que ninguém, experimentou a gratuidade do Senhor, um dom especial que a fez mais livre e consciente para caminhar na fé, na esperança e no amor solidário. Recebeu desde o início a redenção em Cristo, que livra do pecado e conduz à vida plena.  Diante desta proposta de Deus, ela dá uma resposta durante toda a existência, com intensidade e inteireza. Viva a Imaculada! A graciosa e cheia de graça!

domingo, 12 de novembro de 2017

Os títulos de Maria


Sou romeiro e no seu dia, na multidão mãe querida
Me ajoelho e rezo, Nossa Senhora Aparecida
Nossa Senhora da Glória, de Lurdes, de Nazaré (..)
Minha mãe, nossa senhora, somos todos filhos seus
Todas as nossas senhoras são a mesma mãe de Deus.

Na música “Todas as Nossas Senhoras”, Roberto Carlos expressa de forma poética uma prática comum do povo católico. Costumamos invocar a Maria, pedir seu auxílio e proteção, com diferentes nomes. A lista é interminável e tem origem diversa. Alguns títulos provem da devoção de institutos de consagrados: NS do Rosário (dominicanos/as), Auxiliadora (salesianos/as), Perpétuo Socorro (redentoristas), Mãe três vezes admirável (Shönestad). Outros títulos de Maria vem das aparições reconhecidas pela Igreja, como NS de Fátima, Lurdes, Salete e Guadalupe. Há aqueles que surgiram de devoções transformadas em dogmas marianos, como Imaculada Conceição e Assunção. Para este último título, existem várias invocações. NS. da Glória, da Boa Viagem (para o céu!) e da Abadia traduzem a mesma crença: Maria já está glorificada, de corpo e alma, junto de Jesus na comunhão dos Santos.

Há títulos marianos engraçados, como NS das Cabeças. Trata-se de uma imagem do Brasil colonial, na qual Maria está cercada de cabecinhas de anjos. Ou ainda, NS do Bom Sucesso, que era invocada pelas mulheres, no parto. Existem títulos provenientes de momentos da vida de Maria, como NS de Nazaré, NS da Piedade (Maria com o filho morto no colo), NS das Dores (especialmente a da cruz). E, para concluir sem terminar, também se invoca Maria com títulos simbólicos, sobretudo aqueles das Ladainhas, como “Mãe do Bom Conselho”, “Sede da Sabedoria”, “Consoladora dos aflitos”.

Como se vê, a Mãe Jesus é chamada com muitos títulos. Mas isso não pode nos levar à confusão, como se fossem várias santas diferentes. Ou que uma delas fosse mais poderosa do que a outra. Os vários títulos mostram que Maria, na glória de Deus, está pertinho da gente. Ela assume o rosto de muitas regiões e culturas, traduz o seu amor de várias formas. No dizer de Roberto Carlos, “Somos todos filhos seus! Todas as nossas senhoras são a mesma mãe de Deus”. É a única Maria, reconhecida e venerada com diferentes nomes.
Afonso Murad - Publicado em O Domingo

domingo, 29 de outubro de 2017

Maria foi obediente?

Ouvimos dizer que Maria foi uma mulher silenciosa e obediente. Antigamente, se acreditava que uma pessoa obediente não questionava nada e simplesmente seguia as normas e orientações de seus “superiores”. Os filhos obedeciam aos pais. A mulher obedecia ao marido. Os cidadãos obedeciam às leis e às autoridades civis e religiosas. Hoje, as pessoas não aceitam essa obediência cega. Querem saber os motivos de uma orientação da autoridade. Questionam quando se sentem injustiçadas. Percebem quando determinações “vindas de cima” não levam em conta a situação dos indivíduos, ou não visam o bem comum. Lutam para que sejam modificadas. Não aceitam que a mulher seja submissa ao marido. Cada vez mais, queremos ser ouvidos e participar dos processos decisórios.

