sexta-feira, 23 de dezembro de 2011

Natal com Maria

Maria e José nos apresentam Jesus:
Na gruta de Belém,
Nos lugares e tempos inusitados,
No cotidiano, nos dias claros ou cinzentos.
Aqui a Palavra se faz carne
E vem morar pertinho de nós.
Feliz Natal.


Afonso Murad

domingo, 11 de dezembro de 2011

Canto de homenagem a Guadalupe

Neste ano, no dia 12 de dezembro, a experiêncica de Guadalupe completa 480 anos! Medite este bela música do Padre Zézinho (que não é dedicada a Aparecida, e sim a Guadalupe). Ele liga o passado com o presente, contemplando ao mesmo tempo a dimensão pessoal e social da devoção mariana.

Mãe do céu morena, Senhora da América Latina
De olhar e caridade tão divina, de cor igual à cor de tantas raças
Virgem tão serena, Senhora destes povos tão sofridos,
patrona dos pequenos e oprimidos
Derrama sobre nós as tuas graças

Derrama sobre os jovens tua luz,
aos pobres vem mostrar o teu Jesus
Ao mundo inteiro traz o teu amor de mãe
Ensina quem tem tudo a partilhar
Ensina quem tem pouco a não cansar,
e faz o nosso povo caminhar em paz

Derrama a esperança sobre nós, ensina o povo a não calar a voz
Desperta o coração de quem não acordou,
Ensina que a justiça é condição, de construir um mundo mais irmão
E faz o nosso povo conhecer Jesus...

Para ouvir a música em mp3:
http://www.kboing.com.br/padre-zezinho/1-1057486/

quarta-feira, 7 de dezembro de 2011

Maria Imaculada

A lmaculada Conceição é o resultado da relação íntima e fiel entre Deus e Maria; de uma relação na gratuidade do amor; de uma relação na qual se conjuga a liberdade de uma escolha e um chamado, com a resposta livre, fiel e contínua por parte de uma criatura. O sentido profundo dessa mensagem dogmática não está tanto na ausência de pecado quanto na plenitude e presença da graça que Deus outorga a Maria; a ausência de pecado é a consequência dessa presença amorosa e eficaz.

Que Maria esteja livre do pecado original não a exime de estar presente nela tudo que é autenticamente humano, com seus diversos dinamismos; também ela participa do caráter opaco da existência, da condição de ser uma mulher numa cultura e sociedade que lhe nega o acesso à Torá e a relega ao silêncio, uma mulher numa aldeia pequena e sem relevância; uma mulher casada com um artesão de um meio rural, dedicada aos trabalhos próprios da casa e da família, ou seja, levando a mesma vida comum e simples de suas vizinhas. Também ela sentia as diversas paixões humanas com suas tendências. Porém, à diferença de nós, conseguia integrá-las e orientá-las conforme o plano de Deus, no gozo da abertura a ele, efetivada em sua entrega generosa aos outros e na luta contra o mal. As contradições, os sofrimentos decorrentes da fidelidade à graça nela presente, assume-os de tal modo que, longe de anulá-la, de fechá-la em si mesma, lhe possibilitam crescer.

K. Rahner, em seu livro Maria, Mãe do Senhor, apresenta a Imaculada Conceição como a cheia de graça e a perfeitamente redimida. Que Maria seja a "cheia de graça" e tenha se visto livre do pecado original não implica privá-la ou negar-lhe sua humanidade. Mas apenas ressaltar que o Deus da Vida plenificou de tal modo seu ser que se tornou mais forte nela a luta pelo bem do que o ceder às forças do mal; mais o projeto de Deus do que a debilidade humana. E isso foi vivido por Maria, não por meio de um esforço voluntarista, mas sim por graça de Deus e resposta livre de sua parte. Nessa resposta sua pessoa se plenifica, cresce, brilha e ilumina.

Tampouco é negada a bondade do mundo criado nem a do ser humano. Maria não apresenta a si mesma como a perfeita; pelo contrário, como a humilhada, e desde essa verdade é resgatada pelo Deus que nela realiza maravilhas. A partir desta contemplação e compreensão ela é proclamada no Evangelho e na Igreja como a "cheia de graça". A Imaculada Conceição é Maria de Nazaré, que uma vez mais revela a opção de Deus pelos pobres. Trata-se da história de um chamado e de uma resposta.

