As aparições de Maria constituem uma das muitas formas possíveis de manifestações místicas extraordinárias. Chamam-se “místicas”, pois referem-se ao Sagrado (que no cristianismo é nomeado como o Deus Trindade); consideram-se “extraordinárias” porque não acontecem no cotidiano da existência e nem em todas as pessoas. Dentre estas manifestações extraordinárias, citam-se: locuções interiores e exteriores, visões, sonhos de revelação, pré-monições, intuição, sensações de odores e toques e tantas outras possíveis formas de comunicação divina. Algumas pessoas as recebem somente em um momento especial da vida, como parte de seu processo de conversão e crescimento na fé. Em outras, são intermitentes ou constantes, mas acompanhadas da obrigação de manter segredo.
As aparições marianas seriam momentos especiais, na qual a Mãe de Jesus, glorificada na comunhão dos Santos, se mostra a um ou mais videntes e comunica-lhes algo da parte de Deus, em vista da caminhada espiritual da humanidade. Em uma aparição há ao menos um vidente que experimenta sensorialmente que Mãe de Jesus se manifestou a ele(a), com algo que seu corpo percebe em forma de imagem e palavras. Nem toda visão corresponde a uma Aparição. Pode ser que o(a) vidente se auto-sugestione, que sua mente exteriorize em forma de palavras e imagens algo que ele anseia fortemente, que está velado no seu inconsciente pessoal e/ou no imaginário coletivo. Neste caso, trata-se de uma experiência meramente subjetiva, pois a linguagem não expressa a presença de um Outro, vindo em forma de consolo e apelo, mas é uma produção mental do próprio vidente.
A teologia espiritual, baseada no testemunho de muitos santos e místicos, afirma que as manifestações divinas extraordinárias – nas quais se incluem as aparições marianas – são possíveis, mas não necessárias. No caminho da intimidade com Deus, imprescindíveis são a fé, a esperança e a caridade. Todas as outras manifestações são bem-vindas, enquanto direcionadas para o fim principal: seguir Jesus e ampliar seu reino neste mundo, em vista do “novo céu e nova terra”. São Paulo já estabeleceu este critério decisivo, no cântico de 1Cor 13: receber revelações de Deus (profecia), falar com grande eloquência, realizar milagres e feitos extraordinários.... tudo isso é secundário, em vista do amor solidário, que brota da adesão a Jesus (fé) e espera a manifestação plena da sua glória (1 Cor 13,13).
Qualquer fenômeno aparicionista tem simultaneamente várias dimensões. Vejamos algumas.
- Dimensão espiritual. Um ou mais videntes fazem uma experiência religiosa intensa, que eles sustentam ser uma comunicação de Jesus ou de Maria. Esta experiência transforma a vida deles e tende a se difundir, pois os videntes convocam outras pessoas a acolher e praticar a mensagem que afirmam ter recebido da esfera divina. Os movimentos aparicionistas nascem e se desenvolvem dentro de uma corrente de espiritualidade, ou seja, de uma maneira específica de viver e compreender a fé em Jesus. Então, para entender as aparições do ponto de vista teológica, recorremos à teologia fundamental (conceito de revelação), à teologia da Graça (autocomunicação de Deus e a resposta humana) e à teologia espiritual.
- Dimensão eclesial. Os videntes e seu grupo assumem determinada religiosidade católica, que herdaram de sua família e de sua cultura. No entanto, a vidência pode ser também uma experiência original, que não tem antecedentes na vivência eclesial dos videntes. Em segundo lugar, o movimento aparicionista recebe apoio de pessoas e grupos que sintonizam com determinada visão sobre a vida cristã e a Igreja. Estes se apropriam da mensagem dos videntes, na medida em que se identificam com ela. Filtram o conteúdo das palavras dos videntes, de acordo com sua percepção. Além disso, para serem reconhecidos pela Igreja, os videntes aceitam passar pelo processo de investigação e discernimento, sob a coordenação do bispo diocesano e, posteriormente, da Sagrada Congregação da Doutrina da Fé. Assim, embora partam de vivências individuais, as aparições são um fenômeno eclesial, em vários momentos: gênese, constituição, divulgação, discernimento, aprovação e apropriação. Para compreender as aparições do ponto de vista eclesial, recorre-se às ciências da religião, à eclesiologia e aos critérios teológicos-pastorais estabelecidos pela autoridade da Igreja.
