sábado, 21 de abril de 2012

Novos dogmas marianos?

Em ambientes católicos é comum encontrar pessoas e grupos que atribuem a Maria os títulos de “corredentora” e “medianeira”. Baseiam-se no fato de existir uma longa tradição devocional, que justificaria tais títulos. Realmente, esses foram aplicados a Maria nos últimos dois séculos, inclusive por alguns Papas, embora não estejam presentes de forma significativa no primeiro milênio, tanto no oriente quanto no ocidente. Ou seja, não remontam à longa Tradição da Igreja, mas somente a uma parte dela. Importa também levar em consideração que certas afirmações sobre Maria não podem ser absolutizadas e retiradas de seu contexto. Antes, devem ser compreendidas dentro do horizonte em que foram formuladas, e reelaboradas com a perspectiva da visão mariológica do Capítulo 8 da Lumen Gentium, do Concílio Vaticano II.
O problema aflora atualmente quando movimentos marianistas se põem a defender a criação de novos dogmas marianos, a partir da prática devocional, desrespeitando e desvalorizando o Concílio Vaticano II, como se ele fosse algo secundário.
Vejamos os principais argumentos apresentados a favor de um novo dogma mariano, o da corredenção, e os argumentos contrários. Para tal síntese, usar-se-á principalmente o livro “María corredentora? Debate sobre um título mariológico” de H. Munsterman (Paulus, 2009).
Segundo seus defensores, o título de Corredentora tem se aplicado à Maria há muito tempo, aparece com mais clareza e maior frequência no Magistério recente, de Pio IX a João Paulo II na Encíclica “Redemptoris Mater”, embora não tenha sido assumido pelo Vaticano II. Maria pode ser chamada com propriedade de Corredentora em virtude do plano divino de associá-la plenamente à pessoa e à obra redentora de seu Filho. Maria cooperou com nossa redenção: (1) Crendo nas palavras do Anjo Gabriel e dando seu “sim” no mistério da encarnação, e (2) aceitando todos os sofrimentos que experimentou seu filho nas dores da Cruz. Maria é corredentora porque, abdicando de seus direitos de Mãe, imolou a seu Filho, oferecendo-o voluntariamente pela salvação da humanidade.
Devido à associação tão intensa com a obra salvífica de seu filho, pode-se afirmar que Ela verdadeiramente redimiu a todos e pode ser chamada corredentora do gênero humano. A corredenção mariana deve ser entendida como uma função subordinada, especial e extraordinária de Maria na obra salvadora de seu Filho. Mesmo que Cristo seja o único Mediador, nada impede que haja outros mediadores, com mediação secundária, subordinada à de Cristo. (Fonte: http://www.escuelacima.com/corredentora.html).
A pesquisa histórica, no entanto, mostrou que o título “corredentora” não tem raízes históricas profundas. É praticamente desconhecido na patrística. O renomado mariólogo René Laurentin, no clássico livro “O título de Corredentora. Estudos históricos. Roma/Paris, Ed. Marianum, 1951 (original em francês), traz informações preciosas sobre o tema. Laurentin mostra que na idade média alguns autores aplicam o título de “redentora” a Maria, no sentido de que ela deu à luz ao redentor. Com o desenvolver da devoção medieval a partir do século XII, a atuação de Maria passa a ser compreendida também no momento da cruz. Isso gera conflitos, pois redentor na cruz somente é Jesus. Para diminuir os equívocos, cria-se o termo “co-redendora”.
Os dois títulos coexistiram por um bom tempo, praticamente até o século XVIII. Laurentin sustenta que o título “corredentora” é utilizado durante todos esses séculos numa pequena minoria de obras e raramente por grandes teólogos. Já no início do século passado, com o rápido crescimento do marianismo, o termo ganhou corpo e se encontra disseminado, como em Bover, Roschinni, Kolbe, E. Stein, Escrivá, Padre Pio... No magistério, a expressão “corredentora” aparece pela primeira vez num discurso de Pio XI, em 1930. Portanto, não se fundamenta em fontes consistentes na história da Igreja. É algo relativamente recente, dos últimos 100 anos.
O discurso sobre a corredentora se serve de dois grandes argumentos teológicos pré-conciliares, ligados à teologia da Graça: redenção objetiva e paralelismo Maria-Eva. Usa-se a distinção entre “redenção objetiva” e “redenção subjetiva”, proveniente da teologia de M.J. Scheeben. A redenção objetiva refere-se à obra salvífica de Cristo, consumada na cruz. E a redenção subjetiva diz respeito à aplicação individual dos efeitos dessa obra a cada cristão e à Igreja. Todos os fiéis participam da redenção subjetiva, mas somente Maria atua, de “maneira única e ativa”, na redenção objetiva, por ser a mãe do salvador e sofrer com ele na cruz.
Este discurso recupera, num contexto muito diferente do original, o paralelismo entre Eva e Maria, que aparece em Justino (+165) e Ireneu de Lyon (+202). Afirma-se que pelo Sim de Maria, no momento da Anunciação, é anulada a queda de Eva. Neste sentido, Maria coopera na salvação. Ora, basta conhecer um pouco de teologia bíblica, para constatar a fragilidade do argumento. Maria de Nazaré é personagem histórico. Eva é figura simbólico-mitológica, pois não existiu como pessoa. Tal paralelismo foi útil no século II. Hoje, se mostra anacrônico, impreciso do ponto de vista linguístico, além de trazer consigo um ranço patriarcal e machista, ao culpabilizar a mulher pela origem do mal no mundo.
