quarta-feira, 30 de dezembro de 2009

sexta-feira, 25 de dezembro de 2009

Maria e o mistério do Natal

Neste tempo de Natal, partilho com você uns versos deste belo hino de Dom Pedro Casaldáliga

Dizer teu nome, Maria,
É dizer que nossa carne veste o silêncio do Verbo.

Dizer teu nome, Maria,
É dizer que o Reino
vem caminhando com a história.

Dizer teu nome, Maria,
É dizer que todo nome
pode estar cheio de Graça.

Dizer teu nome, Maria,
É dizer-te Toda Sua,
Causa de Nossa Alegria.

quinta-feira, 10 de dezembro de 2009

Minhas impressões sobre o curso de mariologia

Texto de ELISA ESTHER, estudante do terceiro ano de teologia no ITESP, São Paulo:
Para mim, o curso de mariologia foi muito gratificante, e sinto que adquiri outra experiência e novas descobertas em relação à pessoa de Maria na Sagrada Escritura, na história do cristianismo e seu papel na Igreja e na vida do povo de Deus. Sempre no início de um curso existem algumas curiosidades, de fazer algumas perguntas e isto serviu como primeira dinâmica que o professor usou para despertar as nossas perspectivas em relação à mariologia.
Durante o semestre percorremos um caminho dentro da história para contemplar profundamente a pessoa de Maria no mistério da salvação, bem como as contradições e questionamentos quanto às devoções Marianas, como aconteceu na Reforma Protestante. Para Igreja isto significou um tempo novo para perceber o lugar da mãe de Jesus na Igreja.
Vimos também que Deus revelou em Maria o verdadeiro amor (Trindade) que ele tem com o ser humano. Maria, acolhendo o verbo, abriu um novo caminho para todos aqueles(as) que buscam de coração sincero viver os valores de uma vida autentica, pautada na escuta e na acolhida da palavra de Deus (Lc 1,26-40). Maria ensina-nos a ser peregrinas (os) na fé, na história, sendo nova família com todos em Jesus (Mc 3,31-35), fazendo a sua vontade.
O professor nos ajudou a conhecer melhor o surgimento das devoções populares dentro da Igreja. Elas surgem como expressão cultural, livres, criadas e sustentadas pelo povo e por todos(as) que sentem uma identificação especial com a pessoa de Maria, dentro de sua experiência de fé.
O Concilio Vaticano II apresentou Maria de maneira equilibrada, criticando os exageros. Maria é mãe e companheira, serva, peregrina e mestra. No documento de Aparecida percebemos o mesmo espirito, ao afirmar como Ela está presente na vida dos nossos povos, que na América Latina Maria é a pedagoga na fé e na caminhada do povo.
Em suma, para mim é um novo começo, no campo pastoral bem como refazendo a própria compreensão diante das concepções que eu tinha sobre a mãe de Jesus. Sinto-me mais fortalecida e equilibrada, e também desafiada diante da realidade atual. Isto é bom, pois ser seguidora de Jesus é sentir-se desafiada dentro do projeto de vida e renovar-se a cada instante. Maria é exemplo como mestra nesta jornada e nos ensina como viver para ser fiel na missão.
Imensa gratidão, a ti professor, por teres nos proporcionado um tempo fecundo de estudos e reflexão, pelo teu esforço e dedicação. Forte abraço. Elisa
(Foto: Icone de Maria. Itaici-SP)

sexta-feira, 20 de novembro de 2009

Maria no concílio Vaticano II














































Para baixar esta apresentação de uma só vez,

quinta-feira, 5 de novembro de 2009

Questões de Mariologia

1. Baseado nos textos do evangelho, mostre os traços lucanos da figura de Maria: perfeita discípula, peregrina na fé, sinal da opção preferencial de Deus pelos pobres, mulher iluminada pelo Espírito.
2. A partir dos textos joaninos sobre o Sinal de Caná (Jo 2,1-11) e a cena da cruz (Jo 19,25-27), apresente o perfil de Maria no quarto evangelho.
3. Explique o dogma da maternidade divina de Maria, nos aspectos teológico-trinitário e espiritual.
4. A partir de uma visão atual da teologia da Graça e do Pecado Original, explique o significado do dogma da Imaculada Conceição.
5. Se o culto cristão é trinitário, como se pode rezar a Maria? Qual o horizonte teológico para compreender o culto a Maria?
6. Mostre as principais contribuições do capítulo 8 da Lumen Gentium para a mariologia contemporânea.
7. A partir da Encíclica Marialis Cultus, aponte os critérios para atualizar o culto a Maria.
8. Quais os aspectos teológico-pastorais mais importantes sobre Maria no Documento de Aparecida?
9. Que critérios orientam o discernimento sobre a autenticidade de uma provável aparição de Maria? O que se pode afirmar, ao final deste processo?
10. O que o curso contribuiu para a sua vida cristã e a prática pastoral?

segunda-feira, 2 de novembro de 2009


Os estudantes de mariologia do ITESP visitaram a Catedral Ortodoxa de São Paulo, no bairro Paraíso, a fim de conhecer os ícones marianos. Além da acolhida fraterna dos nossos coirmãos ortodoxos gregos, tivemos as explicações do Prof. Dimitris, padre da Igreja católica de rito melquita e professor de iconografia.
Veja a explicação sobre um ícone mariano, clicando em:

quarta-feira, 21 de outubro de 2009

O que Maria não pode

(Padre Zezinho, “Maria do Jeito Certo”, Paulinas, p.71-72)

Maria vem depois do Cristo. É isso que a faz tão especial. Ela o segue.
Comecemos com uma palavra de irmão que leva a pensar. Se você gosta de Maria e fala dela com ternura, então pergunte-se: sua linguagem traz excesso de louvor a Maria? Maria pode ser louvada acima do Filho? A mãe pode ser mais lembrada do que o Filho?
Examine as expressões abaixo registradas. Onde está o erro ou a imprecisão delas?
- Ó Maria, teu nascimento nos trouxe a salvação.
- O terceiro milênio será de Maria.
- Todas as graças do céu nos vêm através de Maria.
- Tudo por Jesus, nada sem Maria.
- Se Jesus não atende, peça à mãe dele que você consegue!
- O terço é uma oração infalível. Maria sempre atende!
- O terço salvará o mundo.
- Ó Maria, concede-nos esta graça!
- Maria é mãe da Trindade.
- Maria está naquela hóstia.
- Jesus é o Filho da Rainha.

Agora responda a estas perguntas:
- Quem nos trouxe a salvação: Jesus ou Maria?
- O tempo, as coisas, os povos, a quem pertencem?
- Deus teria sempre que nos dar suas graças por Maria?
- Que conceito temos de Jesus? Ele se negaria a nos atender?
- Por que ele não atenderia e Maria sim?
- O que disse o Papa em 2002 sobre o rosário?
- O titular do Reino de Deus é Maria ou é Jesus?
- Qual o poder da reza do terço?
- Garantir a salvação pela reza do rosário não é exagerar a força de uma devoção que a Igreja acha muito salutar, mas não considera obrigatória?
- Quem pode nos conceder uma graça?

Um católico bem versado no catecismo sabe da importância que a Igreja dá a Maria como primeira cristã, exemplo de oração e de fidelidade ao Filho. Mas, quando, para exaltá-la, passamos por cima da doutrina da Igreja, mais prejudicamos do que ajudamos a fé católica.
Maria não é igual a Jesus. Ele é o Filho de Deus, e ela não é. Então, por que alguns se ofendem quando um pregador sugere que se fale mais de Jesus nos encontros, inclusive nos encontros para estudar Maria? Por que dizem que a sugestão de se redimensionar o seu louvor em alguns grupos é querer diminuí-la? A verdade a diminuiria?
Tudo aquilo que se refere a ela deve ser dito com clareza. Maria sabe o lugar dela. Nós é que precisamos reler o que a Igreja tem dito oficialmente sobre ela. Em Maria, o verbo “poder” vem depois do verbo “pedir”. Em Cristo, ele vem antes.

Desenho: Irmão Anderson, MSC.

segunda-feira, 5 de outubro de 2009

Dogmas marianos (síntese)

Cada dogma nos diz que Maria é uma pessoa humana como nós, mas muito especial. Os dogmas mostram algo de seu mistério, que não se percebe com um olhar superficial. Maria é como a terra virgem, cheia de viço, aberta para ser fecundada por Deus. Ao acolher o imenso dom do Senhor, ela se torna a mãe do Filho de Deus encarnado. Assim, ensina a humanidade a desenvolver os traços do amor materno.

Quando olhamos para Maria imaculada, essa mulher tão cheia de Deus, descobrimos que a vida dela foi como empinar uma pipa. Deus lhe deu o vento do Espírito, que soprava sobre ela sem resistências. E ela correspondeu sempre, com liberdade e generosidade. Soltava a linha, cada vez mais, realizando vôos leves, ousados e belos. E o final de sua peregrinação nesse mundo só podia ser bom. Maria é a mulher de Nazaré, mãe e educadora do Messias. Ela se torna a perfeita discípula de Jesus, que ouve a Palavra, medita e a põe em prática. Age também como mãe da comunidade. E Deus assume de tal maneira sua pessoa e sua missão, que Maria hoje está glorificada junto do seu Filho e dos santos, pela assunção.

Toda de Deus e muito humana: eis o segredo dos dogmas sobre Maria. Um segredo que nos ajuda a ser mais autênticos seguidores de Jesus, como ela.

terça-feira, 8 de setembro de 2009

Maria em Lucas: síntese(2)

(Reproduzo aqui o texto já publicado no mês de março, para facilitar o acesso ao blog para os alunos do ITESP)Lucas apresenta o mais belo e diversificado perfil de Maria na Bíblia. Para o evangelista, o discípulo de Jesus é aquele(a) que ouve seu apelo, segue-o e aprende com ele no caminho (Lc 5,10s; 13,22). Ser aprendiz de Jesus significa também fazer parte de sua comunidade, peregrinar na fé e participar da causa de Jesus, que é o Reino de Deus. O seguidor de Jesus é aquele que “ouve a Palavra de Deus num coração generoso, conserva no coração e frutifica na perseverança” (Lc 8,15: explicação da parábola da semente e dos tipos de terra). Ora, a grande novidade de Lucas é apresentar Maria como a imagem viva do discípulo(a) de Jesus.
Podemos resumir as seguintes características de Maria no terceiro evangelista: a seguidora de Jesus, a peregrina na fé, o sinal da opção de Deus pelos pobres e a mulher contemplada pelo Espírito Santo.

(1) Seguidora de Jesus: Maria realiza as três qualidades básicas do discípulo fiel. Ela acolhe a palavra de Deus com fé (relato da anunciação: Lc 1,28-38), conserva a palavra no coração e a medita, confrontando-a com os fatos (Lc 2,19 e Lc 2,51) e frutifica esta palavra viva; sendo uma pessoa de intensa fé (“feliz de você que acreditou”: Lc 1,40) e a mãe do messias (“bendito é o fruto do teu ventre” em Lc 1,42). Somente Lucas relata a cena da mulher na multidão que grita: “Feliz o ventre que te gerou e o seio que te amamentou”, em claro elogio à maternidade biológica. Mas Jesus lhe responde: “Antes, felizes os ouvem a palavra de Deus e a realizam” (Lc 11,27). Antes de ser uma crítica à Maria, este texto revela sua real importância. A maternidade é conseqüência e expressão de sua fé. Neste sentido também, Lucas refaz a expressão final do (des)encontro de Jesus com os familiares, com a expressão: “Minha mãe e meus irmãos são os que ouvem a Palavra de Deus e a realizam”(Lc 8,21). Há portanto uma prioridade da fé, enquanto adesão à Jesus e à sua causa, sobre o simples fato de ser mãe de Jesus.