- Dimensão psicossomática. Porque somente algumas pessoas veem e ouvem os apelos de Maria de forma sensorial? O que existe na estrutura mental dos videntes, que possibilita captar de uma forma original uma possível comunicação divina? Para responder esta pergunta, a teologia recorre às ciências que estudam os estágios de consciência alterada, os fenômenos da sensitividade e a paranormalidade. Tal estudo não tem a pretensão de esgotar a explicação do fenômeno místico com conceitos da razão humana, retirando assim o valor da intervenção divina. Ao contrário, pretende mostrar como Deus se manifesta, em sua imensa gratuidade, potencializando e transformando o que ele já colocou em suas criaturas.
- Dimensão cultural, social e simbólica. Cada homem ou mulher vive em determinado tempo e espaço. Interage com a sua cultura, recebe condicionamentos de seu contexto e atua sobre ele. Isso também acontece com os movimentos aparicionistas. Cabe à teologia, com humildade e coragem, apontar os condicionamentos culturais que influenciam os videntes e as suas palavras. Dsses elementos culturais não determinam as mensagens atribuídas a Maria. Mas, em distintos graus, as condicionam, no duplo sentido de “oferecer condições” e “limitar”. Talvez seja a dimensão que ofereça mais resistência para ser compreendida. Um percentual significativo de católicos que aceitam as aparições como uma comunicação real de Deus ou de Maria, julgam que os videntes são meros repetidores da mensagem divina, que desce à Terra em forma 100% pura, sem qualquer participação humana. Por isso, estas mensagens teriam um grau de certeza maior que a Bíblia (!), e seria superior à reflexão dos teólogos, o senso comum dos fiéis, ou até as orientações dos bispos, do Concílio Vaticano II e do Papa. A teologia, servindo-se dos estudos das ciências da religião e de outros saberes, tem o dever de apontar os condicionamentos humanos que interferem nas mensagens dos videntes, para favorecer o discernimento à luz da fé, alertar para os enganos e possíveis desvios e estimular uma vivência religiosa equilibrada e lúcida.
Uma leitura panorâmica da História da Espiritualidade cristã leva-nos a compreender que a vidência e outros fenômenos místicos extraordinários estiveram presentes em distinta intensidade, no correr dos dois milênios de cristianismo. Eles fazem parte da Tradição viva da Igreja. De outro lado, a história é sábia ao mostrar que a vidência não é imprescindível, nem para a santidade nem para a evangelização. Embora se encontrem volumosos livros listando prováveis aparições de Maria desde o início da Igreja, é indiscutível que – com algumas exceções, como Guadalupe – o fenômeno só ganha importância para a evangelização nos séculos 19 e 20.
Para compreender as aparições, é necessário recorrer a várias chaves de leitura, convergindo sempre para a pergunta: como esta experiência mística extraordinária pode a ajudar a caminhada da fé dos cristãos católicos, de forma lúcida e equilibrada.
Para saber mais, veja: Afonso Murad. Visões e Aparições. Deus continua falando? Vozes.
quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012
terça-feira, 10 de janeiro de 2012
Maria, modelo da Igreja
O Concílio Vaticano II apresenta Maria, Mãe de Jesus Cristo, como "protótipo e modelo para a Igreja", e descreve-a como mulher humilde que escuta a Deus com confiança e alegria. Com essa mesma atitude temos de escutar a Deus na Igreja atual.
"Alegra-te". É o que primeiro Maria escuta de Deus e o primeiro que temos de escutar também hoje. Entre nós falta alegria. Com frequência deixamo-nos contagiar pela tristeza de uma Igreja envelhecida e gasta. Já não é Jesus a Boa Nova? Não sentimos a alegria de ser os Seus seguidores? Quando falta a alegria, a fé perde o frescor, a cordialidade desaparece, a amizade entre os crentes arrefece. Tudo fica mais difícil. É urgente despertar a alegria nas nossas comunidades e recuperar a paz que Jesus nos deixou de herança.
"O Senhor esteja contigo". Não é fácil a alegria na Igreja dos nossos dias. Só pode nascer da confiança em Deus. Não estamos órfãos. Vivemos invocando cada dia a um Deus Pai que nos acompanha, nos defende e procura sempre o bem de todo o ser humano.
Esta Igreja, às vezes tão desconcertada e perdida, que não acerta em voltar ao Evangelho, não está só. Jesus, o Bom Pastor, procura-nos. O Seu Espírito nos atrai. Contamos com o seu alento e compreensão. Jesus não nos abandonou. Com Ele tudo é possível.
"Não temas". São muitos os medos que nos paralisam, aos seguidores de Jesus. Medo do mundo moderno e da secularização. Medo de um futuro incerto. Medo da nossa debilidade. Medo da conversão ao Evangelho. O medo está nos fazendo muito mal. Impede-nos de caminhar para o futuro com esperança. Encerra-nos na manutenção estéril do passado. Crescem os nossos fantasmas. Desaparecem o realismo são e a sensatez cristã. É urgente construir uma Igreja da confiança. A força de Deus não se revela numa Igreja poderosa, mas sim humilde.