Hendro Munsterman, no livro citado (Maria corredentora, Paulus, 2009, p. 71-89) elenca argumentos contra o uso do termo corredentora. Apresentamos aqui uma síntese e reelaboração do pensamento do autor. Quais seriam os inconvenientes do termo “corredentora”, aplicado a Maria?
- O título fere a unicidade da redenção realizada por Cristo. A Bíblia é clara: redentor e salvador, somente Jesus! (1 Tm 2,5; At 4,12). Do ponto de vista puramente lexical, o termo coredemptrix é problemático e ambíguo. Mesmo que se diga que o prefixo “co” não significa estar no mesmo nível de Jesus, a imprecisão permanece.
- O titulo é ambíguo. Nas nossas línguas modernas, o prefixo “co” em grande parte das palavras significa ou subentende uma igualdade entre duas entidades. Por exemplo: coproprietário, coassociado... Tal imprecisão semântica deixa margem para pensar que Maria não é salva por Cristo, pois ela ajuda a Cristo no processo de redenção. Quando um determinado termo ou conceito necessita de muita explicação, é sinal de inadequação. E não se trata somente da interpretação dada ao prefixo “co”. Os termos “redenção” e “salvação” representam doutrinas precisas. Já a idéia de corredenção não goza de consenso de interpretação.
- Ele Torna obscuro o papel do Espírito Santo. Na realidade, quem atua como “corredentor” é o Espírito Santo, que realiza nos corações o encontro salvífico do cristão com o Pai e o Filho. Ao transferir tal atribuição para Maria, se olvida esta tarefa do Espírito.
- O conteúdo de “corredentora” reflete um sistema teológico ultrapassado. Segundo W. Beinert, a dificuldade de refletir sobre este tema reside na teologia (neo)escolástica, que reduziu a conceitos o que os Padres da Igreja escreveram em linguagem imaginária e simbólica. Quando Ireneu diz que “Maria é causa de salvação para o gênero humano”, não está fazendo uma afirmação dogmática. Mas foi (e ainda é) interpretado assim. Por isso, é melhor recorre ao método da História da Salvação, preconizado pelo Vaticano II, do que se enredar em conceitos prévios, que por vezes são ambíguos e inoperantes.
-“Corredentora” serve à mariologia desequilibradamente maximalista. No século passado, o título situava Maria como coadjuvante de Jesus, na assim chamada “redenção objetiva”. Com a virada do Vaticano II, a tendência inicial consistiu em enfatizar a participação de Maria na “redenção subjetiva”, enquanto modelo da Igreja. De uma mariologia predominantememente cristotípica (em comparação com Cristo) passou-se para uma eclesiotípica (em relação com a Igreja). No entanto, o neoconservadorismo supervaloriza a Igreja, no processo de redenção. E Maria, também. O título corredentora serve a este propósito.
- A argumentação fundamenta-se pouco na bíblia e na patrística e privilegia testemunho de videntes e determinada interpretação dos papas. Basta ler os escritos dos movimentos marianos que defendem mais este dogma para perceber que a construção de sua doutrina se baseia numa leitura prototípica do Antigo Testamento, sem levar em conta a contribuição da teologia bíblica, faz uma leitura escolástica dos padres da Igreja (paralelismo Eva e Maria), não levando em conta sua linguagem simbólico-alegórica, e se serve de textos de papas da era mariana (e João Paulo II). Para completar, usam o argumento de videntes recentes, como Ida Peerdeman, que em suas mensagens dizem “Maria solicita a definição de um novo dogma!”
- O título nega o acordo de católicos e luteranos sobre a justificação. Em 1999, a Igreja católica e Federação luterana mundial assinaram a “Declaração comum a respeito da doutrina da justificação”. Foi um passo importantíssimo para curar feridas no seio do cristianismo ocidental, apontar os elementos comuns e reconhecer de forma respeitosa as diferenças entre as duas confissões cristãs sobre esta questão teológica fundamental. No documento se afirma: “Quando os católicos dizem que a pessoa humana coopera por seu consentimento no agir justificante de Deus, eles consideram tal consentimento pessoal como sendo um ato da graça e não o resultado de uma ação onde a pessoa seria capaz disso” (n.20). Ou seja, trata-se de uma resposta ativa do ser humano à proposta divina, possibilitada pela mesma graça. Ora, o termo “corredentora” suscita impecilhos na teologia da Graça, pois põe na sombra o fato de que a cooperação de Maria na obra da salvação é manifestação da graça de Deus.
- O título cria enormes problemas ecumênicos com ortodoxos e protestantes. Para os ortodoxos, um novo dogma mariano aumentaria o fosso de separação, pois dificilmente seria formulado por um concílio ecumênico e obscureceria o grande dogma mariano da Theotókos, aceito por praticamente todas as Igrejas cristãs históricas. Para os protestantes, tal dogma atentaria contra a única mediação de Cristo e a unicidade da sua obra redentora.
Espera-se que os agentes de pastoral, os presbíteros, os teólogos(as), os bispos, as Conferências Episcopais, a Cúria Romana e o Papa tomem consciência da inconveniência de atribuir a Maria o título de “corredentora”. Tanto do ponto de vista pastoral quanto dogmático, é mais sábio utilizar em seu lugar termos menos ambíguos, mais sintonizados com a perspectiva da História da Salvação, no horizonte da “comunhão dos Santos”.
Fonte: Afonso Murad, Maria toda de Deus e tão humana. Compêndio de Mariologia. Paulinas, 2012.