Este dogma mariano também proclama que o bem é anterior ao mal, a graça é mais forte que o pecado; e que esta graça é patrimônio de todos, pois, como afirma K. Rahner: “em Maria e em sua Imaculada Conceição fica patente que a misericórdia eterna abraçou desde seu princípio o homem e, portanto, também nós, para que ressalte de maneira nítida que Deus não nos deixou sozinhos”. A Imaculada nos devolve um olhar de esperança, nos ajuda a confiar nas forças do bem, da verdade, da justiça, sobre as forças do mal, da mentira e da opressão. Estas podem até vencer de imediato, mas não são imunes e acabarão vencidas; cedo ou tarde o tribunal da história faz justiça. As situações, as instituições, as pessoas são dinâmicas e, como tais, podem ser transformadas; para isso basta crer e deixar espaço ao Deus da Vida, para que venha nos socorrer

(Sintetizado de: Clara Temporelli, Maria. Mulher de Deus e dos pobres. Releitura dos dogmas marianos, Paulus, p. 174-176)

domingo, 4 de dezembro de 2011

Mariologia: história e símbolo

Em minha reflexão mariológica compreendi que, dado o momento de maturidade intelectual em que nos encontramos, não se deve dar lugar a meras suposições e elucubrações mentais. Maria não necessita de nossas mentiras.  É necessário deixar de lado as imaginações (que muitas vezes funcionaram na mariologia), para nos situarmos o mais possível dentro do plano histórico. Hoje em dia a historiografia chegou a tal ponto de rigor e seriedade científica que seria desonesto não tê-la em conta na hora de falar sobre Maria.
(No entanto), Maria não é somente personagem histórico, que ficou no passado. Ela emerge como personagem arquetípico, contemporânea a todas as gerações.
Maria foi acolhida na Igreja que, nas diversas comunidades, guardou sua memória. Pouco a pouco começou a incluí-la em seu culto e liturgia. Depois, refletiu teologicamente sobre ela, tanto à luz de Jesus, confessado como Filho de Deus e redentor do mundo, como da Igreja, representada sob a imagem da Mulher, a Mãe, a Esposa, a Virgem, a Imaculada e a Assunta. Uma série muito complexa de interações entre piedade popular, progresso dogmático-teológico e magistério eclesiástico se cristalizou em uma mariologia dogmática. Ela expressa com evidência até onde chegou a compreensão eclesial e crente do mistério de Maria, e como se torna difícil de ser explicada teologicamente.
O objetivo da mariologia é oferecer uma síntese que situe Maria, a Mãe de Jesus, nosso Senhor, no lugar teológico e eclesiológico que lhe corresponde. Uma síntese capaz de favorecer, no estudante de teologia, a obtenção de uma visão apaixonada, inteligente e cordial do mistério de Maria; lúcida para descobrir e compreender a energia espiritual transformadora que Maria desencadeia na história da humanidade.
(Condensado de: José C.R. García Paredes, Mariología. Madrid: Biblioteca de autores cristianos – BAC, 2001, introdução, p.XVI – XVII)

sábado, 22 de outubro de 2011

Fontes da marialogia

Quais são as fontes, às quais recorre o pesquisador de mariologia ou o aluno de teologia, quando se dispõe a estudar sobre Maria, a Mãe de Jesus? Podem-se distinguir as fontes essenciais, complementares e suplementares.


(a) As fontes essenciais, como o nome indica, são imprescindíveis para o estudo acerca de Maria para alunos e professores da graduação ou especialização em teologia. Compreendem:

- A Sagrada Escritura, fonte primeira de toda teologia. Além de recorrer diretamente aos textos bíblicos, o pesquisador serve-se do trabalho realizador pelos biblistas, sobretudo aqueles que escrevem sobre os evangelhos de Lucas e João.

- Os escritos patrísticos. Há belíssimas referências a Maria nos primeiros séculos, em forma de homilias, hinos, comentários bíblicos e orações. Não basta copiar as citações dos autores. Essas devem ser compreendidas no seu horizonte cultural e eclesial e em relação à totalidade do texto, que normalmente está centrado na pessoa de Jesus. Para auxiliar este estudo, é útil recorrer aos teólogos que comentam textos patrísticos, sejam mariólogos ou não.