"Darás à luz um filho que se chamará Jesus". Também a nós, como a Maria, é-nos confiada uma missão: contribuir para pôr luz no meio da noite. Não estamos chamados a julgar o mundo mas a semear a esperança. A nossa tarefa não é apagar a pavio que se extingue, mas acender a fé que, em não poucos, está querendo brotar: Deus é uma pergunta que humaniza.
A partir das nossas comunidades, cada vez menores e mais humildes, podemos ser fermento de um mundo mais são e fraterno. Estamos em boas mãos. Deus não está em crise. Somos nós os que não nos atrevemos a seguir Jesus com alegria e confiança.
Autoria: José Pagola
"Alegra-te". É o que primeiro Maria escuta de Deus e o primeiro que temos de escutar também hoje. Entre nós falta alegria. Com frequência deixamo-nos contagiar pela tristeza de uma Igreja envelhecida e gasta. Já não é Jesus a Boa Nova? Não sentimos a alegria de ser os Seus seguidores? Quando falta a alegria, a fé perde o frescor, a cordialidade desaparece, a amizade entre os crentes arrefece. Tudo fica mais difícil. É urgente despertar a alegria nas nossas comunidades e recuperar a paz que Jesus nos deixou de herança.
"O Senhor esteja contigo". Não é fácil a alegria na Igreja dos nossos dias. Só pode nascer da confiança em Deus. Não estamos órfãos. Vivemos invocando cada dia a um Deus Pai que nos acompanha, nos defende e procura sempre o bem de todo o ser humano.
Esta Igreja, às vezes tão desconcertada e perdida, que não acerta em voltar ao Evangelho, não está só. Jesus, o Bom Pastor, procura-nos. O Seu Espírito nos atrai. Contamos com o seu alento e compreensão. Jesus não nos abandonou. Com Ele tudo é possível.
"Não temas". São muitos os medos que nos paralisam, aos seguidores de Jesus. Medo do mundo moderno e da secularização. Medo de um futuro incerto. Medo da nossa debilidade. Medo da conversão ao Evangelho. O medo está nos fazendo muito mal. Impede-nos de caminhar para o futuro com esperança. Encerra-nos na manutenção estéril do passado. Crescem os nossos fantasmas. Desaparecem o realismo são e a sensatez cristã. É urgente construir uma Igreja da confiança. A força de Deus não se revela numa Igreja poderosa, mas sim humilde.
"Darás à luz um filho que se chamará Jesus". Também a nós, como a Maria, é-nos confiada uma missão: contribuir para pôr luz no meio da noite. Não estamos chamados a julgar o mundo mas a semear a esperança. A nossa tarefa não é apagar a pavio que se extingue, mas acender a fé que, em não poucos, está querendo brotar: Deus é uma pergunta que humaniza.
A partir das nossas comunidades, cada vez menores e mais humildes, podemos ser fermento de um mundo mais são e fraterno. Estamos em boas mãos. Deus não está em crise. Somos nós os que não nos atrevemos a seguir Jesus com alegria e confiança.
Autoria: José Pagola
sexta-feira, 30 de dezembro de 2011
Religiosidade popular e Devoção Mariana
Por vezes, utilizam-se as expressões “religiosidade popular” e “devoção popular” como sinônimas. No entanto, elas traduzem diferentes realidades. “Religiosidade popular” compreende uma visão unificadora sobre Deus, o mundo e o ser humano, que está presente nos setores populares e nas culturas pré-modernas, de forma assistemática, não reflexa, mas muito ativa. Alguns autores consideram como “religiosidade popular” as formas de relação com o Sagrado que caracterizam os membros de determinada religião, de maneira diferente da sua versão oficial. Trata-se de um conceito com chave predominantemente sociológica e cultural. Independentemente da visão adotada, as práticas devocionais fazem parte da religiosidade popular, como manifestações visíveis da relação com Deus nos segmentos sociais mais pobres e que tiveram pouco acesso à cultura letrada.
Quando o teólogo(a) ou o pesquisador(a) das Ciências da Religião estuda a religiosidade popular, pode abordá-la sob diferentes ângulos: da prática devocional, dos discursos religiosos e de seus diferentes agentes, das influências sócio-históricas e culturais nas experiências do Sagrado. Portanto, a religiosidade popular é muito mais abrangente do que a devoção popular. Isso é importante para o mariólogo, pois há o risco de se confundirem as duas realidades, que estão relacionadas, mas são distintas.