domingo, 18 de março de 2012

José, Maria e Jesus

Este poema de Zé Vicente, intitulado "Divino Recado" apresenta São José em relação ao "Sim" de Maria e à missão de Jesus. Leia e medite. E viva São José!

Mensageiro que Deus enviou / Veio trazendo divino recado
Pra menina o anjo anunciou/ Que o seu Deus estava apaixonado!
Ela disse "sim" e se entregou/ E o dia da graça enfim começou
E o amor se fez corpo/ No corpo de mulher/ De Maria de Nazaré!

Carpinteiro e trabalhador/ De Maria enamorado
Se envolveu no mistério do amor/ E de Deus se tornou aliado
Ele disse "sim" também aceitou/ E a vida enfim alegrou cantou/
E o amor se fez Filho/ De um homem de fé/ De um artista chamado José!

Companheiro e libertador/ Do divino o Filho amado
Todo cheio da graça e do ardor/ Aos mais pobres se fez consagrado
Ele disse "sim" e se encarnou/ E a boa notícia enfim se escutou
E o amor se fez gente como a gente é / Em Jesus homem de Nazaré!

sexta-feira, 2 de março de 2012

Bibliografia atualizada sobre Maria

1. Livros
a) Maria na Bíblia (contexto, teologia e espiritualidade)
APARICIO, A (org.), Maria del evangelio. Claretianas, 1994.
BEATTIE, T., Redescobrindo Maria a partir dos Evangelhos. Paulinas, 2003.
BOFF, Cl, O cotidiano de Maria de Nazaré, Salesiana, 2003.
BROWN, R (org.), Maria no Novo Testamento, Paulinas, 1985.
BROWN, R., O nascimento do Messias. Comentários das narrativas da infância nos evangelhos de Mateus e Lucas. Paulinas, 2005.
MALINA, B.J., El mundo social de Jesús y los evangelios. Sal Terrae, 2002, p. 131-155.
MURAD, Afonso, Quem é essa mulher. Maria na bíblia. Paulinas, 1996.
PIKAZA, X., Amiga de Dios. Mensaje mariano del Nuevo Testamento. San Pablo, 1996.
SEBASTIANI, L., Maria e Isabel. Ícone da solidariedade. Paulinas, 1998
SERRA, A., Maria según el evangelio. Sígueme, 1988.