(2) Peregrina na fé: Somente Lucas relata as palavras de Simeão a Maria: “Quanto a ti, uma espada transpassará tua alma” (Lc 2,25). Não se trata de uma alusão ao sofrimento de Maria na hora da cruz, pois nos evangelhos sinóticos Jesus morre sozinho e Maria não está incluída entre as mulheres que o observam, de longe. A espada tem um sentido metafórico. Alude a Jesus, que é a palavra-gesto do Pai, conforme Hb 4,12s: "A Palavra de Deus é viva, eficaz e mais penetrante do que qualquer espada de dois gumes. Julga as disposições e as intenções do coração. E não há criatura oculta à sua presença". Maria, como os outros aprendizes de Jesus, não sabia tudo. Foi fazendo descobertas no correr de seu caminho espiritual. Neste sentido, o relato da perda no templo confirma que Maria e José não entendem naquele momento as palavras e os gestos de Jesus (Lc 2,41-50). Por isso mesmo, ela precisa refletir e buscar o sentido dos fatos. A interpretação nova que Jesus dá à Lei, ao sábado, ao templo e às tradições questionava seus seguidores, trazia conflitos e lhes provocava mudanças na sua visão religiosa. Era uma espada! Maria passou pelo crivo da espada da Palavra, e cresceu com isso.

(3) Sinal da opção de Deus pelos pobres: Lucas é o evangelista que mais desenvolve a dimensão social da Boa Nova de Jesus. Coerente com esta orientação, Maria é apresentada por ele como uma mulher pobre, da desconhecida terra de Nazaré da Galiléia. Jesus nasce num lugar sem recursos e é envolvido em faixas (Lc 2,12). Como são pobres, os pais de Jesus oferecem pássaros no templo, em vez do cordeiro (Lc 2,24). O cântico de Maria, chamado “Magnificat” resume, de forma poética, a proposta de Jesus nas Bem-Aventuranças (Lc 2,46-55 em comparação com Lc 6,20s). Sinaliza, com clareza, que a Boa Nova de Jesus propõe uma mudança nas atitudes das pessoas e nas estruturas sociais. Deus se volta sobretudo para os mais pobres, pois são os que mais necessitam. Sua misericórdia permanece para sempre.

(4) Mulher contemplada pelo Espírito Santo: Em Lucas, Jesus começa a missão recordando a profecia de Isaías: “O Espírito de Deus está sobre mim” (Lc 4,14). É o Espírito que age em Jesus e nos seus seguidores, após pentecostes. Maria é apresentada então como a mulher sobre a qual “a sombra do altíssimo” se estende, para possibilitar a concepção de Jesus. Ela também participa da comunidade que prepara a vinda do Espírito (At 1,14). Portanto, Maria é “contemplada” duplamente pelo Espírito Santo: no nascimento de Jesus e no nascimento da comunidade cristã, após a ressurreição de Jesus.

A partir de Lucas, descobrimos traços originais da figura de Maria. O “sim”, pronunciado com inteireza no início da juventude, se renova no correr da vida. Ela passa por crises e situações desafiadoras, que a fazem crescer e caminhar sempre mais na adesão ao Senhor. Maria nos recorda que Deus escolhe preferencialmente os simples e humildes para iniciar o Reino de Deus, esta recriação da humanidade e dos cosmos. A partir do Magnificat, ouve-se o apelo por novas relações interpessoais, econômicas, políticas, culturais e ecológicas. Maria simboliza o ser humano em construção, aberto a Deus, tocado pelo Espírito Santo, cultivando um coração solidário.
Essas características marianas inspiram atitudes de vida de cada cristão e da Igreja-comunidade. Sentimo-nos chamados a sermos discípulos fiéis de Jesus, ouvindo, acolhendo, guardando no coração e praticando sua Palavra. Renovamos o nosso “sim”, mesmo no meio das crises, pois sabemos que somos “bem-amados de Deus” (Ef 1,6). Alimentamos, como Maria, um coração agradecido a Deus, que O louva por todo o bem que Ele realiza em nosso meio e através de nós. E nos empenhamos pela solidariedade e pela cidadania planetária, construindo uma sociedade mais próxima do projeto de Deus.
Texto: Ir. Afonso Murad

sábado, 22 de agosto de 2009

Ícone de Maria, de Vladimir

O ícone é uma imagem feita em painel de madeira. Do grego, a palavra eikón significa imagem. Na cristandade oriental trata-se de um objeto de culto proposto pela Igreja à veneração dos fiéis; um instrumento didático, porque, por meio dele se torna presente o mundo invisível. A iconografia mariana transmite uma mensagem própria. Seu objetivo é louvar, glorificar e celebrar o Salvador do mundo. E Maria ocupa um lugar, junto com Cristo, todo especial na iconografia oriental.
Muitas destas imagens marianas se voltam para o mistério da encarnação do Cristo. Anunciam Maria como Theotokos, a Mãe do Filho do Deus encarnado, dogma declarado no Concílio Ecumênico de Éfeso, em 431. Um exemplo de ícone que apresenta o dogma da Theotókos é o da Virgem de Vladimir. Foi levado de Jerusalém para Constantinopla em meados do século V, passando então pela cidade de Kiev e daí para a cidade de Vladimir. Hoje se encontra na catedral de Uspenskii, em Moscou. Como o ícone tem uma finalidade didática, por cada traço tem um significado.

Este tipo de ícone é chamado de Eleúsa, e significa terna, misericordiosa. Trata da Maria que leva no braço o Menino Jesus. A postura deste é de se encostar afetuosamente na mãe. Face a face e com o braço em volta do pescoço dela. O menino parece acariciar o queixo da mãe com o seu rosto. É a imagem da Theotokos, que coloca em evidência o afeto que une mãe e Filho, exaltando a humanidade de Cristo e a Maternidade Divina de Maria.
Os rostos dos dois se encontram em gesto afetuoso. Uma das mãos da mãe, que está livre, aponta para o Filho, como a dizer que ele é “o caminho, a verdade e a vida” (cf. Jo 14,6). A imobilidade da imagem representa a paz. O ícone está imerso na luz que vem de Deus, representado pelo fundo dourado. O manto é adornado com elaborados desenhos. O branco da roupa do menino representa a luz mesma, obtida pela soma de todas as cores. Alude à nova vida da ressurreição do Cristo. A púrpura ou o roxo, característico dos ícones do Pantokrátor (Senhor Glorificado) da Theotokos, é a cor do poder divino que Cristo, e por extensão deste, de sua mãe.
A franja sugere a dignidade real. As estrelas no ombro e na testa representam a virgindade de Maria. As letras gregas, usualmente a primeira e a última de um nome, identificam Maria como mãe de Deus. E no que se refere ao menino, como Filho de Deus.

Conforme a cultura da época, a cabeça feminina é coberta por um manto, não deixando aparecer os cabelos. As cabeças de Cristo e de Maria estão circundados por uma auréola de cor dourada, representando a luz de Deus. O rosto é a alma do ícone. Com os olhos voltados para frente, significa a presença representada pela frontalidade. Nesta posição, estão em contato direto com quem o contempla. Na posição orante demonstra que o seu pensamento está voltado para Deus. Neste ícone da Virgem de Vladimir, o rosto de Maria está voltado para Jesus, e ao mesmo tempo o seu olhar se dirige a quem o observa. Os olhos vigiam e interrogam a alma do expectador, querendo conduzi-lo a contemplar o mistério que apresenta.

Neste dogma, representado no ícone, percebemos que Maria contribui para fazer a história da salvação acontecer. Os fracos podem gerar Deus no seio da história. Maria é a figura da pessoa que encarna a Palavra de Deus, gerando vida. Ela coopera para a salvação humana com livre fé e obediência (LG 144). Torna-se assim parceira de Deus, e colaborando ativamente e tomando consciência de sua missão. Uma mulher pobre, de Nazaré da Galiléia, foi escolhida para ser a mãe do messias. Mistério da opção preferencial pelos pobres!
No seu corpo a Palavra se fez carne e habitou entre nós de modo concreto. Nela se cumpriu o que foi dito da parte do Senhor (Lc 1,45). Por seu sim, a palavra eterna de Deus se fez Palavra histórica neste mundo. Ação afetuosa de Deus Pai, por seu Filho Jesus Cristo, na força do Espírito! O Deus Trino abraça toda a humanidade por meio da maternidade de Maria, vindo ao nosso encontro. Ela une divindade e humanidade no seu sim. É o ponto de união entre o céu e a terra, segundo o documento de Puebla (n. 301).
Assim, como na iconografia mariana, a mãe aponta para o Filho, caminho verdade e vida, como a dizer: “fazei o que ele vos disser” (cf. Jo 2,5 ). Ao mesmo tempo em que se coloca a caminho, como seguidora e discípula, escutando a palavra de Deus e a colocando em prática (cf. Lc 11,28; cf. 1,38.45).
Texto: Frei Chico Viana, ofm (Aluno de mariologia no ISTA)
Revisão: Afonso Murad

