quinta-feira, 3 de maio de 2018

Mês de Maio

Em muitos lugares do nosso país, o mês de maio é dedicado a Maria. Quem não se lembra da coroação de Nossa Senhora, com flores, cantos e a presença encantadora das meninas? Esta tradição foi trazida da Europa. Lá, o mês de maio tem um sabor especial. No inverno rigoroso, as árvores perdem as folhas. Vem a neve. Mas neste mês ensolarado e com dias longos, a natureza refloresce. Folhas verdes nas árvores, muitas cores e cheiros de flores, pássaros e as primeiras colheitas. Tudo renasce. É bem diferente do nosso país, onde nesta época começa o frio do inverno ou há muita chuva.

Lá na Europa, faz muito tempo, antes do cristianismo chegar lá, no mês de maio faziam-se festejos em honra da deusa da vegetação, com cantos, danças e o cortejo de jovens que levavam ramos floridos. Tanta beleza se ligava também às declarações românticas entre os namorados. E festas com música, dança e recitação de poesia. Mesmo depois da cristianização, alguns destes ritos pagãos permaneciam no meio do povo. Então, com o crescimento da devoção mariana, em vários lugares estas festas deram lugar a uma homenagem especial à Maria. Em vez do louvar a deusa-mãe da natureza, se promoveu a veneração à Nossa Mãe Maria.

Tem-se notícia que aproximadamente pelo ano 1250, o rei Afonso X (na atual Espanha) associou o mês de maio à figura de Maria. Nos cânticos daquela época, louva-se a Deus pela abundância da natureza e pede-se a Maria que ela conceda a todos bênçãos materiais e espirituais. Trezentos anos mais tarde, São Filipe Neri ensina os jovens a homenagear a Mãe de Jesus, ornando sua imagem com flores, cantando louvores e também realizando gestos de conversão a Deus. E assim a devoção foi crescendo e se espalhando, de acordo com as características de cada região. Dedicar um mês a Maria se tornou uma tradição. Além de ladainhas e cantos, se firmou a prática da coroação de Maria, utilizando uma coroa de rosas. E no fim do mês, a oferta de um coração de prata, como expressão de no amor para com ela.

No Brasil, o mês de maio está associado ao dia das mães, no segundo domingo. Este feriado civil é recente e se tornou oficial em 1932. Então, se presta homenagem às nossas mães e também a Maria, a mãe de Jesus. Em muitos lugares se reza o terço com mais intensidade. As meninas coroam Maria a cada domingo, após a missa. Esta bela festa é uma oportunidade de nos deixar tocar pelo encanto e a beleza das crianças, a serem cuidadas e educadas. Reconhecemos com alegria que Maria é mãe amorosa e a rainha que permanece como servidora, conduzindo tudo e todos a Jesus.

Uma sugestão para você e sua comunidade: durante o mês de Maio, leiam sobre Maria na Bíblia, especialmente nos relatos de Lucas e João. Descubram as qualidades humanas deste mulher de Nazaré, que inspiram nossa vida de discípulos missionários de Cristo. Não se contentem em rezar o terço e fazer coroação. Precisamos conhecer mais sobre a mãe de Jesus, a partir da Bíblia. Assim, nossa devoção permanecerá equilibrada e estará ancorada na Palavra de Deus.

Recordemos as palavras do Papa Francisco: “Maria é a missionária que se aproxima de nós, para nos acompanhar ao longo da vida, abrindo os corações à fé com o seu afeto materno. Como uma verdadeira mãe, caminha conosco, luta conosco e aproxima-nos incessantemente do amor de Deus” (Alegria do Evangelho, 286).

domingo, 8 de abril de 2018

Maria e o Ressuscitado

Como Maria viveu a experiência da ressurreição de Jesus? Os evangelhos não falam diretamente sobre isso. Podemos imaginar, e com razão, que Maria experimentou os mesmos sentimentos dos outros seguidores de Jesus. Com uma intensidade maior, pois ela é ao mesmo tempo a mãe do Messias e o exemplo dos discípulos-missionários de Cristo.