b) Maria no culto cristão: liturgia e devoção
BEINERT, W (org.), O culto a Maria hoje. Paulinas, 1980.
BISINOTO, E., Conheça os títulos de Nossa Senhora. Santuário, 2010, 2ed.
BOFF, Li, Maria na vida do povo. Ensaios de mariologia na ótica latino-americana e caribenha. São Paulo: Paulus, 2001.
BOFF, Li., Culto e práticas de devoção a Maria. Santuário, 2004.
DE FIORES, S., Eis aí tua mãe. Um mês com Maria. São Paulo: Ave-Maria, 2010, 2ed.
GONZÁLEZ DORADO, A., Mariologia popular Latino-americana, Loyola, 1991.
MAGGIONI, C., Maria na Igreja em oração. Solenidades, festas e memórias marianas no ano litúrgico. Paulus, 1998.
MEGALE, Nilza, 112 invocações da Virgem Maria no Brasil, Vozes, 1986.

c) Maria nos dogmas
BOFF, Cl., Dogmas marianos. Síntese catequético-pastoral. Ave-Maria, 2010.
BUCKER, B. et ali, Maria e a trindade. São Paulo: Paulus, 2002, p.119-162.
COSTA, S.R. (org.), Imaculada. Maria do povo, Maria de Deus. Vozes, 2004.
MARTINEZ SIERRA, A., La Inmaculada y el mistério del hombre, (Madrid) BAC Pastoral, 2004.
MEUNIER, B.,O nascimento dos dogmas cristãos. Loyola, 2005.
MUNSTERMAN, H., María corredentora? Debate sobre um título mariológico. São Paulo: Paulus, 2009
SOCIEDAD MARIOLOGICA ESPAÑOLA (ORG.), Mariologia en crisis? Los dogmas marianos y su revisión teologica, Estudios Marianos XLII, Barcelona, 1978.
SÖLL, Georg, Storia dei dogmi mariani, LAS, 1981.
TEMPORELLI, C., Dogmas Marianos. Paulus, 2010.

d) Marialogia Sistemática (Maria na bíblia, no culto e no dogma. Introdução geral)
BOFF, Cl., Introdução à mariologia, Vozes, 2003, p.11-16.
BOFF, Cl., Mariologia Social, Paulus.
BOFF, L, O rosto materno de Deus, Vozes, 1979.
CALIMAN, C (org.), Teologia e Devoção mariana no Brasil. Paulinas, 1989.
COYLE, K., Maria na tradição cristã a partir de uma perspectiva contemporânea. Paulus, 2005, 5ed.
DE FIORES, S., Maria en la teologia contemporánea, Sigueme, 1991.
DE FIORES, S., María, Madre de Jesús. Síntese histórico-salvífica. Secretariado Trinitário, 2002
DE LA POTTERIE, I., Maria en el misterio de la alianza. Madrid, BAC, 1993
FORTE, B., Maria, a mulher ícone do mistério. Paulinas, 1991.
GARCÍA PAREDES, J.C.R., Mariología, (Madrid) BAC, 2001.
GONZÁLES, C. I., Maria, Evangelizada e evangelizadora. Loyola, 1990.
JOHNSON, E., Nossa Verdadeira irmã. Teologia de Maria na comunhão dos Santos. Loyola, 2006, p.175-386.
L. BINGEMER, M.C. e GEBARA, I., Maria, mãe de Deus e mãe dos pobres. Vozes, 1987.
MURAD, A., Maria, toda de Deus e tão humana. Compêndio de Mariologia. Paulinas - Santuário,  2012.
PIKAZA, X., La Madre de Jesús. Introducción a la mariologia, Sígueme, 1990.
TAVARD, G.H., As múltiplas faces da Virgem Maria. Paulus, 1999.