quarta-feira, 12 de agosto de 2009

Bibliografia básica sobre Maria

1. Livros
AGOSTINHO, St., A Virgem Maria. São Paulo, Paulus, 1996, 177 pp. (breves textos comentados).
BOFF, Clodovis, Mariologia social. São Paulo, Paulus, 2006, 716pp. (Exaustivo manual de mariologia).
BOFF, Clodovis, Introdução à mariologia. Petrópolis, Vozes, 2004, 121pp. (Excente trabalho de iniciação à Mariologia).
BOFF, Lina, Mariologia. Interperlações para a vida e a fé. Petrópolis, Vozes, 2007, 186 pp. (reflexões sobre Maria em Lucas, na Marialis Cultus e em Puebla).
BOFF, Leonardo., O rosto materno de Deus. Petrópolis, Vozes, 1979, 267 pp. (Ensaio polêmico e criativo: reler a figura de Maria à luz do arquétipo do feminino).
BOTELHO MEGALE, N., 112 invocações da Virgem Maria no Brasil, 1986, Petrópolis, Vozes, 376 pp. (Breve apresentação das principais “Nossas Senhoras”)
CALIMAN, C.(org), Teologia e Devoção mariana no Brasil. São Paulo, Paulinas, 1989, 152pp (pequenos artigos de mariologia, de vários autores).
CANTALAMESSA, R., Maria, um espelho para a Igreja. Aparecida, Santuário, 1992, 193 pp (Espiritualidade mariana).
DE FIORES, S., Maria en la teologia contemporanea. Sígueme, Salamanca, 1991, 603 pp. (Obra completa, de caráter programático e histórico-crítico. Retoma as principais correntes da mariologia e reflete sobre os dogmas marianos).
DE FIORES, S. et MEO,S. (org), Dicionário de mariologia. São Paulo, Paulus, 1995, 1350 pp (dicionário imprescindível para estudar mariologia).
FORTE, B., Maria, a mulher ícone do mistério. São Paulo, Paulinas, 1991, 248 pp. (Síntese original dos dados bíblicos e dogmáticos sobre Maria. Resgata elementos da trilogia simbólica mariana (virgem, esposa e mãe).
FRANCIA, A. e Sánchez, G., Maria@sempre. Uma mulher do nosso tempo. São Paulo, Paulus, 2007, 208pp. (catequese e celebrações marianas, com enfoque existencial).
GARCÍA PAREDES, J., Mariología. Madrid, BAC, 1995, 411 pp. (Manual atualizado e didático).
GONZÁLES, C.I., Maria, Evangelizada e evangelizadora. São Paulo, Loyola, 1990, 444 pp. (Manual de mariologia do CELAM, contemplando Maria no Novo Testamento, no dogma, no culto e nas "aparições", em perspectiva conservadora).
GONZÁLEZ DORADO, A., De María conquistadora a María liberadora. Mariologia popular latinoamericana. Santander, Sal Terrae, 1988, 142 pp. (Analisa o valor e a ambiguidade da "mariologia popular", em confronto com a reflexão bíblica e teológica sobre Maria, na perspectiva da teologia da libertação).
L. BINGEMER, M.C. et GEBARA, I., Maria, mãe de Deus e mãe dos pobres. Petrópolis, Vozes, 1987, 208 pp. (Mariologia na perspectiva da Teologia da libertação e feminista, de caráter teólogico-pastoral).
LAURENTIN, R., María, clave del mistero cristiano. Madrid, San Pablo, 1996, 160 pp (Sintese de mariologia deste famoso escritor francês).
MURAD, A., Quem é esta mulher? Maria na bíblia, São Paulo, Paulinas, 1996 (Mariologia bíblica, destinada a estudantes de teologia).
MURAD, A., Maria, toda de Deus e tão humana. São Paulo, Paulinas, 2004 (Manual de Mariologia de cunho teológico-pastoral)
MURAD, A., Visões e aparições. Deus continua falando? Vozes, 1997. (Análise do fenômeno das Aparições e critérios de discernimento)
NAVARRO PUERTO, M., Maria, la mujer. Ensayo psicológico-bíblico. Madrid, Publicaciones Claretianas, 1987, 292 pp. (Ensaio interdisciplinar bem-sucedido sobre Maria, destacando seu aspecto feminino).
PADRE ZEZINHO, Maria do jeito certo. São Paulo, Paulinas, 2008, 1994. (Livro pastoral lúcido, questionando os excessos marianos na Igreja)
PIKAZA, X., La madre de Jesús. Introducción a la mariologia. Sígueme, Salamanca, 1990, 411 pp. (Excelente trabalho, de cunho espiritual, exegético e especulativo, em diálogo com teologias contemporâneas).
PIKAZA, X., Amiga de Dios. Mensaje mariano del Nuevo Testamento. Madrid, San Pablo, 1996, 258 pp.
KUNG, H (org), Maria nas Igrejas. Número temático de Concilium 188, 1983, 134 pp.
SCHILLEBEECKX, E. e HALKES, C., Mary yesterday, today, tomorrow. SCM Press, 1993, 88 pp. (Há versão em espanhol).

2. Artigos em dicionários ou enciclopédias
L. BINGEMER, M.C. et GEBARA, I., María, in: Mysterium Liberationis. Vol II, p. 601-618.
LAURENTIN, R., María, in: Diccionario teológico interdisciplinar. Vol III, p. 413-431.
VV.AA, María-Mariología, in: Diccionario de Conceptos teológicos. Vol II, p.25-39.
VV.AA, Maria (número temático de RIBLA, 2004)
VV.AA. Maria, Mariologia, in: Dicionário de Teologia feminista.

3. Revistas de Mariologia
Ephemerides Mariologicae, Misioneros Claretianos, Madrid.
Theotokos, Ricerche interdisciplinari di Mariologia, Edizioni Monfortane, Roma.
Marianum, della Pontificia Facultas Theologica "Marianum", Roma.

4. Documentos do magistério
LUMEN GENTIUM 8: (A mariologia do Concílio Vaticano II).
PAULO VI, O culto à Virgem Maria (Marialis Cultus), 1974.
JOÃO PAULO II, A mãe do redentor (Redemptoris Mater), 1989.
CELAM, Conferência de Aparecida, 2008 (ver: parágrafos sobre Maria)

(Atualizada em 11 de agosto de 2009. Preferencialmente, livros em português e espanhol)

quarta-feira, 5 de agosto de 2009

Aparições de Maria (2)

Continuamos a responder as principais perguntas sobre as Aparições de Maria. Se você quer conhecer mais, leia: "Visões e Aparições. Deus continua falando?", A. Murad, Ed. Vozes.

1. Como distinguir se uma aparição é autêntica?
Não podemos afirmar com total certeza, mas alguns critérios nos ajudam:
* Equilíbrio mental do vidente: se a pessoa tem boa saúde psíquica. Indivíduos mentalmente desequilibradas podem ter visões de Nossa Senhora, que são apenas criação de sua imaginação e do seu desejo. Normalmente, os videntes que querem ser reconhecidos pela Igreja, são submetidos a uma junta de profissionais, psiquiatras e psicólogos, para avaliar sua saúde mental.
* Honestidade do vidente e de seu grupo: O vidente e seu grupo devem buscar, com simplicidade, a fidelidade à vontade de Deus, e não seus interesses próprios. Por vezes, a busca de fama, poder ou dinheiro, ou a pressão de parentes e amigos acaba produzindo aparições induzidas nos videntes. Em resposta a estes estímulos, eles passam a criar e repetir mensagens, para atrair o grande público.
* Qualidade da mensagem: a mensagem do vidente deve estar de acordo com o evangelho e a caminhada da Igreja no seu país e no mundo. Deve ser Boa-Notícia, atualização do Evangelho para nós. Se, ao contrário, o vidente só lembra do castigo e da ira de Deus, está esquecendo a mensagem de misericórdia do evangelho (Lc 15). Se o vidente veicula mensagens eivadas de julgamentos e preconceitos contra pessoas e grupos, é sinal que não vem de Deus, mas do engano, do orgulho e da vaidade.
* Frutos das aparições: se o movimento de uma aparição leva muitos cristãos a viver melhor a fé, a esperança e a caridade, é um bom sinal. Também as curas e milagres podem nos dizer que Deus está agindo ali de maneira especial.
Esses quatro critérios podem ajudar você a analisar se um movimento de suposta aparição é bom e digno de crédito.

2. Qual a diferença entre “visão” e “aparição”?
Aparição significa que Maria glorificada se manifestou a um ou mais videntes e lhes deixou uma mensagem, para ser transmitida aos outros. Visão é um tipo de experiência mística extraordinária, na qual uma pessoa afirma ter visto a mãe de Jesus. Normalmente a visão vem acompanhada de uma mensagem. Mas também há místicos que não vêem, mas ouvem vozes de Jesus, de Maria, ou de algum santo. Isso pode acontecer também com qualquer um, alguma vez na vida, em momentos de intensa experiência espiritual. Quando falamos em aparição, estamos qualificando o fenômeno do ponto de vista do Sagrado que provavelmente aí se manifesta. Se dizemos visão, estamos sendo mais cautelosos, pois só dizemos que uma pessoa experimentou algo extraordinário. De qualquer forma, um pretenso vidente necessita de acompanhamento espiritual e humano qualificados, para discernir o que está acontecendo nele e ajudá-lo na caminhada de fé.

3. Os católicos necessitam acreditar nas aparições?
Não. As aparições não fazem parte do credo e dos dogmas católicos. Temos a liberdade de aceitar ou ignorar essa experiência religiosa. As aparições têm seu valor espiritual, mas não são absolutas. Até os pedidos dos videntes - que eles consideram vindos de Maria - como rezar o rosário ou fazer penitência, são apenas conselhos para ajudar a nossa vida cristã. Ninguém é obrigado a segui-los. Se alguém sente que isso a aproxima de Deus e o ajuda a realizar Sua vontade, pode se servir deles. Mas ninguém tem direito de julgar os que não acreditam nas aparições e ignoram os pedidos dos videntes. Por outro lado, os que não crêem em aparições devem respeitar os que pensam diferente deles. O católico pode confiar na experiência e na mensagem de alguns videntes, mas será uma confiança humana, mesmo que haja muitos sinais maravilhosos.

4. Como a Igreja reconhece a autenticidade de uma aparição?
Trata-se de um processo longo e demorado. Abre-se um processo canônico, que começa na diocese onde acontece o fenômeno. Isso exige que o bispo esteja aberto para analisar o fenômeno e creia que pode haver algo “a mais” acontecendo com o vidente. Uma comissão de peritos analisa a situação psíquica do vidente. O mesmo acontece com o teor das suas mensagens. Analisa-se também a qualidade dos sinais extraordinários realizados, especialmente curas e conversões. Passada esta fase, toda a documentação é enviada a Roma, que pode nomear outras comissões para convalidar o processo diocesano. O reconhecimento oficial é muito moderado na sua linguagem. Declara-se que a mensagem do vidente “é digna de fé humana” ou seja, pode ser divulgada e acolhida pelos fiéis, mas não constitui algo original ou obrigatório para a experiência cristã. Aceita-se que no local seja erguido um santuário de louvor a Maria, com o nome que o vidente lhe conferiu. Em momento nenhum, o documento oficial da Igreja declara que Maria apareceu naquele lugar. Por isso, as aparições estão no campo devocional, e náo do dogma.

domingo, 26 de julho de 2009

Aparições de Maria (1)

Aqui estão centrais sobre o tema das Aparições, com breves respostas. Para saber mais, veja o livro "Visões e Aparições. Deus continua falando?", Ir. Afonso Murad. Vozes.

1. Para que existem aparições, se Deus deixou sua Revelação na Bíblia?
As aparições não são consideradas uma nova Revelação de Deus, para completar ou continuar o que Jesus Cristo nos deixou. Elas são simplesmente uma experiência mística, vivida pelos videntes na presença de Nossa Senhora, para recordar a única revelação de Deus em Jesus Cristo. Os videntes relembram alguns aspectos da vida de fé, como a conversão, a oração, a penitência, a renovação da opção pelo Evangelho. Embora seja uma forma de comunicação extraordinária, as mensagens das aparições não substituem nem a Bíblia nem o Espírito Santo, que fala no coração de cada cristão e da comunidade. Um vidente ou uma pessoa comum, que vive sua fé intensamente, ambos têm o mesmo direito de serem escutados e acolhidos pelos seus irmãos, quando pronunciam palavras inspiradas.

2. Existem aparições ou elas são projeções dos videntes?
A pergunta deve ser respondida concretamente para cada caso. Há ocasiões em que existem muitos indícios de uma forte presença de Deus, fazendo-nos acreditar que não há uma experiência religiosa autêntica, como em Guadalupe, Lurdes e Fátima. Em outras, o bom senso leva a crer que há algo errado, mesmo que apareçam sinais cósmicos e aconteçam milagres. O fato de haver curas, conversões ou mesmo mudanças na natureza não provam que uma aparição seja legítima. Pois muitas vezes estes fenômenos têm sua origem na fé e na força espiritual da multidão reunida, e não na presença de Maria e no testemunho espiritual do vidente. Quando aparecem videntes fanáticos, com mensagens apocalípticas e moralistas, que não estão em sintonia com o evangelho e a caminhada da Igreja, não devem ser aceitos como legítimos.