Todos aqueles que acompanharam Jesus durante a vida pública ficaram muito tristes com sua morte. Passaram pela noite escura da fé. As esperanças tinham sumido, como água que escorre pelas mãos. Diziam os discípulos de Emaús: “Nós esperávamos que ele fosse o libertador. Mas nossos chefes o entregaram à morte” (Lc 24-20-21). Então, aconteceu algo totalmente novo, que nunca houve antes: Jesus venceu a morte e estava vivo! (Lc 24,5). Não era a reanimação de um cadáver, pois um dia este morreria de maneira definitiva. O ressuscitado é o mesmo Jesus de Nazaré, mas com um corpo glorificado. Por isso, só é reconhecido à luz da fé (Jo 21,1-12).

Certa vez, os discípulos estão reunidos de portas fechadas! Eles temem sofrer o que Jesus passou! Então o Cristo ressuscitado vem ao encontro da comunidade e fica no meio deles, bem pertinho (João 20,19-22). Experiência semelhante vivem as mulheres que seguiam Jesus: Madalena, Joana e Maria, mãe de Tiago (Lc 24,1-10). E Madalena, de forma especial, é a primeira anunciar que Jesus está vivo! (Jo 20,11-18).
Olhe a mudança que acontece com eles.
- Se antes tinham medo, agora se revestem de coragem. Enfrentam as autoridades religiosas e políticas (At 4,8-13). Embora ameaçados, eles se negam a obedecer aos chefes judeus. Diz Pedro: “Não podemos nos calar sobre o que vimos e ouvimos” (At 4,20).
- Quando Jesus morreu, eles ficaram com o coração perturbado. Era muito difícil viver agora sem o mestre que lhes ensinava um novo jeito de viver. Então, Jesus ressuscitado lhes dá a paz, a serenidade. E sopra sobre eles o Espírito Santo, a presença permanente que anima, fortalece, ilumina, pacifica o coração, e os envia para a missão.
- Por fim, a tristeza dá lugar a uma grande alegria. Um contentamento que não passa! No lugar das lágrimas nos olhos, do choro incontido, agora vem o sorriso nos lábios e o brilho no olhar.

A mãe de Jesus viveu tudo isso. Ela, que concebeu, deu à luz, educou e acompanhou Jesus, sofreu muito com a sua morte violenta. E quando Cristo ressuscitou, Maria teve a certeza que valeu a pena ter se consagrado a Deus. Sua coragem foi fortalecida. Ela passou da tristeza à alegria profunda. E com os doze apóstolos e outras mulheres, Maria recebe o Espírito Santo (At 1,14. 2,1). Que Maria, testemunha da ressurreição, no ensine a viver como novas criaturas, renovadas pela ação transformadora da Graça (2 Cor 5,17). Amém.

sexta-feira, 23 de março de 2018

Maria perseverante na fé

Dom Helder Câmara, bispo do Recife, poeta e místico, dizia que a maior graça para um cristão consiste em terminar bem aquilo que começamou. No Evangelho, Jesus nos adverte que não basta receber a semente da Palavra de Deus. É preciso cultivá-la, até que dê frutos. E isso não é fácil. Na conhecida parábola do semeador e dos tipos de terreno, Jesus adverte que há pessoas superficiais, nas quais as sementes da boa nova nem chegam a penetrar. Outras, por sua vez, acolhem a mensagem do Reino de Deus com alegria, mas as preocupações deste mundo e a dispersão sufocam-na, como os espinheiros. Por fim, os que cultivam a palavra, acolhem-na no coração e nela perseveram, produzem muitos frutos (Lc 11).

Maria, nossa irmã e mãe na fé, é o exemplo de perseverança na causa de Jesus. A gente se emociona quando imagina o seu “sim” generoso e decidido, quando ela ainda era uma menina. Com muito mais razão, ficamos felizes ao perceber como ela se manteve no caminho de Deus, enfrentando dificuldades e seguindo firme na sua opção. Duas cenas nos mostram a Maria perseverante na fé. A primeira, tão conhecida na devoção popular, consiste na sua presença silenciosa, triste, chorosa, desafiadora, diante da cruz de Jesus. Lá estão João, o discípulo amado; Madalena, a discípula amada, outras mulheres e a mãe de Jesus. Além da dor da morte, eles suportaram a vergonha de estar ao lado de alguém condenado como criminoso, na morte de Cruz. Maria persevera no sofrimento, diante do aparente fracasso. É grande prova de fé. O silêncio de Deus.