Jesus era obediente ao Pai. Não foi fácil, pois a vontade de Deus não era tão evidente. Assim, ele passa longo tempo no deserto, preparando sua missão. Ali vence todo tipo de tentação, o que fortalece suas convicções (Lc 4,1-13). Jesus se retira em oração, antes de tomar decisões importantes, como para escolher os dois apóstolos (Lc 6,12s).  Quando percebe a possibilidade real da morte na cruz, vive uma grande luta interior, a ponto de suar como sangue: “Pai, afasta de mim este cálice. Mas que seja feita a tua vontade (Lc 22,42-44). Jesus aprendeu a obedecer (Hb 5,8). Foi um processo de toda a vida.

Porque Jesus vive nesta intimidade com o Pai, é livre diante das leis religiosas e civis do seu tempo. Parece desobediente. Jesus denuncia que muitas dessas determinações legais escravizavam as pessoas e não expressavam a vontade de Deus. Assim, ele come e bebe com pobres e pecadores (Mc 1,15-17), o que escandaliza os escribas e fariseus. Cura no sábado, o que não era permitido (Mc 3,1-5). Deixa seus discípulos tomarem as espigas de trigo para comer, nesse dia. Proclama: “o sábado foi feito para o homem, o não o homem para o sábado” (Mc 2,27). Questiona o excesso de ritos de purificação: “o que torna impuro é aquilo que sai do coração humano” (cf. Mc 7,1-23). Diz que a oferta da pobre viúva era a mais preciosa! (Lc 21,1-4). Valoriza as mulheres, a ponto de incorporá-las com suas seguidoras e colaboradoras, o que não era normal (Lc 8,1-3).


A obediência de Maria não era a atitude passiva de uma mulher submissa. Na anunciação, ela responde com vigor ao convite de Deus. Visitar Isabel é uma atitude corajosa, pois as mulheres não podiam viajar sozinhas. Durante muitos momentos da vida, ela busca o sentido dos fatos para descobrir o que Deus lhe falava (Lc 2,19.51). Ser obediente à Deus lhe traz muita alegria, como ela expressa no seu cântico de louvor (Lc 1,47). Mas também conflito e dor, como uma espada que corta o coração (Lc 1,35). Maria acompanhou Jesus, e aprendeu muito com ele, durante sua vida pública. 

Como Jesus, também ela aprendeu a obedecer. Que Maria nos ensine esta obediência ativa, dinâmica e participativa.

sábado, 14 de outubro de 2017

Maria na liturgia

Como Igreja, somos uma comunidade organizada, com ritos e normas. No correr dos séculos, a Igreja desenvolveu, no conteúdo e na forma, uma forma própria para fazer memória, agradecer, pedir, escutar a Palavra de Deus e celebrar a ceia do Senhor. O culto ganha expressão na liturgia e na devoção.
Na liturgia reformada após o Vaticano II, Maria foi colocada em íntima relação com o mistério de Cristo e da Igreja. No Advento, preparamo-nos para a vinda do Senhor, esperando como Maria durante sua gravidez. No tempo do Natal, alegremente celebramos com ela a encarnação do Filho do Deus. Ao longo do tempo comum, acompanhamos com Maria a missão de Jesus, que revela o Pai com gestos e palavras. Durante a quaresma, Maria e todos os santos se unem a nós para respondermos ao apelo à conversão, à busca do essencial. Na semana santa, acompanhamos a paixão e morte do Senhor, vivendo com Maria a “noite escura”. No tempo pascal, com Maria exultamos, pois o Senhor ressuscitou de verdade e vive glorioso, no Céu e na Terra. Portanto, durante todo o ciclo litúrgico, mais do que rezar para Maria, oramos como ela e na sua companhia, na grande corrente da Comunhão dos Santos.
No correr do ano litúrgico, Maria também ganha destaque. Há três tipos de celebrações marianas, por ordem de importância: as solenidades, as festas e as memórias. As solenidades, como o nome indica, constituem as celebrações mais importantes. Em todo o mundo elas são quatro: Maria, Mãe de Deus (1º jan), Anunciação (25 março), Assunção (15 agosto) e Imaculada Conceição (8 dez). Em cada diocese e país, há ao menos uma solenidade própria do lugar. Dentre as festa marianas, recordamos a da Visitação. 