Recentemente, no horizonte católico, a abordagem sobre a religiosidade popular tem assumido certa conotação triunfalista e ingênua. Considera-se a religiosidade popular como um tesouro puro e intacto, que deve ser conservado e difundido o máximo possível, com a bênção e o selo oficial da autoridade. Em contrapartida, critica-se em bloco a teologia moderna, que apontou limites, anacronismos e desvios da religiosidade tradicional. A teologia é culpabilizada como a responsável pela perda da “fé inocente do povo”. E não se percebe que esta “religiosidade idealizada” em muitos lugares já não existe mais como no passado. Não por causa da teologia, mas da cultura urbana, consumista, individualista. Várias práticas devocionais são desenterradas do passado, mas se criam sentidos diferentes para ela. Esta religiosidade urbana (e suburbana) moderna corre o risco de se tornar individualista, intolerante para quem pense diferente e com pouco impacto ético na existência. Como afirmava Marcial Maçaneiro, é mais terapia do que profecia.
Tanto ontem como hoje, a religiosidade popular tem valores e limites. O Documento de Aparecida utiliza outro termo, quase sinônimo: “piedade popular”. E afirma que a piedade popular é um ponto de partida para conseguir que a fé do povo amadureça e se faça mais fecunda. É preciso ser sensível a ela, saber perceber suas dimensões interiores e seus valores inegáveis. É necessário evangelizá-la ou purificá-la, assumindo sua riqueza evangélica (DAp 262). Da mesma forma, A mariologia não pode simplesmente justificar e reforçar qualquer prática piedosa referente à mãe de Jesus, nem também cair no discurso crítico avassalador e desrespeitoso.
Muitos teólogos, pastoralistas e cléricos classificam as práticas religiosas marianas com o nome genérico de “devoção popular”. Tal procedimento não está errado, mas é impreciso, do ponto de vista tanto eclesial quanto cultural.
É comum reunir distintas práticas cultuais (terço, novenas, ladainhas, procissões) com o título de “devoção popular”, para diferencia-las das manifestações públicas e oficiais de culto na Igreja Católica. Neste caso, pensa-se que enquanto a liturgia seria área de atuação do clero, a devoção competiria aos leigos(as), ao fiéis simples. Por vezes, há até certa visão ingênua, como se a devoção fosse uma manifestação que brota da pureza do povo piedoso, e por isso tem que ser mantida intacta. Isso não corresponde à verdade dos fatos. De fato, existem devoções nascidas de leigos e propagadas por movimentos leigos, mas a qualidade delas abrange um leque enorme: da eclesiologia verticalista medieval à visão de comunhão do Vaticano II, de crendices inaceitáveis a expressões teológicas admiráveis. Há ainda devoções criadas por Institutos religiosos e seus fundadores, por presbíteros e, mais raramente, por bispos.
Em alguns momentos da História, o clero se apoderou de devoções de origem laical, porque percebeu que isso fortaleceria o poder eclesiástico ou serviria para reforçar a “identidade católica”, em confronto com os protestantes e a modernidade. Em cada tempo histórico, diferentes agentes eclesiais tomam a vanguarda na promoção de devoções. Pode haver cooperação ou competição entre eles. Vejamos um exemplo conhecido. A devoção a Nossa Senhora Aparecida nasceu em contexto laical, e se desenvolveu lentamente nos primeiros anos. Ganhou expressão e abrangência quando os padres redentoristas assumiram a paróquia da cidade, promoveram as peregrinações e difundiram a devoção pela Rádio Aparecida. Até então, era uma entre as tantas “Nossas Senhoras” no Brasil. A Mãe Aparecida ganhou crescente reconhecimento quando os bispos decidiram transformá-la em “padroeira do Brasil”, no início do século passado. Ao mesmo tempo, pessoas e movimentos leigos continuam disseminando esta piedade. Portanto, a devoção mariana não é somente “popular”, no sentido eclesial, de que provem do laicato. Como toda realidade religiosa, é ambígua e pode ser apropriada por diferentes personagens, a serviço de muitos interesses. Alguns, santos e admiráveis. Outros, espúrios e questionáveis.
O adjetivo “popular”, aplicado à devoção, tem também sentido cultural e sociológico. Acredita-se que tais devoções sejam “populares” porque nascem e são vividas principalmente nos setores sociais empobrecidos, no campo e nos bairros da periferia das cidades. No entanto, o adjetivo é impreciso. A religiosidade de cunho devocional é promovida, vivida e difundida simultaneamente por pessoas e grupos de diferentes segmentos sociais. Há grupos de elites ricas e poderosas que promovem a oração do rosário, como também há comunidades de gente pobre, e de setores médios. Hoje, a devoção mariana está espalhada em todos os segmentos sociais. Em sentido cultural e sociológico, não é mais popular. Foi, em outros tempos.