- Os documentos do magistério da Igreja sobre Maria. Aqui se elencam as principais afirmações sobre a Mãe de Jesus, formuladas em Concílios Ecumênicos, os documentos papais e as conclusões das Conferências do Episcopado Latinoamericano, sobretudo em Puebla e Aparecida. Estes documentos apresentam as formulações dos dogmas marianos, oferecem elementos para sua interpretação atual e fornecem orientações pastorais para o culto. Os textos mais antigos devem ser analisados à luz do contexto e da linguagem da época, para evitar anacronismos.

- Textos ecumênicos acerca da Mãe de Jesus. Estes escritos são fundamentais para compreender o consenso eclesial a respeito de Maria, os pontos em comum e as principais diferenças. Ajudam a superar a intolerância religiosa e suscitam respeito recíproco entre as Igrejas cristãs.

- Dicionários e livros contemporâneos de marialogia/mariologia. Tais obras sintetizam, organizam e apresentam, com o olhar próprio de cada autor, os conhecimentos sobre Maria na Bíblia, no culto e no dogma. Vários(as) mariólogos(as) estabelecem um diálogo da teologia com a sociedade contemporânea, suas buscas e questionamentos.

(b) Vejamos agora as fontes complementares. Dependendo do tipo de estudo a ser realizado, elas podem ser consideradas como essenciais.

- Escritos de teólogos, místicos e missionários no correr dos séculos. Estes textos contem elementos preciosos para a reflexão sobre Maria. Não devem ser lidos de forma literal e fora de seu contexto, pois muitos deles estão influenciados pelo maximalismo mariano ou pela visão da época. Trata-se de reinterpretar as intuições destes autores, à luz da teologia bíblica e das grandes linhas teológicas do Concílio Vaticano II, especialmente o capítulo VIII do documento Lumen Gentium.

- Estudos de natureza antropológica e histórico-cultural. A figura de Maria e sua devoção ficaram impregnadas na cultura ocidental em dois mil anos de cristianismo. Influenciaram e foram influenciadas pelas diferentes percepções de etnias, subculturas e grupos sociais. No correr dos séculos, a figura cultural de Maria apresentou simultaneamente elementos de resistência à dominação aos poderes opressores e de legitimação destes poderes. Por isso, as pesquisas das Ciências da Religião, da História, da Antropologia, da sociologia, da História da Arte contribuem para compreender a ambiguidade das manifestações culturais sobre Maria e podem ajudar a purificar a fé cristã. A mariologia serve-se assim de várias áreas do conhecimento, acolhe suas conclusões de forma lúcida e crítica e faz uma leitura teológica de seus estudos.

- Pinturas, esculturas e outras obras artísticas. Há um enorme acervo de produção artística em torno da pessoa de Maria, que servem ao mariólogos como matéria prima para sua reflexão. Esse material utiliza linguagem própria, não conceitual, e traz abordagem rica e diversificada, que permite amplo leque de interpretação. A grande pergunta que orienta o estudo a partir de obras religiosas artísticas é: o que o artista quis comunicar sobre Deus, o ser humano e Maria, que são significativos para nós, hoje? Incluem-se aqui também o estudo sobre os ícones orientais, que são mais do que obra artística, pois constituem uma narração espiritual em forma de imagem sobre Jesus e Maria.

- Manifestações devocionais atuais. A cultura é produção de significados, algo vivo e dinâmico que transmite valores e visão de mundo. Assim, estudar as manifestações da religiosidade mariana, ou servir-se do resultado das pesquisas de outros, fornece elementos para o discernimento pastoral e a reflexão teológica. As Ciências da Religião são grandes parceiras nesta tarefa. No entanto, os estudos de natureza antropológica, cultural e sociológica sobre Maria não são ainda marialogia. Constituem matéria prima, que deve ainda passar pelo crivo de interpretação da Bíblia e da Tradição Eclesial, para se tornar teologia marial.

(c) As fontes suplementares recebem este nome por se tratarem de escritos que fornecem informações ou conhecimentos que podem ser úteis para a pastoral e a teologia, mas não são necessários e nem fazem parte do núcleo do ensino da Igreja a respeito de Maria. Por isso, não tem força de obrigação. Trata-se de algo que está na esfera devocional e deve ser tratada assim. Por isso, não convém toma-las como fontes essenciais e vinculantes para a fé cristã. São elas:

- Os evangelhos apócrifos, elaborados em grande parte entre os séculos II a VIII. Eles circulavam com a pretensão de serem livros inspirados, mas não foram reconhecidos como tais pela Igreja, devido aos exageros e desvios do pensamento teológico. Portanto, é equivocado sustentar que eles fornecem informações fidedignas sobre Jesus e Maria, para completar o que falta nos evangelhos. Há afirmações que são contrárias aos textos bíblicos. Veja mais detalhes sobre os apócrifos nos “textos complementares”. Dos apócrifos se aproveitam apenas dados secundários, tais como: o nome do pai e da mãe de Maria (Joaquim e Ana), o número e o nome dos reis magos etc.