A segunda cena é bem diferente. A comunidade cristã está radiante, pois Cristo ressuscitou. Ele comunica paz e alegria. Mostra que valeu a pena perseverar com Ele. E chega a hora de partir de volta para o Pai e enviar o Espírito Santo. E ali está novamente Maria, constante na oração com os discípulos e outras mulheres (At 1,14). Ah, este é o lado alegre da perseverança. É terminar bem aquilo que ela começou de forma tão bela. Maria participa agora como mãe da comunidade cristã. Já colhe os frutos de um longo caminho de cultivo da fé.

Que Maria, mãe da perseverança, nos ajude a cultivar a Palavra de Deus, a resistir nos momentos de crise, a saborear e partilhar os bons frutos daqueles que permanecem em Cristo. Amém!

sexta-feira, 29 de dezembro de 2017

11º Congresso Internacional de Mariologia em Aparecida


A Academia Marial de Aparecida e a Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP) promoveram o 11º Congresso Mariológico do Santuário Nacional, nos dias 09 a 12 de agosto de 2017. Realizado no Centro de Eventos do Santuário, na Cidade de Aparecida, interior do Estado de São Paulo, o Congresso contou com uma presença maciça de presbíteros, leigos e leigos, religiosas e seminaristas. O tema: “Aparecida, 300 anos de fé e devoção” evoca o tricentenário a descoberta de uma pequena imagem da Imaculada Conceição, por três pescadores, nas águas do Rio Paraíba do Sul. A imagem de Maria, encontrada no fundo do rio, em duas partes (a cabeça e o corpo) provocou na época uma pesca milagrosa. E lentamente levou à difusão desta devoção à Nossa Senhora. Espalhada por todo o país, “Nossa Senhora (Madonna) Aparecida” foi proclamada a padroeira do Brasil em 1930. Embora invocada com o nome de “Aparecida” (pois apareceu no fundo das águas), não se trata de uma “Aparição”, no sentido estrito. Pois não há videntes, nem mensagens atribuídas a Maria.

O Congresso Mariológico teve como objetivo principal estudar sobre o fenômeno de Aparecida, com o múltiplos olhares da teologia, da pastoral e das Ciências da religião. A Conferência da Abertura, intitulada “As hermenêuticas de Aparecida”, foi apresentada pela teóloga Maria Clara Bingemer (PUC – Rio), na primeira noite. O segundo dia do Congresso iniciou com a celebração eucarística presidida pelo Arcebispo de Aparecida, Dom Orlando Brandes. A seguir, a Conferência “A história da devoção a Aparecida no contexto do catolicismo popular”, proferida pelo historiador Frater Dilermando Ramos Vieira, OSM. A tarde de trabalho foi coordenada pelo grupo de pesquisadores de Ciências da Religião da PUC-SP. O painel foi composto por Denise Ramos (A imagem das águas: leitura junguiana) e  Edin Abumanssur (Análise comparada dos mitos de origem dos Santuários brasileiros). Seguiu-se uma “mesa redonda”, com perguntas e intervenções dos participantes. O período da noite foi dedicado ao momento cultural, com lançamento de livros e apresentação da Orquestra sinfônica do Santuário Nacional. Convém citar que esta orquestra é composta em grande parte por jovens pobres da região, que aprendem gratuitamente a desenvolver seu talento artístico, como forma de promoção social.