Um trabalho a ser empreendido pelos teólogos e cientistas da religião consiste em identificar os elementos comuns e a originalidade de cada segmento eclesial (e social), quando assume, reelabora e dissemina determinada prática de piedade mariana.
Pelas razões aludidas acima, parece mais plausível utilizar somente a palavra “devoção” sem o adjetivo “popular”, quando se trata das práticas cultuais católicas que se situam no campo da piedade, fora do âmbito litúrgico. E sem dúvida, a piedade mariana é a mais expressiva.
Afonso Murad. A ser publicado em novo livro de Marialogia.
Quando o teólogo(a) ou o pesquisador(a) das Ciências da Religião estuda a religiosidade popular, pode abordá-la sob diferentes ângulos: da prática devocional, dos discursos religiosos e de seus diferentes agentes, das influências sócio-históricas e culturais nas experiências do Sagrado. Portanto, a religiosidade popular é muito mais abrangente do que a devoção popular. Isso é importante para o mariólogo, pois há o risco de se confundirem as duas realidades, que estão relacionadas, mas são distintas.
Recentemente, no horizonte católico, a abordagem sobre a religiosidade popular tem assumido certa conotação triunfalista e ingênua. Considera-se a religiosidade popular como um tesouro puro e intacto, que deve ser conservado e difundido o máximo possível, com a bênção e o selo oficial da autoridade. Em contrapartida, critica-se em bloco a teologia moderna, que apontou limites, anacronismos e desvios da religiosidade tradicional. A teologia é culpabilizada como a responsável pela perda da “fé inocente do povo”. E não se percebe que esta “religiosidade idealizada” em muitos lugares já não existe mais como no passado. Não por causa da teologia, mas da cultura urbana, consumista, individualista. Várias práticas devocionais são desenterradas do passado, mas se criam sentidos diferentes para ela. Esta religiosidade urbana (e suburbana) moderna corre o risco de se tornar individualista, intolerante para quem pense diferente e com pouco impacto ético na existência. Como afirmava Marcial Maçaneiro, é mais terapia do que profecia.
Tanto ontem como hoje, a religiosidade popular tem valores e limites. O Documento de Aparecida utiliza outro termo, quase sinônimo: “piedade popular”. E afirma que a piedade popular é um ponto de partida para conseguir que a fé do povo amadureça e se faça mais fecunda. É preciso ser sensível a ela, saber perceber suas dimensões interiores e seus valores inegáveis. É necessário evangelizá-la ou purificá-la, assumindo sua riqueza evangélica (DAp 262). Da mesma forma, A mariologia não pode simplesmente justificar e reforçar qualquer prática piedosa referente à mãe de Jesus, nem também cair no discurso crítico avassalador e desrespeitoso.
Muitos teólogos, pastoralistas e cléricos classificam as práticas religiosas marianas com o nome genérico de “devoção popular”. Tal procedimento não está errado, mas é impreciso, do ponto de vista tanto eclesial quanto cultural.
É comum reunir distintas práticas cultuais (terço, novenas, ladainhas, procissões) com o título de “devoção popular”, para diferencia-las das manifestações públicas e oficiais de culto na Igreja Católica. Neste caso, pensa-se que enquanto a liturgia seria área de atuação do clero, a devoção competiria aos leigos(as), ao fiéis simples. Por vezes, há até certa visão ingênua, como se a devoção fosse uma manifestação que brota da pureza do povo piedoso, e por isso tem que ser mantida intacta. Isso não corresponde à verdade dos fatos. De fato, existem devoções nascidas de leigos e propagadas por movimentos leigos, mas a qualidade delas abrange um leque enorme: da eclesiologia verticalista medieval à visão de comunhão do Vaticano II, de crendices inaceitáveis a expressões teológicas admiráveis. Há ainda devoções criadas por Institutos religiosos e seus fundadores, por presbíteros e, mais raramente, por bispos.