- As narrações da Vida de Jesus e de Maria elaboradas por videntes e místicos medievais. Elas não foram reconhecidas por concílios e outros documentos oficiais da Igreja como fontes de informações históricas, embora tenham alimentado a devoção. O grande problema que estes relatos são divulgados hoje com a pretensão de serem revelações diretas de Deus, a serem aceitos sem nenhuma discussão. Mas eles estão fortemente influenciados pelo contexto cultural, as estruturas psíquicas e a imaginação criativa de seus autores.

- As mensagens de videntes de aparições marianas nos dois últimos séculos. Elas são compreendidas pela Igreja como “revelações privadas”; merecem a classificação de “dignas de fé humana” e portanto não tem força de obrigação para os cristãos. Infelizmente, tem sido consideradas por alguns grupos católicos como se fossem palavras diretas de Maria. Voltaremos a esse assunto no capítulo das aparições.

As fontes e recursos utilizados na elaboração da mariologia influenciam diretamente seus resultados. Neste sentido, não se pode considerar todas as informações como se estivessem no mesmo nível. São prioritários: a Bíblia, o magistério da Igreja e a patrística, compreendidos com a sensibilidade aos Sinais dos tempos atuais.

Texto de Afonso Murad, a ser publicado em novo livro de Mariologia

quinta-feira, 22 de setembro de 2011

Ladainha Mariana para o nosso tempo

Em Nazaré

Maria de Nazaré, rogai por nós.
Menina que encantou os olhos de Deus, rogai por nós.
Amada de José, rogai por nós.
Jovem questionadora, rogai por nós.
Servidora do Senhor, rogai por nós.
Mulher do Sim sempre renovado.
Aquela que medita o sentido dos fatos, rogai por nós.
Educadora de Jesus, rogai por nós.
Aquela que vê Deus nos véus do cotidiano, rogai por nós.
Mãe do Deus conosco, rogai por nós.

Na casa de Isabel - Magnificat
Maria missionária, rogai por nós.
Símbolo da solidariedade, rogai por nós.
Feliz porque acreditou nas promessas de Deus, rogai por nós.
Amiga de Isabel, rogai por nós.
Cantora das obras de Deus, rogai por nós.
Símbolo de inteireza, rogai por nós.
Profetiza da justiça, rogai por nós.
Esperança de libertação, rogai por nós.

Em Belém
Maria de Belém, rogai por nós.
Companheira de José, rogai por nós.
Jovem Mãe de Jesus, rogai por nós.
Amiga dos pastores, rogai por nós.
Primeira testemunha da encarnação, rogai por nós.
Símbolo da alegria, rogai por nós.

No templo de Jerusalém
Maria de Jerusalém, rogai por nós.
Mulher oferente, rogai por nós.
Peregrina na fé, rogai por nós.
Aquela que crê, sem tudo compreender, rogai por nós.

Nos caminhos da Palestina
Maria da palestina, rogai por nós.
Primeira discípula do Senhor, rogai por nós.
Aquela que acolheu a Palavra de Deus, rogai por nós.
Aquela que guardou a palavra no coração, rogai por nós.
Aquela que frutificou a Palavra, rogai por nós.
Nossa irmã na fé, rogai por nós.
Pedagoga da fé em Caná, rogai por nós.
Atenta às necessidades humanas, rogai por nós.
Coração livre, aberto e desapegado, rogai por nós.

Em Jerusalém
Maria de Jerusalém, rogai por nós.
Firme junto à cruz, rogai por nós.
Símbolo do sofrimento assumido, rogai por nós.
Ícone da fé, rogai por nós.
Perseverante em oração no cenáculo, rogai por nós.
Testemunha da ressurreição de Jesus, rogai por nós.
Batizada no Espírito em Pentecostes, rogai por nós.