e) Temas diversos de mariologia
CANTALAMESSA, R., Maria, um espelho para a Igreja. Loyola. 1992.
COMISSÃO INTERNACIONAL ANGLICANO-CATÓLICA, Maria: Graça e esperança em Cristo. Paulinas, 2005.
DUQUESNE, J., Maria. A mãe de Jesus. Bertrand Brasil, 2005, p. 31-52.
GOMES-ACEBO, I., María y la cultura mediterránea em: VVAA, María, Mujer mediterránea, Desclée de Brouwer, 1999, p. 19-75.
GRUPO DE DOMBES, Maria no desígnio de Deus e a comunhão dos Santos. Santuário, 2005.
LAURENTIN, R., Apariciones actuales da la Virgen María. Madrid: RIALP, 1991
LAURENTIN, R., Maria, Clave del mistero cristiano, San Pablo, 1996.
MESTERS,C.,  Maria, a mãe de Jesus. Vozes, 3ed, 1987.
MÜLLER, G.L., Que significa Maria para nosotros, los cristianos? Reflexiones sobre o capítulo mariológico de la Lumen Gentium. (Madrid) Ed. Palavra, 2001.
MURAD, Afonso, O que Maria tem a dizer às mães de hoje. Paulus, 1997.
MURAD, Afonso, Visões e aparições. Deus continua falando? Vozes, 1997.
NAVARRO PUERTO, M., Maria, la mujer. Claretianas, 1987.
OSSANNA, T., Maria nossa irmã. Paulinas, 1997.
PIKAZA, X., Maria e o Espírito Santo. Loyola, 1987
Revista CONCILIUM, Maria nas Igrejas. Perspectivas de uma mariologia ecumênica. Fasc. 188, 1983/8. Ed. Vozes.
RIBLA – Revista de interpretação bíblica latino-americana. Maria. N.46. 2003/3. Vozes.
SCHILLEBEECKX, E. et HALKES, C., Maria ayer, hoy, mañana. Sígueme, 2000, p. 29-76 (introdução à mariologia).
UMBRASIL (org.), Maria no coração da Igreja. Paulinas, 2011.

2. Dicionários
DE FIORES, S. et MEO, S. (org.), Dicionário de mariologia. Paulus, 1995.
DE FIORES, S., SCHIEFER, V.F et PERRELLA, S.M (org). Mariologia (Dizionario), (Milano), San Paolo, 2009.

3. Documentos do magistério da Igreja católica
CONCÍLIO VATICANO II, Constituição Dogmática Lumen Gentium, capítulo 8, Vozes.
CNBB, Aparições e revelações particulares. Coleção Subsídios doutrinais, Brasilia: Ed. CNBB, 2009.
PAULO VI, O culto à Virgem Maria (Marialis Cultus), 1974, Paulinas.
JOÃO PAULO II, A mãe do redentor (Redemptoris Mater), 1989, Paulinas
JOÃO PAULO II, Carta Apostólica “O rosário da Virgem Maria. Paulinas, 2002.
CELAM, Documento de Aparecida
 
(Atualizado em março de 2013)
Observações:
- Prioridade para bibliografia de língua portuguesa. Citamos obras importantes em espanhol e algumas em italiano.
- Classificação por aproximação. Há obras que correspondem a mais de um ítem.

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

Aparições de Nossa Senhora: um fenômeno complexo

As aparições de Maria constituem uma das muitas formas possíveis de manifestações místicas extraordinárias. Chamam-se “místicas”, pois referem-se ao Sagrado (que no cristianismo é nomeado como o Deus Trindade); consideram-se “extraordinárias” porque não acontecem no cotidiano da existência e nem em todas as pessoas. Dentre estas manifestações extraordinárias, citam-se: locuções interiores e exteriores, visões, sonhos de revelação, pré-monições, intuição, sensações de odores e toques e tantas outras possíveis formas de comunicação divina. Algumas pessoas as recebem somente em um momento especial da vida, como parte de seu processo de conversão e crescimento na fé. Em outras, são intermitentes ou constantes, mas acompanhadas da obrigação de manter segredo.

As aparições marianas seriam momentos especiais, na qual a Mãe de Jesus, glorificada na comunhão dos Santos, se mostra a um ou mais videntes e comunica-lhes algo da parte de Deus, em vista da caminhada espiritual da humanidade. Em uma aparição há ao menos um vidente que experimenta sensorialmente que Mãe de Jesus se manifestou a ele(a), com algo que seu corpo percebe em forma de imagem e palavras. Nem toda visão corresponde a uma Aparição. Pode ser que o(a) vidente se auto-sugestione, que sua mente exteriorize em forma de palavras e imagens algo que ele anseia fortemente, que está velado no seu inconsciente pessoal e/ou no imaginário coletivo. Neste caso, trata-se de uma experiência meramente subjetiva, pois a linguagem não expressa a presença de um Outro, vindo em forma de consolo e apelo, mas é uma produção mental do próprio vidente.