3. Maria fala realmente aos videntes? As mensagens dos videntes se originam de Maria?
As aparições não são uma comunicação de Deus direta, em estado puro. Na mensagem do vidente, vêm misturadas as suas experiências psicológicas e culturais, a visão que ele tem do mundo, a mentalidade da época e tantas outras coisas. Até nas aparições reconhecidas pela Igreja, há muitas mensagem dos videntes na qual afloram o inconsciente coletivo, as manifestações devocionais. Por exemplo, a descrição do purgatório e o devocionismo dos santos, em Fátima. Usando uma comparação: os videntes não são como antenas parabólicas, que captam uma mensagem, inacessível para nós. São, antes, “destiladores” de uma experiência mística pessoal. Eles sempre transmitem uma experiência religiosa que foi destilada pela sua subjetividade psíquica e espiritual. Impossível fugir disso. Até a bíblia necessita ser interpretada, pois é Palavra de Deus em linguagem humana. Imagine então a mensagem de um vidente! Por isso, as mensagens de aparições não podem ser tomadas ao pé da letra, como se fosse uma comunicação “diretinha” de Jesus ou de Maria. Na mensagem do vidente, é necessário discernir o que pode ser um apelo de Deus para nós. Tomar o que é bom e deixar fora o que não nos ajuda a viver “na liberdade dos filhos de Deus” (Gal 5,1).

4. Porque só algumas pessoas vêem Nossa Senhora? Elas têm mais fé do que nós?
O fato de ver ou ouvir Maria não significa que os videntes tenham mais fé do que nós. Para um cristão, o mais importante não é ver coisas extraordinárias, mas entregar o coração para Deus, buscar realizar sua vontade e esperar nEle. A fé não precisa de sinais, embora agradeçamos muito a Deus quando Ele nos deixa algum. As pessoas que vêem ou ouvem aparições são chamadas de “videntes” ou “confidentes”. Normalmente, elas têm um poder mental extraordinário, são “sensitivas” ou “para-normais”. Dessa forma, vivenciam e interpretam a presença de Deus de maneira mais intensa do que nós. No momento de uma provável aparição, elas entram em “êxtase”, um forma de alteração da consciência, atestada por muitos estudos científicos. Deus pode se servir dessa capacidade extraordinária das pessoas, para nos comunicar algo de seu amor, através de Maria. No entanto, os para-normais ou sensitivos captam, elaboram e transmitem sua experiência, de acordo com seu nível espiritual e o equilíbrio psíquico. Ou seja, pessoas pouco evoluídas espiritualmente podem entrar em êxtase, mas a sua experiência mística será de qualidade duvidosa. Além disso, há indivíduos com sérios distúrbios psíquicos, que têm êxtases simulados. Dando azo à sua loucura, podem atrair multidões e levá-las ao engano.

5. Por que hoje há tantas pretensas aparições?
O mundo de hoje está em crise, vive conturbado. A passagem do milênio deixou muitas perguntas sobre o futuro do nosso planeta. As pessoas, desesperadas, confusas, cheias de problemas pessoais e familiares, com medo, procuram na religião alguma coisa segura, na qual se agarrar. Buscam alívio, consolo e algumas certezas para viver. Elas ficam encantadas com as coisas maravilhosas e mágicas da religião. Todo esse ambiente de insegurança, crise e medo da sociedade moderna levou a um reencantamento com o sagrado. Isso cria um ambiente favorável para surgir e se desenvolver fenômenos místicos extraordinários. Quando se tem notícia de uma possível aparição, as multidões correm ávidas para o local, na esperança de encontrar o que buscam: a paz, a cura, o emprego, a felicidade pessoal, o sentido para viver.... E o fato se divulga logo, com a facilidade dos transportes e dos meios de comunicação.

6. Por que alguns videntes insistem sobre o fim do mundo e o castigo de Deus sobre a humanidade?
Esse é um exemplo típico de como se misturam, na experiência do vidente, a mensagem de Deus com as coisas humanas. No passado, muitos santos e videntes já erraram quando fizeram previsão do fim do mundo e da segunda vinda de Jesus (parusia). Sempre que há uma grande crise nas civilizações, como está acontecendo hoje, alguns prevêem a destruição como única forma de purificação, para recomeçar direito. Na verdade, nós não sabemos sobre o fim do mundo (Mt 24,36). O futuro do mundo está nas mãos de Deus, e depende também das atitudes da humanidade. De qualquer forma, a verdadeira conversão não nasce do medo da destruição, mas da certeza que Deus é bom, que ele exerce sua compaixão pela humanidade e nos chama a uma vida plena (Jo 10,10).

7. Como distinguir se uma aparição é autêntica?
(Esta e outras perguntas serão respondidas no próximo artigo do blog)

Fonte: Afonso Murad. Maria, toda de Deus e tão humana. Paulinas.

quarta-feira, 22 de julho de 2009

Maria nos Apócrifos

No início do Cristianismo, surgiu uma enorme diversidade de textos. Alguns deles foram incluídos no Novo Testamento (textos canônicos). Outros foram atacados, suprimidos e até mesmo destruídos. Muitos chegaram até os dias atuais e são conhecidos como textos apócrifos, entre os católicos; entre os evangélicos como pseudoepígrafos. Desses, somente em relação ao Novo Testamento foram classificados 60 livros, enumerados entre evangelhos, atos, epístolas, e apocalipses. Cada um deles nasceu num contexto histórico determinado, com intenções específicas, nos informado assim sobre as várias formas de fé e prática cristãs nos séculos II, III e IV. E mais. Também através desses textos é possível evidenciar o processo constitutivo de um grupo cristão primitivo que se estabeleceu como predominante na religião e determinado pelos séculos seguintes no que eles acreditariam, o que praticariam e o que leriam como textos sagrados.
Muitos desses textos apócrifos mostram detalhes peculiares, que os Evangelhos Canônicos não se interessaram: como por exemplo, os relatos da infância de Jesus, narrando como foi criado, que coisas fez quando criança, como viveu na Família de Nazaré, seu relacionamento com sua mãe, o convívio com seu pai. Outros tratam de temas ou personagens específicos, complementando informações e fatos que, nos Evangelhos Canônicos, não encontramos senão, citações bem lacônicas. Desses escritos, destacamos aqui, os textos sobre Maria, mãe de Jesus. Elucidam detalhes sobre sua vida ou se dedicam a ela especificamente. Alguns deles são bem antigos, datam dos meados século II. Existem ainda uns poucos que são datados na Idade Média, quando a devoção mariana ganhou novas cores e novo vigor. Cito os mais importantes.

1 – Evangelho do Pseudo-Mateus: datado do século IV conta o nascimento de Maria e a infância de Jesus, com elementos gnósticos.
2 – Proto-Evangelho de Tiago: datado do século II, é atribuído a Tiago, o Irmão do Senhor. Ressalta o aspecto divino da vida e participação de Maria como mãe de Jesus. Apresenta o nascimento de Maria como um fato extraordinário, filha de um casal estéril: Joaquim e Ana. Descreve a consagração de Maria no templo, o casamento com o ancião José (viúvo com vários filhos) e sua virgindade perpétua. Este texto apócrifo influenciou sobre maneira a tradição popular da Igreja. Como, por exemplo, a celebração do dia dos pais de Maria, no dia 26 de julho. No Oriente venerava-se Santa Ana no século VI, e tal devoção estendeu-se lentamente por todo o Ocidente a partir do século X até atingir seu auge no século XV. Influenciou a iconografia cristã, quanto ela apresenta José como um senhor idoso de barbas brancas. Contudo, nesse evangelho, numa tentativa de afirmar veementemente o parto virginal de Maria e assim sua virgindade perpétua, há o relato de um bizarro “exame ginecológico” que uma parteira chamada Salomé, faz em Maria constatando a intacta pureza de Maria.
3 – Proto-Evangelho da Natividade de Maria: do século III, tenta demonstrar como foi importante o papel de Maria na história do Cristianismo.
4 – História de José, o carpinteiro: possivelmente do século IV, este livro trata da história de José, contada por Jesus aos Apóstolos no Monte das Oliveiras. Entretanto, Maria aparece em vários relatos: a vida no Templo, o casamento com José, o natal em Belém, a fuga para o Egito, sua aflição diante da morte de José.
5 – Evangelho de Bartolomeu: do século III, neste relato Maria fala, a pedido dos Apóstolos, sobre como recebeu a anunciação do anjo e a concepção.
6 – Evangelho armênio da Infância: fala da relação de Maria com o Menino Jesus, e traz alguns detalhes sobre como ela concebeu do Espírito Santo pela orelha! Maria é colocada como a nova Eva e mãe da humanidade. Datado do século VI.
7 – Evangelho dos Hebreus: Este evangelho menciona alguns eventos da vida de Jesus. Incorporando idéias gnósticas, foi utilizado por cristãos judeus no Egito. Relata que Maria é uma força que desceu do céu. Datação: século II.
10 – Trânsito de Maria do Pseudo-Militão de Sardes: narra a morte, a ressurreição e assunção de Maria. Possivelmente do século IV.
11 – Livro de São João evangelista, o teólogo, sobre a passagem da santa mãe de Deus: do século IV este texto conta, principalmente os detalhes da morte de Maria e sua assunção num domingo. 12 – Livro de São João, arcebispo de Tessalônica: organizado em forma de homilia, o texto considera sobre a festa da Assunção de Maria, porém sem os exageros. Datação provável é do século IV. Ele deve grande influência na devoção mariana posterior.
13 – Livro do Descanso: provavelmente do século III, porém há estudiosos que dizem até o século VI. Além de narrar a assunção de Maria, comenta fatos da sua vida e dos apóstolos.
14 – Passagem da Bem-aventurada Virgem Maria: os códices usados para o texto são do século XIII e XIV. Sua datação exata é ainda duvidosa. No texto Maria se queixa com João por tê-la abandonado apesar do pedido de Jesus, e fala da sua assunção, apresentando também a incredulidade de Tomé por não ter presenciado a morte de Maria. Termina assim: Roguemos insistentemente àquela cuja Assunção é hoje venerada e honrada por todo o mundo que se lembre de nós nos céus diante de seu piedosíssimo Filho.
15 – Evangelho Apócrifo da Virgem Maria: diz a lenda que este texto ficou famoso pelo fato de ter sido citado no apêndice da obra de uma cristã espanhola do século IV, chamada Etéria. Ela teria entrado em contato com esse texto numa peregrinação que fez a Terra Santa de um monge grego companheiro de São Jerônimo. Estudos posteriores demonstram que se trata de uma obra da Idade Média onde a devoção mariana ganha ascensão.

Esses textos surgem como convergências, divergências e disputas entre os diversos grupos cristãos. Nessa época não é possível se falar de um cristianismo acabado, com seus dogmas definidos. Cada grupo tenta estabelecer suas verdades, suas práticas e cultos. Muitos são influenciados pelo Gnosticismo, doutrina pela qual a salvação se dá através do conhecimento. Essa corrente ideológica atraiu muitos que se sentiam estranhos no mundo e que tinham uma visão pessimista dele. Surgem as primeiras controvérsias cristológicas: Docetismo versus a valorização da vida terrena de Jesus; a questão da divindade e humanidade de Jesus; para os gnósticos Cristo é o ser perfeito que veio libertar o ser humano da sua condição inferior e levá-lo de volta a plenitude. Quem conhece Cristo se torna outro Cristo e não apenas um simples cristão. Por isso, o aspecto da divinização da mãe do Senhor é importante.