Na Terra e no Céu
Maria, tão humana e tão divina, rogai por nós.
Glorificada junto de Deus, rogai por nós.
Filha predileta do Pai, rogai por nós.
Mãe, educadora e discípula do Filho, rogai por nós.
Templo do Espírito Santo, rogai por nós.
Modelo dos cristãos, rogai por nós.
Símbolo humano da ternura de Deus, rogai por nós.
Mãe das mães, rogai por nós.
Aquela que está mais perto de Deus e mais perto de nós, rogai por nós.
Colo de Deus em feição humana, rogai por nós.

Ir. Afonso Murad

terça-feira, 6 de setembro de 2011

Maria Virgem

Disponibilizamos para você uma síntese sobre “Maria Virgem”, do respeitado mariólogo Stefano De Fiores, na obra: Maria en la teología contemporanea. Sígueme: Salamanca, 1991, p. 453-466.

1. Debate teológico sobre a virgindade de Maria (p.453-456)
A idéia da virgindade perpétua de Maria sofreu vacilações nos primeiros séculos e foi negada por Celso, Bonoso e Elpídio. Depois, foi considerado como um dado pacífico da tradição da Igreja. Já Justino (150) a chamava de "a Virgem", e Pedro de Alexandria de "a sempre virgem" (aeiparthenos).
Em tempos recentes, o médico A. Mitterer pôs a questão da virgindade de Maria no parto, sustentando que a ausência de dores e a conservação do hímen não só não pertencem à essência da virgindade, mas também vão contra a verdadeira maternidade (Dogma e biologia da Sagrada Família, Viena, 1952). O Santo Ofício em 1960 se pronuncia, proibindo dissertações sobre o problema.

O primeiro esquema do texto sobre Maria no Concílio Vaticano II afirmava que "permanecia incorrupta e sem mancha a integridade corporal de Maria no mesmo parto". Muitos padres conciliares se posicionaram contra esta "linguagem anatômica" e o texto atual de Lumen Gentium 57 reza que Jesus, ao nascer de Maria, "não diminuiu sua integridade virginal, mas a consagrou". O Concílio deixou assim aberto o caminho para explicações teológicas.
A partir da década de 60, o tema da Virgindade de Maria volta a ser questionada. O "Catecismo holandês" (1966) desloca a afirmação sobre a afirmação literal da virgindade de Maria, sustentando que o seu sentido seria outro: o nascimento de Jesus como dom de Deus à humanidade. Em 1968 uma comissão cardinalícia pede que o texto seja claro sobre o assunto.
Autores isolados também se pronunciaram sobre o tema. H. Halbfas, na obra “Catequética Fundamental” afirma que "o nascimento de Jesus de Maria virgem não se propõe à fé como fato biológico". Caminho semelhante segue H. Küng, na obra "Ser Cristão", ao dizer que a concepção virginal não pertence ao núcleo central do Evangelho e nem deve ser interpretado biologicamente, mas se trata de um símbolo do novo começo realizado por Deus em Cristo. Vários autores na década de 70 consideram a concepção virginal como teologúmeno (uma metáfora teológica, não um fato em si), como por Bauer, O. da Spinotoli, Küng, Schillebeeckx, Evely e Malet. Já J. Pikaza e R. Brown se colocam numa postura eqüidistante do dado histórico-biológico e do teologúmeno.

2. Pressupostos culturais (p. 457-460)
Há dois motivos principais que levaram a questionar a virgindade perpétua de Maria: a desmitização de Bultmann e a depreciação da virgindade.
Bultmann está preocupado em descobrir o significado da mensagem bíblica para o homem moderno, que está fora do horizonte mítico em que foi escrito a bíblia. Trata-se de desmitizá-la, interpretando sua mensagem em chave existencial. No livro “Nuovo testamento e mitologia. Il manifesto della demitizzazione”, Brescia, 1970, p. 117, afirma ele:
"Certas lendas, com as do parto da Virgem e ascensão de Jesus se encontram só esporadicamente; Paulo e João as desconhecem. Mas considerá-las como excrescências tardias não muda em nada o estado das coisas: o acontecimento salvífico conserva a característica de um acontecimento mítico".
Nossa época redescobriu o valor da sexualidade. Para quem reconhece o valor da virgindade, sabe que a questão não reside no hímen, mas na opção pessoal de um amor mais extenso e de um dom que se deve reservar a quem se ama para sempre.
Ora, se a sexualidade e o matrimônio são bons, não há porque se excluir o nascimento de Jesus através deles. Ao contrário, seria até conveniente para a encarnação, que visa aproximar o mais possível o Filho de Deus da humanidade. Além disso, não há concorrência entre Deus e o homem, já que o homem age como mediador de graça, e Deus não age para interferir nas leis da natureza que ele mesmo criou. Por isso Schoonenberg se pergunta se o aspecto biológico da origem de Jesus entra na intenção mesma da fé.