A teologia espiritual, baseada no testemunho de muitos santos e místicos, afirma que as manifestações divinas extraordinárias – nas quais se incluem as aparições marianas – são possíveis, mas não necessárias. No caminho da intimidade com Deus, imprescindíveis são a fé, a esperança e a caridade. Todas as outras manifestações são bem-vindas, enquanto direcionadas para o fim principal: seguir Jesus e ampliar seu reino neste mundo, em vista do “novo céu e nova terra”. São Paulo já estabeleceu este critério decisivo, no cântico de 1Cor 13: receber revelações de Deus (profecia), falar com grande eloquência, realizar milagres e feitos extraordinários.... tudo isso é secundário, em vista do amor solidário, que brota da adesão a Jesus (fé) e espera a manifestação plena da sua glória (1 Cor 13,13).

Qualquer fenômeno aparicionista tem simultaneamente várias dimensões. Vejamos algumas.
- Dimensão espiritual. Um ou mais videntes fazem uma experiência religiosa intensa, que eles sustentam ser uma comunicação de Jesus ou de Maria. Esta experiência transforma a vida deles e tende a se difundir, pois os videntes convocam outras pessoas a acolher e praticar a mensagem que afirmam ter recebido da esfera divina. Os movimentos aparicionistas nascem e se desenvolvem dentro de uma corrente de espiritualidade, ou seja, de uma maneira específica de viver e compreender a fé em Jesus. Então, para entender as aparições do ponto de vista teológica, recorremos à teologia fundamental (conceito de revelação), à teologia da Graça (autocomunicação de Deus e a resposta humana) e à teologia espiritual.
- Dimensão eclesial. Os videntes e seu grupo assumem determinada religiosidade católica, que herdaram de sua família e de sua cultura. No entanto, a vidência pode ser também uma experiência original, que não tem antecedentes na vivência eclesial dos videntes. Em segundo lugar, o movimento aparicionista recebe apoio de pessoas e grupos que sintonizam com determinada visão sobre a vida cristã e a Igreja. Estes se apropriam da mensagem dos videntes, na medida em que se identificam com ela. Filtram o conteúdo das palavras dos videntes, de acordo com sua percepção. Além disso, para serem reconhecidos pela Igreja, os videntes aceitam passar pelo processo de investigação e discernimento, sob a coordenação do bispo diocesano e, posteriormente, da Sagrada Congregação da Doutrina da Fé. Assim, embora partam de vivências individuais, as aparições são um fenômeno eclesial, em vários momentos: gênese, constituição, divulgação, discernimento, aprovação e apropriação. Para compreender as aparições do ponto de vista eclesial, recorre-se às ciências da religião, à eclesiologia e aos critérios teológicos-pastorais estabelecidos pela autoridade da Igreja.
- Dimensão psicossomática. Porque somente algumas pessoas veem e ouvem os apelos de Maria de forma sensorial? O que existe na estrutura mental dos videntes, que possibilita captar de uma forma original uma possível comunicação divina? Para responder esta pergunta, a teologia recorre às ciências que estudam os estágios de consciência alterada, os fenômenos da sensitividade e a paranormalidade. Tal estudo não tem a pretensão de esgotar a explicação do fenômeno místico com conceitos da razão humana, retirando assim o valor da intervenção divina. Ao contrário, pretende mostrar como Deus se manifesta, em sua imensa gratuidade, potencializando e transformando o que ele já colocou em suas criaturas.
- Dimensão cultural, social e simbólica. Cada homem ou mulher vive em determinado tempo e espaço. Interage com a sua cultura, recebe condicionamentos de seu contexto e atua sobre ele. Isso também acontece com os movimentos aparicionistas. Cabe à teologia, com humildade e coragem, apontar os condicionamentos culturais que influenciam os videntes e as suas palavras. Dsses elementos culturais não determinam as mensagens atribuídas a Maria. Mas, em distintos graus, as condicionam, no duplo sentido de “oferecer condições” e “limitar”. Talvez seja a dimensão que ofereça mais resistência para ser compreendida. Um percentual significativo de católicos que aceitam as aparições como uma comunicação real de Deus ou de Maria, julgam que os videntes são meros repetidores da mensagem divina, que desce à Terra em forma 100% pura, sem qualquer participação humana. Por isso, estas mensagens teriam um grau de certeza maior que a Bíblia (!), e seria superior à reflexão dos teólogos, o senso comum dos fiéis, ou até as orientações dos bispos, do Concílio Vaticano II e do Papa. A teologia, servindo-se dos estudos das ciências da religião e de outros saberes, tem o dever de apontar os condicionamentos humanos que interferem nas mensagens dos videntes, para favorecer o discernimento à luz da fé, alertar para os enganos e possíveis desvios e estimular uma vivência religiosa equilibrada e lúcida.