O conjunto dos textos apócrifos sobre Maria, apesar de terem muitos elementos, não desenvolvem um pensamento teológico elaborado, não defendem uma tendência específica, seja do Cristianismo proto-ortodoxo, gnóstico ou de quaisquer outras. Eles são uma mistura dessas correntes. Portanto, é possivel que esses textos tenham sido escritos, em sua maioria, para satisfazer curiosidade de alguma comunidade cristã, fruto da imaginação de seus autores, criando uma espécie de novela da vida e do cotidiano de Maria. Aproveitando, obviamente para reforçar idéias como a concepção virginal, a virgindade perpétua, sua participação na obra salvífica de Deus, a assunção aos céus, seu lugar entre os apóstolos, pintando com tintas bem fortes os aspectos extraordinários, para realçar seu lugar como a nova Eva e mãe de toda a humanidade.

Diferentemente, os textos dos evangelhos de Lucas e João apresentam Maria como peregrina na fé, que se entrega o projeto de Deus, mesmo não compreendendo. Contempla e medita atenciosamente os acontecimentos, portanto, é alguém que precisa caminhar, que está em processo, que vive as alegrias e as esperanças, as tristezas e as dores da vida; que não tem dons sobrenaturais, alguém que é humana, e não uma deusa. Maria é aquela que convive com os pobres e faz a opção por eles, pois aprendeu isso de seu Filho. Nos evangelhos canônicos, principalmente em Lucas, Maria é discípula, peregrina na fé, pobre com os pobres, mulher agraciada pelo Espírito Santo.

Hoje percebemos uma tensão, como aconteceu entre os apócrifos e os livros canônicos. Ou seja, uma tensão entre os muitos aspectos da religiosidade popular em relação à Maria, que em sua maioria, têm suas raízes apócrifas e o que propõem a teológica bíblica atual. Portanto, faz-se necessário encontrar um justo equilíbrio entre piedade popular e teologia bíblica. Construir uma piedade que reflita e questione, que tenha pés no chão e mãos operosas, e uma teologia que medite e faça rezar. Resgatando, assim, a Maria presente na Bíblia, sem desconsiderar o que a tradição popular conservou de mais poético e belo. Assim, acredito, é possível encontrar Maria, toda humana e toda de Deus.

Texto: Marcelo Marins Gonçalves

sábado, 11 de julho de 2009

Oração: em Caná


Mãe, se sentires que meu vinho vai acabar
- e há bocas sempre mais numerosas
e sempre mais sedentas a atender –
pede a teu Filho
que a água das minhas fontes
valha vinho e desperte sede da água-viva que é Cristo
.

Texto: Dom Hélder Câmara
Imagem: da Internet

quinta-feira, 2 de julho de 2009

A última noite de Maria

Um artigo de Frei Prudente Nery

No dia 1º de novembro de 1950, Papa Pio XII, após sondar a tradição da Igreja e ouvir todos os bispos católicos (1949), promulgou solenemente a “Assunção de Maria”. A Igreja verbalizava, assim, com clareza e em caráter definitivo, uma antiqüíssima convicção da fé cristã. Do Concílio de Calcedônia (451) ao Concílio Vaticano I (1869 - 1870), a crença de que Maria, por sua vida singular, estaria, já agora, na glória de Deus, foi professada por incontáveis cristãos.
Nós te louvamos, Senhor do universo. Pois, hoje, a Virgem Maria, Mãe de Deus, foi elevada à glória do céu. Ela é consolo e esperança para o teu povo ainda em caminho. Pois, nela, vemos o nosso futuro, canta o prefácio de sua festa. Pois esta é a nossa esperança: que, um dia, para além da morte e do mundo, seremos acolhidos por Deus, com tudo aquilo que compôs a nossa vida. Não apenas naquilo que fomos lá dentro de nós mesmos, em nossa interioridade (alma), mas também com tudo aquilo que, no âmbito de nossa vida, aprendemos a querer bem e que, por isso, passou a integrar a totalidade de nosso ser (corpo). Dentro e fora, o que fomos em nossos secretos sonhos (alma) e o que conseguimos ser em nossa realidade (corpo), o que construímos em nossa interioridade (alma) e o que partilhamos com os outros e recebemos do mundo (corpo).
Corpo, precisaríamos precisar melhor, é muito mais do que apenas este amontoado orgânico de células, a nossa carne. Ele é também o olhar, a destreza dos dedos, a generosidade das mãos, a palavra, o ouvir, o bailar, o drible, o saltar, o dobrar os joelhos, o suor, a lágrima, a luta, o afago que se dá e se recebe, o beijo, esta carícia dos corações.
Ainda que nos sintamos bem em nossa pele, nossa carne não é apenas o lugar do nosso ser, a visibilidade ou o sacramento de nosso mistério. Ela é também um limite e, em muitos casos, um terrível sofrimento. Nosso coração quer voar, mas a carne nos retém ali. A saudade nos convida para longe, mas, no cárcere de nossa carne, não podemos abraçar a pessoa amada. O espírito, lúcido ainda, quer realizar tantos sonhos, mas a força dos braços já não basta mais. E as dores inexprimíveis que, cravando-se na carne, roubam toda a alegria de viver.

Um dia, assim o cremos, no ocaso de nosso mundo e na manhã da eternidade, os limites cessarão e os sacramentos já não serão mais necessários, pois veremos a graça, face a face. De igual modo, também conosco. A casca rebentará e, de dentro do ovo, irromperá um pássaro de inimaginável beleza, a totalidade de nossa vida. Para trás ficarão alguns restos, já não mais necessários, pois foram apenas o lugar de maturação para o nosso último destino: a morada de Deus.
Em torno do ano 600, o Imperador Maurikios Flavios Tiberios determinou que fosse celebrada, em todo o território oriental do Império Romano, no dia 15 de agosto, a festa da Dormitio Mariae (O Sono de Maria), em recordação do dia em que a Mãe de Jesus Cristo teria deixado este mundo e ido para o céu. Pois contava-se, a essa época, que, certo dia, nossa mãe, Maria, recolheu-se em sua casa. Não se sabe bem se nas proximidades de Jerusalém, no Monte Sião, ou se em Panagia Kapulü, ao sul de Éfeso. E aí, no corpo, o cansaço dos muitos anos e, na alma, a saudade de seu filho, ela adormeceu. E naquela noite, enquanto ela dormia, vieram dos céus multidões de anjos e, tomando-a nos braços, carregaram-na para junto de seu filho.
Verdadeiramente: para aquele que crê, nunca a morte será um fim. Mas um sono, em que, desfeitos de nossos limites, finalmente voaremos ao encontro de Deus, nossa origem e nosso último destino.

(Frei Prudente Nery, grande teólogo brasileiro, faleceu em junho de 2009).

quarta-feira, 24 de junho de 2009

Mariologia no ISTA e na DEHONIANA

Terminamos o curso semestral de Mariologia, nas Faculdades de Teologia do ISTA (Instituto Santo Tomás de Aquino), em Belo Horizonte, e na Dehoniana, em Taubaté (SP).
Para mim, foi enriquecedora a experiência de ensino-aprendizagem, convivência com os alunos, reflexão teológico-pastoral, oração e partilha.
Além disso, introduzimos duas novidades neste curso de mariologia. De ponto de vista metodológico, incorporamos o blog como veículo de aprendizagem, manifestação de idéias e comentários. A opinião dos alunos extrapolou a sala de aula, colocando-se à disposição de outras pessoas. Favorecemos assim uma maior proximidade da teologia com a pastoral. Alguns trabalhos dos alunos serão ainda publicados neste blog, observados os critérios de pertinência pastoral, originalidade e linguagem apropriada. Quanto ao conteúdo, acrescentamos o tema de “Maria no Documento de Aparecida”. Sem dúvida, ampliou nossa reflexão.
Que Jesus, nosso mestre e Senhor, abençoe e acompanhe cada um(a) de vocês.
Grande abraço.
Ir. Afonso Murad

domingo, 31 de maio de 2009

Maria no documento de Aparecida

Apresentamos aqui uma síntese simplificada dos principais textos sobre Maria na Quinta Conferência dos Bispos da América Latina e Caribe, que aconteceu em Aparecida, em 2007. Os subtítulos são nossos, bem como a aproximação de temas semelhantes. É importante conhecer este documento, que orienta a caminhada da Igreja em nosso continente.

Introdução
Com a luz do Senhor ressuscitado e com a força do Espírito Santo, nós os bispos da América nos reunimos em Aparecida, Brasil, para celebrar a V Conferência Geral do Episcopado Latino Americano e do Caribe (…) Maria , Mãe de Jesus Cristo e de seus discípulos, tem estado muito perto de nós, tem-nos acolhido, tem cuidado de nós e de nossos trabalhos, amparando-nos, como a João Diego e a nossos povos, na dobra de seu manto, sob sua maternal proteção. Temos pedido a ela, como mãe, perfeita discípula e pedagoga da evangelização, que nos ensine a ser filhos em seu Filho e a fazer o que Ele nos disser (cf. Jo 2,5).
(141) Maria é a imagem da conformação ao projeto trinitário que se cumpre em Cristo. Ela nos recorda que a beleza do ser humano está toda no vínculo do amor com a Trindade, e que a plenitude de nossa liberdade está na resposta positiva que lhe damos.

Leitura de Cenário: A religiosidade popular
(18) Em nossa cultura latino-americana e caribenha conhecemos o papel que a religiosidade popular desempenha, especialmente a devoção mariana, contribuindo para nos tornar mais conscientes de nossa comum condição de filhos de Deus e de nossa comum dignidade perante seus olhos.
(43) O Valor incomparável do ânimo mariano de nossa religiosidade popular reside em fundir as histórias latino-americanas diversas na mesma história compartilhada, que conduz a Cristo, Senhor da vida, em quem se realiza a plenitude da vocação humana.

Devoção Popular e Maria
(261) A piedade popular penetra a existência pessoal de cada fiel. Nos diferentes momentos da luta cotidiana, muitos recorrem a algum pequeno sinal do amor de Deus: (..) um rosário, (..) um olhar a uma imagem querida de Maria...
(262) A fé encarnada na cultura pode penetrar cada vez mais nos nossos povos, se valorizarmos positivamente o que o Espírito Santo já semeou ali.
(262b) A piedade popular é um ponto de partida para conseguir que a fé do povo amadureça e se faça mais fecunda. É preciso ser sensível a ela, saber perceber suas dimensões interiores e seus valores inegáveis. É necessário evangelizá-la ou purificá-la, assumindo sua riqueza evangélica.
(262c) Desejamos que todos, reconhecendo o testemunho de Maria e dos santos, procurem imitá-los. Trata-se de intensificar o contato com a Bíblia, a participação nos sacramentos e o serviço do amor solidário. Assim se aproveitará o rico potencial de santidade e de justiça social que há na mística popular.
(265) Nossos povos, com sua religiosidade característica se agarram no imenso amor que Deus tem por eles e que lhes recorda permanentemente sua própria dignidade. Também encontram a ternura e o amor de Deus no rosto de Maria. Nela vem refletida a mensagem essencial do Evangelho.
Nossa Mãe querida, desde o santuário de Guadalupe, faz sentir a seus filhos menores que eles estão na dobra de seu manto. Agora, desde Aparecida, convida-os a lançar as redes ao mundo, para tirar do anonimato aqueles que estão submersos no esquecimento e aproximá-los da luz da fé. Ela, reunindo os filhos, integra nossos povos ao redor de Jesus Cristo.
Evangelização inculturada
(300) Deve-se dar uma catequese apropriada, que acompanhe a fé já presente na religiosidade popular. Como: oferecer um processo de iniciação cristã em visitas às famílias, que as conduza à prática da oração familiar, à leitura orante da Palavra de Deus e ao desenvolvimento das virtudes evangélicas.
(300b) É conveniente aproveitar pedagogicamente o potencial educativo da piedade popular mariana. Um caminho educativo que, cultivando o amor pessoal à Maria, educadora na fé, nos leva a nos assemelhar cada vez mais a Jesus Cristo, e provoque a apropriação progressiva de suas atitudes.