O terceiro dia do Congresso de Mariologia iniciou-se, como sempre, com um momento orante. A seguir, a conferência “A devoção a Aparecida e a identidade nacional brasileira”, proferida pelo sociólogo Rubem Cesar Fernandes. Na segunda parte da manhã aconteceram seminários simultâneos. Os participantes se inscreveram em um deles. Metodologia diferente das conferências, esses seminários visavam abordar algum tema mariano específico, com maior interação entre os participantes. Foram os seguintes, com os respectivos coordenadores: (1) A composição do espaço sagrado do Santuário Nacional de Aparecida – Zenilda Cunha; (2) Aparecida em números – Jorge Sampaio;  (3) Maria e as mulheres – Cecília Domezi; (4) A mariologia de Lutero – Haidi Jarschel,  (5) Visita Guiada ao santuário. No período da tarde, o Irmão Afonso Murad apresentou a conferência “Devoção a Maria – Ancoragem e perspectivas”. A seguir, aconteceu mais uma rodada de Seminários simultâneos:  (1) Devoção mariana entre Portugal e Brasil – João Emanuel Duque (Portugal);  (2) A pastoral do Santuário: um balanço histórico – Vitor Hugo;   (3) Aspectos teológico-pastorais da devoção a Maria – Agenor Brighenti; (4) Visita Guiada ao Santuário. Este longo e produtivo dia de trabalho se encerrou com a mesa redonda “A devoção mariana na América Latina. Entre o popular e o oficial”, sob a coordenação de Lina Boff.

O último dia do 11º Congresso Mariológico foi abrilhantada com a Conferência de Encerramento, apresentada por  Dom Francisco Biasin, bispo de Volta Redonda (RJ). Após a apresentação do conferencista, que discorreu sobre os elementos fundamentais da mariologia bíblica, houve espaço para perguntas e observações dos participantes. A parte da tarde foi destinada à Assembleia dos Associados da Academia Marial. Por fim, a celebração eucarística coroou estes dias de intensa reflexão, estudo e oração.

Alguns aspectos merecem destaque neste evento:

(1) Esse congresso mariológico de Aparecida foi antecedido por outros congressos anuais. Em relação aos anteriores, pode se dizer que ele foi mais teológico do que devocional. Respondeu assim a uma necessidade pastoral de iluminar a piedade mariana com uma reflexão respeitosa e consistente.

(2) O congresso realizou seu intento de refletir sobre o fenômeno de Aparecida, de forma multidisciplinar. Neste sentido, os pesquisadores das Ciências da Religião trouxeram importante contribuição, ao mostrar, por exemplo, a força do mito nas devoções e a associação do culto a Maria com a figura arquetípica da “Grande Mãe”. Tal abordagem amplia a nossa visão. E fornece elementos para um discernimento pastoral, que distingue os fatores teológicos daqueles culturais.

(3) O acontecimento abriu novas portas para a pesquisa da teologia e das Ciência da Religião. Mostrou que as duas ciências podem estar juntas e estabelecerem uma colaboração recíproca, respeitando a especificidade de cada saber.

 (4) O Congresso não foi um evento isolado. Ele fez parte de uma série de celebrações, encontros, cursos, seminários, peregrinações e vigílias que marcaram o “Ano Mariano da Igreja do Brasil”, em comemoração aos 300 anos da manifestação de Maria, como a “Senhora Aparecida”.

 (5) O Congresso mariológico de Aparecida se somou a outros importantes eventos de natureza acadêmica, durante o ano mariano. A título de exemplo, citamos aqui: o Simpósio Internacional Mariológico, promovido pelo Santuário N.S. de Fátima e a Universidade Católica de Pernambuco (UNICAP); o VII Simpósio de Teologia PUC-Rio, com o tema Maria: Escritura, Teologia e Religiosidade; e o Congresso de Mariologia: Piedade Popular, Cultura e Teologia, da PUC Rio. Em diferentes graus, tais eventos mostraram que a devoção mariana necessita articulação com a mariologia bíblica e dogmática. E que a devoção, tão saudável, precisa ser regida por critérios teológico-pastorais e centrar-se em Jesus Cristo.

(6) A organização do Congresso preparou um livro, no qual já se encontravam as principais conferências, painéis, mesas redondas e até os temas de alguns seminários. Com o título do Congresso, “Aparecida, 300 anos de fé e devoção”, a obra editada pela Editora Santuário contém 14 artigos, divididos em: (a) 300 anos depois; (b) As dinâmicas da devoção; (c) A fé e a vida. Trata-se, na verdade, dos Anais do conteúdo teológico-pastoral do Congresso. Tal procedimento é essencial para conhecer e difundir as contribuições do Congresso para a mariologia atual.