Em alguns momentos da História, o clero se apoderou de devoções de origem laical, porque percebeu que isso fortaleceria o poder eclesiástico ou serviria para reforçar a “identidade católica”, em confronto com os protestantes e a modernidade. Em cada tempo histórico, diferentes agentes eclesiais tomam a vanguarda na promoção de devoções. Pode haver cooperação ou competição entre eles. Vejamos um exemplo conhecido. A devoção a Nossa Senhora Aparecida nasceu em contexto laical, e se desenvolveu lentamente nos primeiros anos. Ganhou expressão e abrangência quando os padres redentoristas assumiram a paróquia da cidade, promoveram as peregrinações e difundiram a devoção pela Rádio Aparecida. Até então, era uma entre as tantas “Nossas Senhoras” no Brasil. A Mãe Aparecida ganhou crescente reconhecimento quando os bispos decidiram transformá-la em “padroeira do Brasil”, no início do século passado. Ao mesmo tempo, pessoas e movimentos leigos continuam disseminando esta piedade. Portanto, a devoção mariana não é somente “popular”, no sentido eclesial, de que provem do laicato. Como toda realidade religiosa, é ambígua e pode ser apropriada por diferentes personagens, a serviço de muitos interesses. Alguns, santos e admiráveis. Outros, espúrios e questionáveis.
O adjetivo “popular”, aplicado à devoção, tem também sentido cultural e sociológico. Acredita-se que tais devoções sejam “populares” porque nascem e são vividas principalmente nos setores sociais empobrecidos, no campo e nos bairros da periferia das cidades. No entanto, o adjetivo é impreciso. A religiosidade de cunho devocional é promovida, vivida e difundida simultaneamente por pessoas e grupos de diferentes segmentos sociais. Há grupos de elites ricas e poderosas que promovem a oração do rosário, como também há comunidades de gente pobre, e de setores médios. Hoje, a devoção mariana está espalhada em todos os segmentos sociais. Em sentido cultural e sociológico, não é mais popular. Foi, em outros tempos.
Um trabalho a ser empreendido pelos teólogos e cientistas da religião consiste em identificar os elementos comuns e a originalidade de cada segmento eclesial (e social), quando assume, reelabora e dissemina determinada prática de piedade mariana.
Pelas razões aludidas acima, parece mais plausível utilizar somente a palavra “devoção” sem o adjetivo “popular”, quando se trata das práticas cultuais católicas que se situam no campo da piedade, fora do âmbito litúrgico. E sem dúvida, a piedade mariana é a mais expressiva.
Afonso Murad. A ser publicado em novo livro de Marialogia.
sexta-feira, 23 de dezembro de 2011
Natal com Maria
Maria e José nos apresentam Jesus:
Na gruta de Belém,
Nos lugares e tempos inusitados,
No cotidiano, nos dias claros ou cinzentos.
Aqui a Palavra se faz carne
E vem morar pertinho de nós.
Feliz Natal.
Afonso Murad
Na gruta de Belém,
Nos lugares e tempos inusitados,
No cotidiano, nos dias claros ou cinzentos.
Aqui a Palavra se faz carne
E vem morar pertinho de nós.
Feliz Natal.
Afonso Murad
domingo, 11 de dezembro de 2011
Canto de homenagem a Guadalupe
Neste ano, no dia 12 de dezembro, a experiêncica de Guadalupe completa 480 anos! Medite este bela música do Padre Zézinho (que não é dedicada a Aparecida, e sim a Guadalupe). Ele liga o passado com o presente, contemplando ao mesmo tempo a dimensão pessoal e social da devoção mariana.
Mãe do céu morena, Senhora da América Latina
De olhar e caridade tão divina, de cor igual à cor de tantas raças
Virgem tão serena, Senhora destes povos tão sofridos,
patrona dos pequenos e oprimidos
Derrama sobre nós as tuas graças
Derrama sobre os jovens tua luz,
aos pobres vem mostrar o teu Jesus
Ao mundo inteiro traz o teu amor de mãe
Ensina quem tem tudo a partilhar
Ensina quem tem pouco a não cansar,
e faz o nosso povo caminhar em paz
Derrama a esperança sobre nós, ensina o povo a não calar a voz
Desperta o coração de quem não acordou,
Ensina que a justiça é condição, de construir um mundo mais irmão
E faz o nosso povo conhecer Jesus...
Para ouvir a música em mp3:
http://www.kboing.com.br/padre-zezinho/1-1057486/
Mãe do céu morena, Senhora da América Latina
De olhar e caridade tão divina, de cor igual à cor de tantas raças
Virgem tão serena, Senhora destes povos tão sofridos,
patrona dos pequenos e oprimidos
Derrama sobre nós as tuas graças
Derrama sobre os jovens tua luz,
aos pobres vem mostrar o teu Jesus
Ao mundo inteiro traz o teu amor de mãe
Ensina quem tem tudo a partilhar
Ensina quem tem pouco a não cansar,
e faz o nosso povo caminhar em paz
Derrama a esperança sobre nós, ensina o povo a não calar a voz
Desperta o coração de quem não acordou,
Ensina que a justiça é condição, de construir um mundo mais irmão
E faz o nosso povo conhecer Jesus...