Maria: peregrina na fé
(266) Maria é a máxima realização da existência cristã. Através de sua fé (Lc 1,45) e obediência à vontade de Deus (Lc 1,38), assim como por sua constante meditação da Palavra e das ações de Jesus (Lc 2,19.51), é a discípula mais perfeita do Senhor.
Interlocutora do Pai no projeto de enviar o verbo ao mundo para a salvação humana, com sua fé, Maria é o primeiro membro da comunidade dos crentes em Cristo e também a colaboradora no renascimento espiritual dos discípulos.
Sua figura de mulher livre e forte emerge do Evangelho, conscientemente orientada para o verdadeiro seguimento de Cristo.
Ela viveu toda a peregrinação da fé como mãe de Cristo e dos discípulos, na incompreensão e na busca constante do projeto do Pai.

Maria: mãe da Igreja
(267) Com Maria, chega o cumprimento da esperança dos pobres e do desejo de salvação.
- A Virgem de Nazaré teve uma missão única na história da salvação: concebeu, educou e acompanhou seu filho até a cruz.
- Desde a cruz Jesus Cristo confiou a seus discípulos, representados por João, o dom da maternidade de Maria, que nasce diretamente da hora pascal de Cristo (Jo 19,27).
- Perseverando junto aos apóstolos à espera do Espírito (cf. At 1,13-14), ela cooperou com o nascimento da Igreja missionária, imprimindo-lhe um selo mariano que a identifica profundamente.
- Como mãe, fortalece os vínculos fraternos entre todos, estimula a reconciliação e o perdão e ajuda os discípulos de Jesus Cristo a experimentarem como uma família, a família de Deus.
- Em Maria, encontramo-nos com Cristo, o Pai, o Espírito Santo e os irmãos.

Maria e a Igreja materna
(268) Como na família humana, a Igreja-família é gerada ao redor de uma mãe, que confere “alma” e ternura à convivência familiar. Maria, Mãe da Igreja, além de modelo e paradigma da humanidade, é artífice de comunhão. Um dos eventos fundamentais da Igreja é quando o “sim” brotou de Maria. Ela atrai multidões à comunhão com Jesus e sua Igreja, como nos santuários marianos. Por isso, como Maria, a Igreja é mãe. Esta visão mariana da Igreja é o melhor remédio para uma Igreja meramente funcional ou burocrática.

Maria: missionária e irmã nossa
(269) Maria é a grande missionária, continuadora da missão de seu Filho e formadora de missionários.
- Ela, da mesma forma como deu à luz ao Salvador do mundo, trouxe o Evangelho a nossa América.
- Em Guadalupe, presidiu com João Diego o Pentecostes que nos abriu aos dons do Espírito. São incontáveis as comunidades que encontraram nela a inspiração para aprender a serem discípulos e missionários de Jesus.
- Ela tem feito parte do caminhar de nossos povos, entrando no tecido de sua história e acolhendo as ações mais significativas de sua gente.
- Os diversos nomes e os santuários espalhados por todo o Continente testemunham a presença de Maria próxima às pessoas e, ao mesmo tempo, manifestam a fé e a confiança que os devotos sentem por ela. Maria pertence a eles, que a sentem como mãe e irmã.

Maria: imagem do seguidor de Jesus
(270) Quando se enfatiza em nosso continente o discipulado e a missão, Maria brilha diante de nossos olhos como imagem acabada e fiel do seguimento de Cristo.
Esta é a hora da seguidora mais radical de Cristo, de seu magistério discipular e missionário.
Maria e a Palavra encarnada
(271) Maria, que “conservava todas estas recordações e meditava em seu coração” (Lc 2,19.51), ensina-nos o primado da escuta da Palavra na vida do discípulo e missionário.
O Magnificat está tecido pelos fios da Sagrada Escritura. Em Maria, a Palavra de Deus se encontra em sua casa, de onde sai e entra com naturalidade. Ela fala e pensa com a Palavra de Deus; a Palavra de Deus se faz a sua palavra e sua palavra nasce da Palavra de Deus.
Seus pensamentos estão em sintonia com os pensamentos de Deus, seu querer é um querer junto com Deus. Estando intimamente penetrada pela Palavra de Deus, ela chega a ser mãe da Palavra encarnada (JP2).

O rosário
(271b) Esta familiaridade com o mistério de Jesus é facilitada pela reza do Rosário, onde: “o povo cristão aprende de Maria a contemplar a beleza do rosto de Cristo e a experimentar a profundidade de seu amor. Mediante o Rosário, o cristão obtém abundantes graças, como recebendo-as das próprias mãos da mãe do Redentor”.

Maria e a solidariedade com os pobres
(272) Com os olhos em seus filhos, como em Caná da Galiléia, Maria ajuda a manter vivas as atitudes de atenção, de serviço, de entrega e de gratuidade nos discípulos de Jesus.
- Ela indica a pedagogia para que os pobres, em cada comunidade cristã, “sintam-se como em sua casa”. Cria comunhão e educa para um estilo de vida compartilhada e solidária, em fraternidade, em atenção e acolhida do outro, especialmente se é pobre ou necessitado.
- Em nossas comunidades, sua forte presença enriquece a dimensão materna da Igreja e a atitude acolhedora, que a converte em “casa e escola da comunhão” e em espaço espiritual que prepara para a missão.
(524) A Igreja de Deus na América latina e no Caribe é sacramento de comunhão de seus povos, (..) é casa dos pobres de Deus. Maria é a presença materna indispensável e decisiva na gestação de um povo de filhos e irmãos, de discípulos e missionários de Jesus.

Orando com Maria
(553) Ajude-nos a companhia de Maria sempre próxima, cheia de compreensão e ternura.
- Que ela nos mostre o fruto bendito de seu ventre e nos ensine a responder como ela fez, no mistério da anunciação e encarnação.
- Que nos ensine a sair de nós mesmos no caminho de sacrifício, de amor e serviço, como fez na visita a sua prima Isabel, para que, peregrinos no caminho, cantemos as maravilhas que Deus tem feito em nós, conforme a sua promessa.
(554) Guiados por Maria, fixamos os olhos em Jesus Cristo, autor e consumador da fé e dizemos a Ele (..): “Fica conosco, pois cai a tarde e o dia já se declina” (Lc 24,29) (…) Fortalece a todos em sua fé para que sejam teus discípulos e missionários!
Ilustração: Ir. Anderson, msc.
Veja a versão integral no site do CELAM.

sábado, 30 de maio de 2009

Maria, mãe da Igreja

Este texto, com finalidade pastoral, foi elaborado por Eduardo Dalabeneta, estudante de Teologia da Faculdade Dehoniana.

Muitas comunidades celebram nestes dias próximos à Solenidade de Pentecostes, Maria com o título de Mãe da Igreja. Mas qual é o sentido desse título? Existe aproximação dele com o mistério de Pentecostes?
A Igreja nasce do Coração de Cristo como sinal do seu amor e com a missão de continuar o que Ele ensinou e começou a fazer. No mesmo cenário em que seu coração ferido gerou a Igreja, Jesus fez de sua mãe a mãe de todos nós, quando no alto da cruz disse: “Eis aí tua Mãe”, “Eis aí teu filho”.
As primeiras comunidades, acolhendo as palavras de Jesus, acolheram também os gestos maternos de Maria e fizeram dela sua mãe. Estas comunidades encontraram no exemplo de Maria a mãe que se fez discípula e sempre esteve ao lado de seu Filho: acolhendo-o no mistério da encarnação, silenciosa na sua vida pública, de pé junto à sua cruz, exultante na sua ressurreição e orante na espera do Espírito Santo. Nela encontram o modelo da verdadeira fé, esperança e caridade.
A maternidade de Maria não se limitou apenas às primeiras comunidades. No caminhar da vida da Igreja sua maternidade se estendeu a todos que, renascidos nas águas do batismo, confessavam a Jesus como o Senhor. Assim, ela foi acolhida como mãe do povo de Deus, mãe amorosa que intercede ao Coração de Jesus pelos seus filhos.
Acolhendo os afetos filiais que os cristãos de todos os tempos e épocas dirigiam a Maria, o papa Paulo VI, no dia 21 de novembro de 1964, durante o Concílio Vaticano II, proclamou Maria a Mãe espiritual da Igreja, confiando à sua intercessão todos os cristãos que caminham em direção à vida plena em Deus. Saudamos a Mãe de Jesus, Mãe nossa, a Senhora Mãe da Igreja:

Senhora Mãe da Igreja,
Mãe de Jesus, Mãe nossa,
Que ensinastes ao menino Deus a beleza do amor humano,
E aprendestes com Ele a grandeza do amor divino,
Intercedei por nós!
Caminhando com Jesus no mistério de sua vida,
Aprendestes com Ele a ouvir, a acolher
E a por em prática a Palavra do Senhor.
Assim, vos fizestes discípula de teu Filho,
E Ele vos fez Mãe da comunidade, Mãe da Igreja!
Santa Maria, Mãe de Deus,
Olhai vossos filhos nas horas de luz e de cruz.
Levai-nos ao Coração de Jesus,
Para aprendermos com Ele,
A sermos discípulos-missionários.
Senhora Mãe da Igreja,
Caminhai conosco!
Levai-nos a agir em favor dos irmãos
Olhai por nós!
Intercedei por nós!

domingo, 3 de maio de 2009

Imaculada Conceição: sentido do dogma

Para entender o dogma da Imaculada Conceição é preciso refletir antes sobre quem é o ser humano diante de Deus. A partir daí, ver o que Maria tem em comum conosco e o que ela tem de especial.

Uma graça original
Cada bebê que vem a esse mundo nasce com uma bênção divina. O Senhor nos cria para sermos felizes e colaborarmos na felicidade dos outros. Todos nós fomos criados em Cristo. Estamos marcados pelo sopro de vida do Criador e por uma Graça Original. Como nos diz São Paulo: Antes da criação do mundo, Deus nos escolheu em Cristo, para sermos, diante dele, santos e imaculados (Ef 1,4).
Cada um se desenvolve com o tempo, constituindo-se como pessoa no correr da existência. Aprende a amar e a ser amado, recebe a fé de outros e a assume como sua. É fascinante ser, até a morte, “aprendiz da arte de viver”. Somos limitados no tempo e no espaço e condicionados pela cultura onde nascemos e vivemos. Neste processo de aprender com a vida, até os erros são importantes. Muitos limites são reassumidos no futuro, como oportunidade de superação e crescimento.
No útero da mãe, o feto está recebendo, em doses distintas, amor e desamor, acolhida e rejeição, afeto e violência. Somos todos solidários no bem e no mal. Ninguém começa sua vida a partir do nada. Pela fé, reconhecemos que somos parte de um grande projeto amoroso de Deus, que estamos marcados por sua Graça e pela corrente positiva de amor de tantos seres humanos que vieram antes de nós. Mas o mundo também tem violência, mentira e maldade, que contagiam cada pessoa que nasce. Ao começar a existir, já estamos sob ação de forças positivas e negativas, de vida e de destruição, e interagimos com elas.
Há algo na nossa história pessoal, comunitária e planetária que danifica os belos projetos do Senhor. Não vem de Deus e é difícil localizar sua origem. Nós o chamamos: “Mistério do Mal e da iniqüidade”. Ele está espalhado na humanidade e repercute dentro de cada um. Pois não só somos seres finitos, chamados a evoluir com o Universo. Mas muitas vezes freamos este processo e nos negamos a crescer.