Esperamos que o 11º Congresso Mariológico de Aparecida, desta vez com caráter internacional, fomente uma devoção mariana equilibrada, madura e centrada em Jesus.
Ir. Afonso Murad

sexta-feira, 8 de dezembro de 2017

Imaculada Conceição

Cada ser humano recebe um dom de Deus quando vem a este mundo. Somos criados em Cristo, marcados pelo selo da Trindade, mesmo que não tenhamos consciência disto. Paulo diz que antes da criação do mundo, Deus nos escolheu em Cristo para sermos diante dele, santos e sem mancha (Ef 1,4). Mas sabemos por experiência que somos seres fragmentados, numa luta interior. A gente quer fazer o bem, ser inteiro nas decisões, perdoar, exercitar a generosidade, lutar para melhorar o mundo... As realizações ficam abaixo dos bons desejos. Somos frágeis, com a tendência ao mais fácil e imediato.

O dogma da Imaculada afirma que Maria, sendo humana como nós, recebe de Deus uma graça especial, para ser forte diante das tentações do mal, assumir com inteireza suas decisões e ser proativa. Maria foi preparada por Deus para a missão de mãe, educadora e discípula de Jesus. E assim ela assumiu sua missão, como nos mostra o evangelho: ouviu a palavra, guardou no coração e frutificou.
A graça de Deus, quando atua no ser humano, é sempre uma estrada de duas mãos. De um lado, o Senhor nos oferece sua presença irradiante, que purifica, perdoa, fascina, integra e convoca para a missão. De outro lado, a gente responde, ao viver na fé, na esperança e no amor solidário. 
O dogma da Imaculada não fala somente de um privilégio de Maria, e sim da vitória da graça de Deus nela. Isso tem enorme valor para toda a humanidade. Mostra que o mais original no ser humano não é o pecado, a mediocridade, as sombras, mas sim o dom de Deus, a criatividade, a luz.

Desde o início Deus nos chama para a comunhão com ele. Assim já experimentaram os profetas: Antes de saíres do ventre de tua mãe, eu te conhecia, e te consagrei (Jr 1,5)”; O senhor me chamou desde o ventre materno (Is 49,1).
Na conhecida canção sobre a Imaculada se diz: Um coração que era sim para a vida/ Um coração que era sim para o irmão. Um coração que era sim para Deus, Reino de Deus renovando este chão! Maria, mais do que ninguém, experimentou a gratuidade do Senhor, um dom especial que a fez mais livre e consciente para caminhar na fé, na esperança e no amor solidário. Recebeu desde o início a redenção em Cristo, que livra do pecado e conduz à vida plena.  Diante desta proposta de Deus, ela dá uma resposta durante toda a existência, com intensidade e inteireza. Viva a Imaculada! A graciosa e cheia de graça!

domingo, 12 de novembro de 2017

Os títulos de Maria


Sou romeiro e no seu dia, na multidão mãe querida
Me ajoelho e rezo, Nossa Senhora Aparecida
Nossa Senhora da Glória, de Lurdes, de Nazaré (..)
Minha mãe, nossa senhora, somos todos filhos seus
Todas as nossas senhoras são a mesma mãe de Deus.

Na música “Todas as Nossas Senhoras”, Roberto Carlos expressa de forma poética uma prática comum do povo católico. Costumamos invocar a Maria, pedir seu auxílio e proteção, com diferentes nomes. A lista é interminável e tem origem diversa. Alguns títulos provem da devoção de institutos de consagrados: NS do Rosário (dominicanos/as), Auxiliadora (salesianos/as), Perpétuo Socorro (redentoristas), Mãe três vezes admirável (Shönestad). Outros títulos de Maria vem das aparições reconhecidas pela Igreja, como NS de Fátima, Lurdes, Salete e Guadalupe. Há aqueles que surgiram de devoções transformadas em dogmas marianos, como Imaculada Conceição e Assunção. Para este último título, existem várias invocações. NS. da Glória, da Boa Viagem (para o céu!) e da Abadia traduzem a mesma crença: Maria já está glorificada, de corpo e alma, junto de Jesus na comunhão dos Santos.

Há títulos marianos engraçados, como NS das Cabeças. Trata-se de uma imagem do Brasil colonial, na qual Maria está cercada de cabecinhas de anjos. Ou ainda, NS do Bom Sucesso, que era invocada pelas mulheres, no parto. Existem títulos provenientes de momentos da vida de Maria, como NS de Nazaré, NS da Piedade (Maria com o filho morto no colo), NS das Dores (especialmente a da cruz). E, para concluir sem terminar, também se invoca Maria com títulos simbólicos, sobretudo aqueles das Ladainhas, como “Mãe do Bom Conselho”, “Sede da Sabedoria”, “Consoladora dos aflitos”.