Para ouvir a música em mp3:
http://www.kboing.com.br/padre-zezinho/1-1057486/
quarta-feira, 7 de dezembro de 2011
Maria Imaculada
A lmaculada Conceição é o resultado da relação íntima e fiel entre Deus e Maria; de uma relação na gratuidade do amor; de uma relação na qual se conjuga a liberdade de uma escolha e um chamado, com a resposta livre, fiel e contínua por parte de uma criatura. O sentido profundo dessa mensagem dogmática não está tanto na ausência de pecado quanto na plenitude e presença da graça que Deus outorga a Maria; a ausência de pecado é a consequência dessa presença amorosa e eficaz.
Que Maria esteja livre do pecado original não a exime de estar presente nela tudo que é autenticamente humano, com seus diversos dinamismos; também ela participa do caráter opaco da existência, da condição de ser uma mulher numa cultura e sociedade que lhe nega o acesso à Torá e a relega ao silêncio, uma mulher numa aldeia pequena e sem relevância; uma mulher casada com um artesão de um meio rural, dedicada aos trabalhos próprios da casa e da família, ou seja, levando a mesma vida comum e simples de suas vizinhas. Também ela sentia as diversas paixões humanas com suas tendências. Porém, à diferença de nós, conseguia integrá-las e orientá-las conforme o plano de Deus, no gozo da abertura a ele, efetivada em sua entrega generosa aos outros e na luta contra o mal. As contradições, os sofrimentos decorrentes da fidelidade à graça nela presente, assume-os de tal modo que, longe de anulá-la, de fechá-la em si mesma, lhe possibilitam crescer.
K. Rahner, em seu livro Maria, Mãe do Senhor, apresenta a Imaculada Conceição como a cheia de graça e a perfeitamente redimida. Que Maria seja a "cheia de graça" e tenha se visto livre do pecado original não implica privá-la ou negar-lhe sua humanidade. Mas apenas ressaltar que o Deus da Vida plenificou de tal modo seu ser que se tornou mais forte nela a luta pelo bem do que o ceder às forças do mal; mais o projeto de Deus do que a debilidade humana. E isso foi vivido por Maria, não por meio de um esforço voluntarista, mas sim por graça de Deus e resposta livre de sua parte. Nessa resposta sua pessoa se plenifica, cresce, brilha e ilumina.
Tampouco é negada a bondade do mundo criado nem a do ser humano. Maria não apresenta a si mesma como a perfeita; pelo contrário, como a humilhada, e desde essa verdade é resgatada pelo Deus que nela realiza maravilhas. A partir desta contemplação e compreensão ela é proclamada no Evangelho e na Igreja como a "cheia de graça". A Imaculada Conceição é Maria de Nazaré, que uma vez mais revela a opção de Deus pelos pobres. Trata-se da história de um chamado e de uma resposta.
Este dogma mariano também proclama que o bem é anterior ao mal, a graça é mais forte que o pecado; e que esta graça é patrimônio de todos, pois, como afirma K. Rahner: “em Maria e em sua Imaculada Conceição fica patente que a misericórdia eterna abraçou desde seu princípio o homem e, portanto, também nós, para que ressalte de maneira nítida que Deus não nos deixou sozinhos”. A Imaculada nos devolve um olhar de esperança, nos ajuda a confiar nas forças do bem, da verdade, da justiça, sobre as forças do mal, da mentira e da opressão. Estas podem até vencer de imediato, mas não são imunes e acabarão vencidas; cedo ou tarde o tribunal da história faz justiça. As situações, as instituições, as pessoas são dinâmicas e, como tais, podem ser transformadas; para isso basta crer e deixar espaço ao Deus da Vida, para que venha nos socorrer
(Sintetizado de: Clara Temporelli, Maria. Mulher de Deus e dos pobres. Releitura dos dogmas marianos, Paulus, p. 174-176)
Que Maria esteja livre do pecado original não a exime de estar presente nela tudo que é autenticamente humano, com seus diversos dinamismos; também ela participa do caráter opaco da existência, da condição de ser uma mulher numa cultura e sociedade que lhe nega o acesso à Torá e a relega ao silêncio, uma mulher numa aldeia pequena e sem relevância; uma mulher casada com um artesão de um meio rural, dedicada aos trabalhos próprios da casa e da família, ou seja, levando a mesma vida comum e simples de suas vizinhas. Também ela sentia as diversas paixões humanas com suas tendências. Porém, à diferença de nós, conseguia integrá-las e orientá-las conforme o plano de Deus, no gozo da abertura a ele, efetivada em sua entrega generosa aos outros e na luta contra o mal. As contradições, os sofrimentos decorrentes da fidelidade à graça nela presente, assume-os de tal modo que, longe de anulá-la, de fechá-la em si mesma, lhe possibilitam crescer.