3. Clarificações progressivas (p.460-464)
a) A virgindade de Maria não é uma variante do mito pagão do nascimento milagroso do menino redentor. A base da concepção virginal não reside no mito pagão da teogamia. A concepção de Jesus no Novo Testamenho não é colocada como uma geração por parte de Deus, mas sim uma nova criação. Já Justino, no século, respondia a esta acusação do judeu Trifão (Cf. Justino, Diálogo con Trifón, 66; PG 6, 627). Conforme afirma J. Ratzinger, Introducción al cristianismo, Salamanca, Sígueme, 1987, 6º ed, 238:
"A filiação divina de Jesus não se funda, segundo a fé eclesial, em que Jesus não tenha pai humano. A filiação divina de Jesus não sofreria desvalorização alguma se tivesse necessidade de um matrimônio normal, porque a filiação divina de que fala a Igreja não é um fato biológico, mas ontológico, não é um acontecimento do tempo, mas da eternidade de Deus".
Portanto, o nascimento virginal não prova a divindade de Jesus. Historicamente aconteceu o inverso. O tema da concepção virginal ocupou a reflexão eclesial depois que a afirmação da divindade de Jesus já era aceita sem problemas. "A virgindade de Maria adquire significado somente na órbita da uma cristologia já desenvolvida".

b) A virgindade de Maria não é uma questão aberta quanto ao fato em si. Trata-se de um dogma estável e fundado nas fórmulas de fé, nas definições de Concílios, dos Padres, e do magistério. Permanece uma questão somente no que diz respeito a seu significado na história da salvação e para os homens e mulheres de hoje num contexto cultural próprio.
A concepção virginal é um dado bíblico incontestável. Mateus e Lucas são concordantes nos seguintes aspectos:
- Não é José que engendra Jesus (Mt 1,16.18-25; Lc 1,31.34s; 3,24)
- Jesus é engendrado realmente (Mt 1,20; Lc 1,35), e a forma passiva esconde o sujeito para mostrar o caráter transcendente da origem paterna de Cristo.
- Maria é a única origem humana de Jesus, como virgem que se faz mãe (Mt 1,16-25; Lc 1,27.35).
- A origem divina não se refere ao Pai, culturalmente identificado como princípio masculino, mas ao Espírito Santo, feminino em hebreu e neutro em grego. Exclui-se assim qualquer modelo teogâmico.

c) Deve-se procurar encontrar na virgindade de Maria o sentido do mistério, já aludido por Inácio de Antioquia:
"E permaneceu oculta ao príncipe deste século a virgindade de Maria e seu parto, assim como a morte do Senhor, três mistérios clamorosos (mystêria kraugês: mistério a proclamar em voz alta) que foram realizados no silêncio de Deus" (Ad Eph. 19,1).
A virgindade de Maria continua sendo um mistério, do qual não se tem prova científica, mas somente o testemunho bíblico e eclesial.
O sentido da virgindade de Maria deve excluir alguns argumentos e razões desviantes:
- A incompatibilidade entre sexualidade e sagrado, típico do pensamento semítico,
- A visão de alguns padres que exigem a virgindade de Maria para que Jesus não recebesse o Pecado Original,
- A associação da virgindade com a santidade de Maria, como se ela não pudesse ser mãe de Deus a não ser que fosse Virgem,
- O vínculo entre concepção virginal e divindade de Cristo, confundindo o nível biológico com o ontológico.

4. Significado teológico do dogma de Maria Virgem (p. 464-466)
Cristológico: a concepção virginal sinaliza que Jesus é um ser verdadeiramente novo, o dom gratuito e inexigível de Deus, a nova criação no Espírito. Não se trata de uma demonstração, mas de um sinal eloquente.
Salvífico: A concepção virginal revela que Deus escolhe meios pobres para realizar a salvação (1 Cor 1,17-25). A virgindade de Maria, considerada maldição pelos judeus, foi abraçada por Maria como forma de pobreza (Cf. Lc 1,48). Assim, a salvação vem a nós na disponibilidade ao dom de Deus.
Existencial: A virgindade de Maria é expressão de sua consagração total a Deus.

Imagem: Anunciação, de Murillo.