Como se vê, a Mãe Jesus é chamada com muitos títulos. Mas isso não pode nos levar à confusão, como se fossem várias santas diferentes. Ou que uma delas fosse mais poderosa do que a outra. Os vários títulos mostram que Maria, na glória de Deus, está pertinho da gente. Ela assume o rosto de muitas regiões e culturas, traduz o seu amor de várias formas. No dizer de Roberto Carlos, “Somos todos filhos seus! Todas as nossas senhoras são a mesma mãe de Deus”. É a única Maria, reconhecida e venerada com diferentes nomes.
Afonso Murad - Publicado em O Domingo

domingo, 29 de outubro de 2017

Maria foi obediente?

Ouvimos dizer que Maria foi uma mulher silenciosa e obediente. Antigamente, se acreditava que uma pessoa obediente não questionava nada e simplesmente seguia as normas e orientações de seus “superiores”. Os filhos obedeciam aos pais. A mulher obedecia ao marido. Os cidadãos obedeciam às leis e às autoridades civis e religiosas. Hoje, as pessoas não aceitam essa obediência cega. Querem saber os motivos de uma orientação da autoridade. Questionam quando se sentem injustiçadas. Percebem quando determinações “vindas de cima” não levam em conta a situação dos indivíduos, ou não visam o bem comum. Lutam para que sejam modificadas. Não aceitam que a mulher seja submissa ao marido. Cada vez mais, queremos ser ouvidos e participar dos processos decisórios.

Jesus era obediente ao Pai. Não foi fácil, pois a vontade de Deus não era tão evidente. Assim, ele passa longo tempo no deserto, preparando sua missão. Ali vence todo tipo de tentação, o que fortalece suas convicções (Lc 4,1-13). Jesus se retira em oração, antes de tomar decisões importantes, como para escolher os dois apóstolos (Lc 6,12s).  Quando percebe a possibilidade real da morte na cruz, vive uma grande luta interior, a ponto de suar como sangue: “Pai, afasta de mim este cálice. Mas que seja feita a tua vontade (Lc 22,42-44). Jesus aprendeu a obedecer (Hb 5,8). Foi um processo de toda a vida.

Porque Jesus vive nesta intimidade com o Pai, é livre diante das leis religiosas e civis do seu tempo. Parece desobediente. Jesus denuncia que muitas dessas determinações legais escravizavam as pessoas e não expressavam a vontade de Deus. Assim, ele come e bebe com pobres e pecadores (Mc 1,15-17), o que escandaliza os escribas e fariseus. Cura no sábado, o que não era permitido (Mc 3,1-5). Deixa seus discípulos tomarem as espigas de trigo para comer, nesse dia. Proclama: “o sábado foi feito para o homem, o não o homem para o sábado” (Mc 2,27). Questiona o excesso de ritos de purificação: “o que torna impuro é aquilo que sai do coração humano” (cf. Mc 7,1-23). Diz que a oferta da pobre viúva era a mais preciosa! (Lc 21,1-4). Valoriza as mulheres, a ponto de incorporá-las com suas seguidoras e colaboradoras, o que não era normal (Lc 8,1-3).


A obediência de Maria não era a atitude passiva de uma mulher submissa. Na anunciação, ela responde com vigor ao convite de Deus. Visitar Isabel é uma atitude corajosa, pois as mulheres não podiam viajar sozinhas. Durante muitos momentos da vida, ela busca o sentido dos fatos para descobrir o que Deus lhe falava (Lc 2,19.51). Ser obediente à Deus lhe traz muita alegria, como ela expressa no seu cântico de louvor (Lc 1,47). Mas também conflito e dor, como uma espada que corta o coração (Lc 1,35). Maria acompanhou Jesus, e aprendeu muito com ele, durante sua vida pública. 

Como Jesus, também ela aprendeu a obedecer. Que Maria nos ensine esta obediência ativa, dinâmica e participativa.