O ser humano dividido
Cada ser humano tem dentro de si muitos desejos, tendências e impulsos. Eles são bons, desde que integrados num projeto de vida. Por exemplo, cada um de nós necessita acreditar em si e exercitar sua liberdade, de forma a ser aceito e respeitado pelos outros. Esta é a forma básica do poder. A pessoa fraca, impotente, contribui pouco nas relações. De outro lado, o poder é perigoso. Um pai autoritário pode deixar muitas feridas nos filhos. Um político poderoso e corrupto prejudica a nação e faz aumentar a exclusão social. Outro exemplo: todo ser humano busca prazer, ao se relacionar, ao comer, ao se divertir. Uma das formas mais intensas de prazer é o sexual. A relação entre homem e mulher é bela e querida por Deus. Mas o sexo desequilibrado, sem afeto e respeito, produz individualismo e violência. Outro exemplo ainda: gostamos de nos vestir bem, ter as coisas para usar, possuir os objetos que tornem a vida mais prática. Mas quando esse desejo desordenado se torna consumismo, cria pessoas dependentes e apegadas às coisas, que chegam a arruinar a vida para comprar tudo o que encontram.
Temos dificuldades de integrar nossos desejos e pulsões, e colocá-los a serviço de um projeto de Vida. Os impulsos do poder, do ter, do prazer e tantos outros, atraem a pessoa para baixo e podem afastá-la de Deus. A teologia chamou essa divisão interna de “concupiscência”. Ela tem dimensões individuais, coletivas e culturais. Sabemos que a nossa liberdade está comprometida pelo pecado e precisa ser libertada. São Paulo lembra essa divisão interna que a gente vive, dizendo que muitas vezes nosso coração quer fazer o bem, mas acabamos fazendo o mal que não desejamos (Rom 7, 14-24). Somos seres fragmentados. Mas nós cremos na vitória da Graça de Jesus Cristo, que nos liberta de todas as cadeias (Rom 5;8 e 8,1-4). A “graça original” de Deus, que nos cria e nos salva, é mais importante e mais forte do que o Pecado Original, e nos ajuda a superar nossos pecados e falhas.
O “Pecado Original” não é um pecado em sentido estrito, mas em sentido analógico. Ou seja, não é um ato cometido livremente, contra Deus e o seu Reino, relacionado com a orientação fundamental e as atitudes da pessoa. Com esta expressão, reconhecemos que existe uma ausência de mediação de graça em cada um de nós e nas nossas relações. O Pecado Original não faz parte da essência do ser humano, mas de nossa atual condição humana, que sofre a ação do mistério do mal e da iniqüidade. Que o ser humano seja limitado e aprendiz, isso faz parte de sua essência de criatura. Que ele se deixe arrastar pelo mal e se negue a crescer no bem, constitui um paradoxo de sua condição atual.

A originalidade de Maria
O dogma da Imaculada Conceição afirma que o segredo de Maria, a perfeita discípula de Jesus, que respondeu a Deus de maneira total, tem sua raiz na Graça. Ela recebe do Senhor um dom especial. Nasce mais integrada do que nós, com maior capacidade de ser livre e acolher a proposta divina. O fato de Maria ser Imaculada não lhe tira a necessidade de crescer na fé, pois isso faz parte da sua situação de ser humano, que necessita aprender e evoluir.
Maria não nasce prontinha. Também é aprendiz da existência. Há momentos em que ela não entende o sentido pleno dos fatos e das palavras (Lc 2,49-50). E no correr da vida, Jesus a surpreende muitas vezes (Mc 3,31-35). Mas, diferentemente de nós, Maria trilha um caminho sempre positivo, sem falsos desvios ou atoleiros. Maria realiza sua vocação pelo caminho humano da fé, em meio a crises e dificuldades. Ela também teve que fazer correções de rota no correr da vida. Experimentou processos de mudança, de conversão. Não do mal para o bem, mas do bem para um bem maior.
Maria é pré-redimida pelo Verbo de Deus. Ela recebe sua graça salvadora numa intensidade maior do que nós, o que lhe dá forças para integrar tendências e pulsões. Conquista assim uma inteireza admirável. Exerce melhor sua missão de perfeita discípula, educadora e mãe do Messias. Com maior liberdade interior, Maria desenvolve profundamente suas qualidades humanas e espirituais, tornando-se criatura santa, não fragmentada, dona de si, aberta a Deus. Portanto, o fato de ser imaculada não a torna menos humana. Ao contrário. Ela realiza a utopia da “nova humanidade”, do ser humano evoluído espiritualmente. A imagem de Maria imaculada necessita ser completada com a da peregrina na fé.

Maria imaculada e nós
Para alguns cristãos, que provam a fragmentação, a força do mal que os domina, a reincidência no pecado, a inconstância na fé, pode ser que Maria Imaculada não seja um modelo operativo próximo. Neste caso, eles podem recorrer ao exemplo de outros santos, que trilhando caminhos tenebrosos, fizeram esforços enormes de conversão e experimentaram uma mudança radical de vida. Para eles, Maria Imaculada não é ponto de partida, mas de chegada. Pois o Deus que cria do nada também recria a partir do caos e das trevas.
Maria Imaculada subverte nosso conceito de “privilégio”. Uma pessoa especialmente dotada, com beleza estonteante, inteligência invejável, saber conquistado, poder ou fama, tende a se distanciar dos outros, a subestimá-los, e a olhar orgulhosamente para si. O privilegiado se torna narcisista: “Espelho meu, existe alguém melhor que eu?” Maria, ao contrário, nos ensina que tudo o que recebemos é dom e se destina a ampliar a rede do Bem, a estender o Reino de Deus sobre a terra. O singular privilégio da Imaculada Conceição é um dom especial, ao qual Maria respondeu com maior intensidade ainda, colocando-o a serviço de Jesus e da humanidade. Tudo o que somos, temos e conquistamos de especial, visa contribuir na construção da “teia da vida”, na qual todos os seres estão intimamente relacionados e são interdependentes.

Fonte: A. Murad, Maria Toda de Deus e tão humana. Paulinas.
Quadro: Imaculada, de Murillo.

quinta-feira, 23 de abril de 2009

Maria e o Espírito Santo

Lucas organiza sua obra, que compreende o evangelho e os Atos dos Apóstolos, em três tempos. O primeiro (Lc 1,5 – 3,20), narrado de forma mais curta, é o do antigo Israel, que prepara a vinda do messias. O segundo tempo, que corresponde à grande parte do evangelho (Lc 3,21 - 24,49), apresenta Jesus de Nazaré, que inaugura o Reino de Deus e anuncia o Pai misericordioso, faz o caminho até Jerusalém, onde é morto e ressuscita. No terceiro tempo, nos Atos dos Apóstolos, situa-se a comunidade Igreja, que expande a salvação de Cristo até os confins da Terra, animada pela força do Espírito do Senhor ressuscitado.
Maria é a única pessoa presente nos três ciclos. Ao lado de Zacarias, Isabel e João Batista, Simeão e Ana, abre caminho para o Salvador, enquanto mãe do Messias. No tempo de Jesus, faz parte do grupo de seus seguidores, como exemplo de discípulo, que escuta, medita e põe em prática a palavra de Jesus. Por fim, enquanto membro da comunidade cristã, inaugura o tempo da Igreja, em Pentecostes. Aí se encontra a última referência a Maria, na obra de Lucas.
O Espírito Santo age em cada ciclo e faz o elo dos três tempos desta “história de salvação”. Na etapa da preparação, o Espírito é o poder de Deus que conduz as pessoas a Jesus. Pela ação do Espírito, personagens dos relatos de infância prenunciam a ação futura do Messias. Isabel, ao receber Maria grávida, fica repleta do Espírito (Lc 1,41) e profetiza sobre Maria. Simeão, que representa o povo de Israel ancião, tem o Espírito sobre ele e vai ao templo impelido pelo mesmo Espírito (Lc 2,25.27). João Batista anuncia que Jesus batizará no Espírito e no fogo da conversão (Lc 3,16). Neste contexto, Maria é especialmente contemplada pelo Espírito Santo. Torna-se mãe do Salvador por sua ação criadora. Há uma relação clara da ação do Espírito na Anunciação com dois momentos-chave na missão de Jesus: o batismo (Lc 3,21) e a transfiguração (Lc 9,34), nas quais o Pai revela sua identidade de Filho.
“O Espírito virá sobre ti e o poder do Altíssimo te cobrirá com a sua sombra, e por isso aquele que vai nascer será santo e chamado Filho de Deus” (Lc 1,35).
“Então o céu se abriu; o Espírito Santo desceu sobre ele (...) e uma voz veio do céu: Tu és meu filho, eu hoje te gerei” (Lc 3,21s).
“Sobreveio uma nuvem que os recobria (...) E uma voz fez-se ouvir da nuvem: Este é o meu Filho, aquele que eu escolhi, ouvi-o” (Lc 9,34s).
Nos três relatos, há uma palavra explícita de Deus sobre Jesus, como seu Filho. Há uma imagem comum na anunciação e na transfiguração, na qual uma nuvem desce sobre os discípulos e os cobre com sua sombra (Lc 9,34). Isso significa: envolver, proteger, revestir com a glória divina. Pode-se ver uma analogia com a figura da nuvem que cobre a “Tenda do encontro”, que acompanhava o Povo de Deus na sua peregrinação no deserto, rumo à terra prometida (Ex 40,35.37). Mais tarde, a tradição cristã releu este versículo, considerando Maria como a nova tenda do encontro, na qual, pela força do Espírito, Deus se encontra com a humanidade, por meio da encarnação de seu Filho.
O Espírito age em Maria não somente no processo de encarnação do Filho de Deus, mas também na sua fé, dando-lhe a força para acolher o mistério divino, fazer-se serva e peregrinar como discípula do Senhor.
O Espírito atua em Jesus. Leva-o ao deserto para ser tentado (Lc 4,1), dá-lhe a força e poder de agir e pregar (Lc 4,14.18). No tempo da Igreja, o Espírito é o poder de Deus que o ressuscitado concede aos que crêem (At 1,8; 6,8; 10,38). Atualiza a presença de Jesus no mundo. Pelo Espírito, os seus seguidores operam maravilhas como Jesus: curar, perdoar, dar vida aos mortos, mover paralisados, expulsar as forças do mal, enfrentar os poderosos sem medo (At 3,6-10; 4,8-10). A comunidade vive desafios radicalmente novos, como a entrada dos pagãos no grupo dos seguidores de Jesus. É necessário arriscar e discernir a vontade de Deus, iluminada pelo Espírito, como acontece no Concílio de Jerusalém (At 15). Na força do espírito, os cristãos enfrentam o sofrimento, a perseguição e a morte (At 12,1-5).
Maria participa da ação criadora do Espírito, individualmente, no seu próprio corpo. E toma parte da ação coletiva do Espírito, em Pentecostes. É membro eminente no mistério da encarnação, é membro discreto no mistério da expansão do Espírito a todos os povos.
Em muitos lugares do mundo, redescobre-se hoje a força atual do Espírito Santo na vida dos cristãos. Neste contexto Maria aparece como a figura realizada do ser humano, que se deixa moldar pelo Espírito. Nela o Espírito habita, faz morada, tocando sua corporeidade, sua subjetividade, seus desejos, sua ação. Esta percepção tão bela não deve dar azo a visões individualistas e espiritualistas. Pois, Maria, templo do Espírito, é profetiza da justiça e da misericórdia de Deus na história. Ela simboliza tanto a humanidade espiritualizada, quanto os que se empenham na luta pela cidadania planetária, na qual se rompe a lógica da exclusão, e se incluem os seres humanos nas diferentes etnias, gêneros, classes sociais, povos e nações, e todos os seres criados, do reino mineral, vegetal e animal. O Espírito, que dá a vida, nos anima a lutar pela defesa, pelo cuidado e pela recriação da vida, especialmente onde ela está mais ameaçada.