Existem várias memórias marianas, como: nascimento de Maria e as “Nossas Senhoras”, como a das Dores, de Fátima, do Carmo e do Rosário. Algumas delas são memórias facultativas, ou seja, opcionais. Uma celebração de memória pode ser elevada à solenidade em determinada região. Na América Latina, NS. Guadalupe se tornou solenidade, pois foi proclamada padroeira de nosso continente. E Aparecida, para o nosso país.


Nas solenidades, festas e memórias de Maria, os padres e as equipes de liturgia devem ajudar a assembleia a conhecer mais e melhor a mãe de Jesus. E também a relacionar Maria com Jesus Cristo e a comunidade de seus seguidores.
Afonso Murad
Publicado no Folheto ODomingo

quinta-feira, 12 de outubro de 2017

domingo, 8 de outubro de 2017

Maria nos abraça e nos leva a Jesus

Quando se vê alguém pela primeira vez, costuma-se apertar sua mão e dizer: “muito prazer” ou uma frase parecida. À medida que as pessoas se tornam mais próximas,  olham-se e trocam sorrisos. Conforme a cultura local, parentes e amigos se saúdam com um abraço ou beijo no rosto. Há abraços e beijos meramente formais, de pessoas que nem se conhecem bem. Perigosos são aqueles gestos fingidos, como o beijo de traição de Judas.

Existem abraços que vem do fundo do coração, a ponto de substituir qualquer palavra. Abraço de sintonia com a dor do outro. De contentamento, diante de uma vitória alcançada. Abraço silencioso de amor e afeto, transmitindo ‘estou ao seu lado, conte comigo’. A expressão ‘abraçar’ também se aplica de forma simbólica, para expressar um compromisso de vida. Assim, dizemos que Dom Helder Câmara “abraçou” a causa da justiça, em defesa dos mais pobres.

Ser abraçado pelo amor de alguém é receber gratuitamente seu afeto e sua atenção. Maria de Nazaré, a mãe de Jesus, experimentou na sua vida o grande abraço de Deus. É este o sentido da expressão “agraciada”, “cheia de graça” e “encontraste graça diante de Deus”, na anunciação (Lc 1,28.30). O Senhor olhou para ela com amor, preparou-a para a bela e desafiante missão de mãe e educadora de Jesus. Como era uma pessoa inteira, que tinha consciência de ser amada por Deus, Maria expandiu este amor muitas vezes com gestos carinhosos, ternos e acolhedores. Você já imaginou o abraço que ela deu em Isabel, quando as duas se encontraram? 

Durante sua vida, Maria deve ter abraçado e recebido muitos abraços de José, seu fiel companheiro, e de Jesus. E não somente isso. Em Caná, ela ‘abraçou’ a causa dos noivos em necessidade. Na cruz, recebeu o terno abraço de João e ‘abraçou’ a nova missão de ser mãe da comunidade (Jo 19,26-27).

Há gente que abraça e quer reter para si. Em vez de laços de afeto, lança correntes que aprisionam. Não é o caso de Maria. Durante sua vida em Belém, em Nazaré e em Jerusalém, ela amava sem reter. Abraçava sem agarrar. Um amor livre, despojado. Hoje, na glória de Deus, Maria nos abraça carinhosamente. Ouve nossos clamores. Compreende nossas dores. Alegra-se com nossas alegrias. Um abraço que tem o tamanho do mundo, pois se estende a todos. Abraço que não segura ninguém para si, e sim nos entrega livremente a Jesus, nosso mestre e Senhor. Aí reside o sentido da devoção mariana: ela nos abraça e nos leva a Jesus.
Afonso Murad
Publicado no folheto O Domingo