Uma leitura panorâmica da História da Espiritualidade cristã leva-nos a compreender que a vidência e outros fenômenos místicos extraordinários estiveram presentes em distinta intensidade, no correr dos dois milênios de cristianismo. Eles fazem parte da Tradição viva da Igreja. De outro lado, a história é sábia ao mostrar que a vidência não é imprescindível, nem para a santidade nem para a evangelização. Embora se encontrem volumosos livros listando prováveis aparições de Maria desde o início da Igreja, é indiscutível que – com algumas exceções, como Guadalupe – o fenômeno só ganha importância para a evangelização nos séculos 19 e 20.
Para compreender as aparições, é necessário recorrer a várias chaves de leitura, convergindo sempre para a pergunta: como esta experiência mística extraordinária pode a ajudar a caminhada da fé dos cristãos católicos, de forma lúcida e equilibrada.
Para saber mais, veja: Afonso Murad. Visões e Aparições. Deus continua falando? Vozes.

terça-feira, 10 de janeiro de 2012

Maria, modelo da Igreja

O Concílio Vaticano II apresenta Maria, Mãe de Jesus Cristo, como "protótipo e modelo para a Igreja", e descreve-a como mulher humilde que escuta a Deus com confiança e alegria. Com essa mesma atitude temos de escutar a Deus na Igreja atual.

"Alegra-te". É o que primeiro Maria escuta de Deus e o primeiro que temos de escutar também hoje. Entre nós falta alegria. Com frequência deixamo-nos contagiar pela tristeza de uma Igreja envelhecida e gasta. Já não é Jesus a Boa Nova? Não sentimos a alegria de ser os Seus seguidores? Quando falta a alegria, a fé perde o frescor, a cordialidade desaparece, a amizade entre os crentes arrefece. Tudo fica mais difícil. É urgente despertar a alegria nas nossas comunidades e recuperar a paz que Jesus nos deixou de herança.
"O Senhor esteja contigo". Não é fácil a alegria na Igreja dos nossos dias. Só pode nascer da confiança em Deus. Não estamos órfãos. Vivemos invocando cada dia a um Deus Pai que nos acompanha, nos defende e procura sempre o bem de todo o ser humano.
Esta Igreja, às vezes tão desconcertada e perdida, que não acerta em voltar ao Evangelho, não está só. Jesus, o Bom Pastor, procura-nos. O Seu Espírito nos atrai. Contamos com o seu alento e compreensão. Jesus não nos abandonou. Com Ele tudo é possível.
"Não temas". São muitos os medos que nos paralisam, aos seguidores de Jesus. Medo do mundo moderno e da secularização. Medo de um futuro incerto. Medo da nossa debilidade. Medo da conversão ao Evangelho. O medo está nos fazendo muito mal. Impede-nos de caminhar para o futuro com esperança. Encerra-nos na manutenção estéril do passado. Crescem os nossos fantasmas. Desaparecem o realismo são e a sensatez cristã. É urgente construir uma Igreja da confiança. A força de Deus não se revela numa Igreja poderosa, mas sim humilde.
"Darás à luz um filho que se chamará Jesus". Também a nós, como a Maria, é-nos confiada uma missão: contribuir para pôr luz no meio da noite. Não estamos chamados a julgar o mundo mas a semear a esperança. A nossa tarefa não é apagar a pavio que se extingue, mas acender a fé que, em não poucos, está querendo brotar: Deus é uma pergunta que humaniza.
A partir das nossas comunidades, cada vez menores e mais humildes, podemos ser fermento de um mundo mais são e fraterno. Estamos em boas mãos. Deus não está em crise. Somos nós os que não nos atrevemos a seguir Jesus com alegria e confiança.
Autoria: José Pagola

sexta-feira, 30 de dezembro de 2011

Religiosidade popular e Devoção Mariana

Por vezes, utilizam-se as expressões “religiosidade popular” e “devoção popular” como sinônimas. No entanto, elas traduzem diferentes realidades. “Religiosidade popular” compreende uma visão unificadora sobre Deus, o mundo e o ser humano, que está presente nos setores populares e nas culturas pré-modernas, de forma assistemática, não reflexa, mas muito ativa. Alguns autores consideram como “religiosidade popular” as formas de relação com o Sagrado que caracterizam os membros de determinada religião, de maneira diferente da sua versão oficial. Trata-se de um conceito com chave predominantemente sociológica e cultural. Independentemente da visão adotada, as práticas devocionais fazem parte da religiosidade popular, como manifestações visíveis da relação com Deus nos segmentos sociais mais pobres e que tiveram pouco acesso à cultura letrada.