Fonte: A.Murad. Maria, toda de Deus e tão humana. Paulinas

quinta-feira, 9 de abril de 2009

Maria junto à cruz de Jesus

A mãe de Jesus, que aparece no início de sua missão, em Caná (Jo 2,1-11), levando seus discípulos a acreditarem nele, volta de novo à cena. Dessa vez, não há nenhum sinal extraordinário. Ao contrário, o momento da cruz desafia a fé. Maria faz parte do pequeno grupo que perseverou, que não fugiu no momento da perseguição e da crucifixão de Jesus. É a corajosa seguidora de Jesus, que permanece no seu amor. Manter-se de pé significa persistência, constância e adesão. Junto com ela estão algumas mulheres-discípulas: a irmã de Maria, Maria de Clopas (ou Cléofas) e Madalena. E somente um homem, o “discípulo amado”, que a tradição cristã identificou com o jovem apóstolo e evangelista João. Ele representa a comunidade cristã, o grupo dos que seguem os passos de Jesus, tornando-se mais do que seus servidores. São seus amigos (Jo 15,15).
Uma característica importante do seguidor de Jesus é a perseverança, ou seja, o compromisso de vida que se prolonga no tempo, vencendo as crises. Quando Jesus pede para: “permanecer em mim e eu nele” (Jo 6,56; 15,4) ou “permanecer no meu amor” (Jo 15,9) expressa uma sintonia profunda, uma comunhão de mente e de coração. Este é o sentido da imagem da videira e dos ramos (15,1-11). Como também: “Se vocês permanecerem na minha palavra, serão verdadeiramente meus discípulos. Vocês conhecerão a verdade, e a verdade fará de vocês pessoas livres” (cf. Jo 8,31s). Jesus promete: “Se vocês permanecerem em mim e as minhas palavras permanecerem em vocês, peçam o que quiserem, e o Pai lhes concederá” (Jo 15,7). Na primeira epístola de João também se diz desta atitude de vida: “Quem pretende permanecer nele, deve também andar no caminho que Jesus andou” (1 Jo 2,6).
Manter-se junto à cruz expressa a atitude de estar em sintonia com Jesus, exercitando a fé no momento de crise da morte e de sua passagem para o Pai. Maria, as mulheres e o discípulo amado são os que perseveram neste momento crucial. Permanecem com Jesus e em Jesus. É certo que este momento significou um grande sofrimento para Maria. Mas, parece que perseverar assume mais importância do que sofrer.
Qual é o sentido do encontro de Maria com o discípulo amado, ao pé da cruz? Não é resolver um problema de família, ou seja, quem iria tomar conta da mãe de Jesus depois da morte dele. Nesse momento tão importante da cruz, João quer nos dizer algo mais. Ele deixa impresso na memória de todos os cristãos que Maria não é somente a mãe, que concebeu, gestou, deu à luz, nutriu e educou Jesus. Novamente, ela é chamada de “mulher”, como em Caná (Jo 2,4 e 19,25). Seu lugar está além dos laços de sangue e das relações familiares. Por vontade de Jesus, Maria é adotada como mãe pela comunidade cristã de todos os tempos. O discípulo amado, que representa a comunidade, recebe-a como mãe. E Maria é investida nessa nova missão. Acolhe os membros da comunidade cristã como seus filhos.
A morte-ressurreição é o momento no qual se constitui a comunidade-Igreja. Jesus irá “reunir todos os filhos de Deus dispersos” (Jo 11,51s). Este é o sentido simbólico da cena que antecede o encontro na cruz. Os soldados tomam as roupas de Jesus e as repartem em quatro partes (os quatro cantos da terra). Mas a túnica permanece inteira (Jo 19,23s). A Igreja, nova comunidade messiânica, será edificada em sua unidade a partir da cruz do Senhor.
O discípulo amado representa a comunidade cristã, agraciada e escolhida por Jesus, para a qual ele dedica seu afeto e atenção. Esta comunidade recebe Maria como sua mãe. O evangelista diz “a partir daquela hora, o discípulo a acolheu em sua familiaridade” (Jo 19,27). Isto é, naquilo que lhe é próprio, que o constitui como pessoa. Ele não usa a palavra grega “oikos” (casa), mas sim “ídia/ídios” (o que é característico de alguém).
Em que consiste a missão de Maria, como mãe da comunidade? Provavelmente, a mesma de Caná. A nossa mãe Maria poderá intervir junto ao Filho, pelos seus filhos. Levará os servidores e amigos de Jesus a fazer o que ele disser. Possibilitará que novas gerações de cristãos, como os primeiros discípulos, creiam em Jesus, vejam sua glória, e se reúnam em torno dele.A cena de Maria junto à cruz reúne, portanto, dois elementos fundamentais. A mãe de Jesus é a mulher perseverante na fé até o último momento, junto com outros membros da comunidade dos seguidores e amigos de Jesus. E, por vontade do próprio Jesus, é adotada como mãe do discípulo amado, imagem e símbolo da Igreja.

terça-feira, 24 de março de 2009

Dogma "Maria, mãe de Deus"

O que significa teologicamente este dogma
Quando proclamamos “Maria, mãe de Deus”, estamos dizendo, conforme o dogma, que ela é a mãe do Filho de Deus encarnado. Maria não se tornou uma deusa, nem entrou na Trindade. Mas, como Deus-Comunidade se comunica conosco através de Jesus e do seu Espírito, a maternidade de Maria diz respeito a cada pessoa divina na Trindade.
Em relação a Deus-Pai, Maria é uma filha predileta. Ela foi agraciada com ternura pelo Criador, que a moldou com especial carinho. Ao mesmo tempo, Maria concretiza, de forma humana, a eterna geração que o Pai realiza com o Filho, no seio da Trindade. Como toda mãe ou pai, ela é figura do amor criador de Deus-Pai.
Em relação a Deus-Filho, Maria é mãe, educadora e discípula. O seu relacionamento com Jesus supera os laços de família. Maria é mãe, mas sua missão vai mais além. Esteve junto de Jesus durante sua vida terrena e, agora, glorificada, continua junto do Filho ressuscitado, na comunhão dos Santos. Quando se diz, em alguns cantos, que Maria é “mãe do criador”, não se fala aí de Deus-Pai, mas do Filho de Deus, que participa também da criação (Jo 1,2s). Maria é mãe de Deus-Filho, feito homem em Jesus Cristo. Não é mãe nem de Deus-Pai, nem do Espírito Santo.
Maria é uma pessoa plena do Espírito do Senhor. Como perfeita discípula de Jesus, acolheu o Espírito Santo e fez-se transparente a ele. Tornou-se um templo vivo de Deus e se transformou, por Graça, na mãe do Messias. A docilidade ao Espírito Santo explica a maternidade biológica de Maria e o seu coração tão aberto a Deus. Alguns místicos chamam Maria de “esposa do Espírito”. Esse título deve ser entendido em sentido metafórico, para expressar a intimidade mística de Maria com o Espírito.

A Igreja é mãe como MariaQuando nascemos, somos acolhidos na comunidade cristã, que nos recebe como mãe. A Igreja-mãe gera novos filhos pela fé, pelo batismo e pelo testemunho de lutar pelo Bem. A comunidade nos nutre por meio da oração, da eucaristia e da vida fraterna. Nos pequenos grupos, sentimos o colo e o aconchego de mãe. Somos ajudados, ouvidos, valorizados e educados. No seio da comunidade temos oportunidade de crescer como seres humanos e filhos de Deus.
A “opção preferencial pelos pobres” é uma das formas mais claras de a Igreja mostrar que é mãe. Ela se volta para os filhos mais necessitados, que estão privados de direitos elementares e realiza um serviço eficaz para superar as causas da pobreza.

Desenvolver a dimensão materna em cada ser humano
Santo Ambrósio, no século quarto, dizia que cada cristão é mãe como Maria, pois gera Cristo no seu coração. Hoje, numa sociedade tão marcada pela violência, pelo egoísmo, pela dureza nas relações humanas, pela destruição do meio ambiente, precisamos desenvolver atitudes maternas, uns para com os outros, e para com todos os seres. Quanto mais cultivarmos a ternura, a intuição, o cuidado, a acolhida, o zelo pela vida ameaçada, mais estaremos realizando nossa dimensão materna. Isso vale para homens e mulheres. E Maria, nossa mãe, nos ajudará nesta tarefa.
O dogma da maternidade divina no diálogo ecumênico
A maternidade divina de Maria é o dogma que encontra mais consenso entre as Igrejas cristãs, pois tem base bíblica e foi formulado no Concílio de Éfeso, no ano 431. Para a Igreja ortodoxa, “Theotókos não é um título opcional de devoção, mas a pedra de toque da verdadeira fé na encarnação. Negá-lo é colocar em questão a unidade da pessoa de Cristo como Deus encarnado” (K. Ware). A pessoa e a vocação de Maria só podem ser compreendidos no contexto cristológico. E porque se reverencia a Cristo como O Senhor, no mistério da criação, redenção e recapitulação, considera-se Maria a mãe de Cristo Nosso Deus, como também a mãe universal, de toda a humanidade, doadora de vida para toda a criação.
Bem mais complexa é a posição dos protestantes. Lutero aceitava atribuir a Maria o título de “Theotokos” (literalmente: “parturiente de Deus”. E a “fórmula da concórdia” da Igreja luterana, em 1557, diz: “nós cremos, ensinamos e confessamos que Maria é justamente chamada Mãe de Deus e que o é verdadeiramente”. Posição semelhante assume Zwinglio: “Maria é justamente chamada, ao meu ver, genitora de Deus, Theotókos”. Já Calvino prefere falar de “Mãe de Nosso Senhor” (Cristotókos). Hoje, os teólogos reformados que aceitam o título Theotókos insistem que a maternidade divina de Maria deve ser que ser compreendida exclusivamente em relação a Jesus; não como privilégio humano, mas sim fruto da Graça de Deus. E que não se considere Maria como uma deusa.

Uma palavra iluminadora
A maternidade de Maria tem sua raiz na graça de Deus, que a contempla e a cumula de amor divino. Maria responde com inteireza ao convite divino, na fé e através da fé, tornando-se mãe e discípula de Jesus. Enquanto membro da comunidade-Igreja, ela exercita uma missão materna que é puro serviço e nada retém para si. Ela é nossa “mãe e companheira na fé”, no horizonte cristão. Sua maternidade a coloca, antes de tudo, na comunidade de seus irmãos e irmãs, que, ontem como hoje, enveredam pelo fascinante caminho do seguimento de Jesus.

Afonso Murad