K. Rahner, em seu livro Maria, Mãe do Senhor, apresenta a Imaculada Conceição como a cheia de graça e a perfeitamente redimida. Que Maria seja a "cheia de graça" e tenha se visto livre do pecado original não implica privá-la ou negar-lhe sua humanidade. Mas apenas ressaltar que o Deus da Vida plenificou de tal modo seu ser que se tornou mais forte nela a luta pelo bem do que o ceder às forças do mal; mais o projeto de Deus do que a debilidade humana. E isso foi vivido por Maria, não por meio de um esforço voluntarista, mas sim por graça de Deus e resposta livre de sua parte. Nessa resposta sua pessoa se plenifica, cresce, brilha e ilumina.
Tampouco é negada a bondade do mundo criado nem a do ser humano. Maria não apresenta a si mesma como a perfeita; pelo contrário, como a humilhada, e desde essa verdade é resgatada pelo Deus que nela realiza maravilhas. A partir desta contemplação e compreensão ela é proclamada no Evangelho e na Igreja como a "cheia de graça". A Imaculada Conceição é Maria de Nazaré, que uma vez mais revela a opção de Deus pelos pobres. Trata-se da história de um chamado e de uma resposta.
Este dogma mariano também proclama que o bem é anterior ao mal, a graça é mais forte que o pecado; e que esta graça é patrimônio de todos, pois, como afirma K. Rahner: “em Maria e em sua Imaculada Conceição fica patente que a misericórdia eterna abraçou desde seu princípio o homem e, portanto, também nós, para que ressalte de maneira nítida que Deus não nos deixou sozinhos”. A Imaculada nos devolve um olhar de esperança, nos ajuda a confiar nas forças do bem, da verdade, da justiça, sobre as forças do mal, da mentira e da opressão. Estas podem até vencer de imediato, mas não são imunes e acabarão vencidas; cedo ou tarde o tribunal da história faz justiça. As situações, as instituições, as pessoas são dinâmicas e, como tais, podem ser transformadas; para isso basta crer e deixar espaço ao Deus da Vida, para que venha nos socorrer
(Sintetizado de: Clara Temporelli, Maria. Mulher de Deus e dos pobres. Releitura dos dogmas marianos, Paulus, p. 174-176)
domingo, 4 de dezembro de 2011
Mariologia: história e símbolo
Em minha reflexão mariológica compreendi que, dado o momento de maturidade intelectual em que nos encontramos, não se deve dar lugar a meras suposições e elucubrações mentais. Maria não necessita de nossas mentiras. É necessário deixar de lado as imaginações (que muitas vezes funcionaram na mariologia), para nos situarmos o mais possível dentro do plano histórico. Hoje em dia a historiografia chegou a tal ponto de rigor e seriedade científica que seria desonesto não tê-la em conta na hora de falar sobre Maria.
(No entanto), Maria não é somente personagem histórico, que ficou no passado. Ela emerge como personagem arquetípico, contemporânea a todas as gerações.
Maria foi acolhida na Igreja que, nas diversas comunidades, guardou sua memória. Pouco a pouco começou a incluí-la em seu culto e liturgia. Depois, refletiu teologicamente sobre ela, tanto à luz de Jesus, confessado como Filho de Deus e redentor do mundo, como da Igreja, representada sob a imagem da Mulher, a Mãe, a Esposa, a Virgem, a Imaculada e a Assunta. Uma série muito complexa de interações entre piedade popular, progresso dogmático-teológico e magistério eclesiástico se cristalizou em uma mariologia dogmática. Ela expressa com evidência até onde chegou a compreensão eclesial e crente do mistério de Maria, e como se torna difícil de ser explicada teologicamente.
O objetivo da mariologia é oferecer uma síntese que situe Maria, a Mãe de Jesus, nosso Senhor, no lugar teológico e eclesiológico que lhe corresponde. Uma síntese capaz de favorecer, no estudante de teologia, a obtenção de uma visão apaixonada, inteligente e cordial do mistério de Maria; lúcida para descobrir e compreender a energia espiritual transformadora que Maria desencadeia na história da humanidade.
(Condensado de: José C.R. García Paredes, Mariología. Madrid: Biblioteca de autores cristianos – BAC, 2001, introdução, p.XVI – XVII)
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