Quando o teólogo(a) ou o pesquisador(a) das Ciências da Religião estuda a religiosidade popular, pode abordá-la sob diferentes ângulos: da prática devocional, dos discursos religiosos e de seus diferentes agentes, das influências sócio-históricas e culturais nas experiências do Sagrado. Portanto, a religiosidade popular é muito mais abrangente do que a devoção popular. Isso é importante para o mariólogo, pois há o risco de se confundirem as duas realidades, que estão relacionadas, mas são distintas.

Recentemente, no horizonte católico, a abordagem sobre a religiosidade popular tem assumido certa conotação triunfalista e ingênua. Considera-se a religiosidade popular como um tesouro puro e intacto, que deve ser conservado e difundido o máximo possível, com a bênção e o selo oficial da autoridade. Em contrapartida, critica-se em bloco a teologia moderna, que apontou limites, anacronismos e desvios da religiosidade tradicional. A teologia é culpabilizada como a responsável pela perda da “fé inocente do povo”. E não se percebe que esta “religiosidade idealizada” em muitos lugares já não existe mais como no passado. Não por causa da teologia, mas da cultura urbana, consumista, individualista. Várias práticas devocionais são desenterradas do passado, mas se criam sentidos diferentes para ela. Esta religiosidade urbana (e suburbana) moderna corre o risco de se tornar individualista, intolerante para quem pense diferente e com pouco impacto ético na existência. Como afirmava Marcial Maçaneiro, é mais terapia do que profecia.

Tanto ontem como hoje, a religiosidade popular tem valores e limites. O Documento de Aparecida utiliza outro termo, quase sinônimo: “piedade popular”. E afirma que a piedade popular é um ponto de partida para conseguir que a fé do povo amadureça e se faça mais fecunda. É preciso ser sensível a ela, saber perceber suas dimensões interiores e seus valores inegáveis. É necessário evangelizá-la ou purificá-la, assumindo sua riqueza evangélica (DAp 262). Da mesma forma, A mariologia não pode simplesmente justificar e reforçar qualquer prática piedosa referente à mãe de Jesus, nem também cair no discurso crítico avassalador e desrespeitoso.

Muitos teólogos, pastoralistas e cléricos classificam as práticas religiosas marianas com o nome genérico de “devoção popular”. Tal procedimento não está errado, mas é impreciso, do ponto de vista tanto eclesial quanto cultural.
É comum reunir distintas práticas cultuais (terço, novenas, ladainhas, procissões) com o título de “devoção popular”, para diferencia-las das manifestações públicas e oficiais de culto na Igreja Católica. Neste caso, pensa-se que enquanto a liturgia seria área de atuação do clero, a devoção competiria aos leigos(as), ao fiéis simples. Por vezes, há até certa visão ingênua, como se a devoção fosse uma manifestação que brota da pureza do povo piedoso, e por isso tem que ser mantida intacta. Isso não corresponde à verdade dos fatos. De fato, existem devoções nascidas de leigos e propagadas por movimentos leigos, mas a qualidade delas abrange um leque enorme: da eclesiologia verticalista medieval à visão de comunhão do Vaticano II, de crendices inaceitáveis a expressões teológicas admiráveis. Há ainda devoções criadas por Institutos religiosos e seus fundadores, por presbíteros e, mais raramente, por bispos.

Em alguns momentos da História, o clero se apoderou de devoções de origem laical, porque percebeu que isso fortaleceria o poder eclesiástico ou serviria para reforçar a “identidade católica”, em confronto com os protestantes e a modernidade. Em cada tempo histórico, diferentes agentes eclesiais tomam a vanguarda na promoção de devoções. Pode haver cooperação ou competição entre eles. Vejamos um exemplo conhecido. A devoção a Nossa Senhora Aparecida nasceu em contexto laical, e se desenvolveu lentamente nos primeiros anos. Ganhou expressão e abrangência quando os padres redentoristas assumiram a paróquia da cidade, promoveram as peregrinações e difundiram a devoção pela Rádio Aparecida. Até então, era uma entre as tantas “Nossas Senhoras” no Brasil. A Mãe Aparecida ganhou crescente reconhecimento quando os bispos decidiram transformá-la em “padroeira do Brasil”, no início do século passado. Ao mesmo tempo, pessoas e movimentos leigos continuam disseminando esta piedade. Portanto, a devoção mariana não é somente “popular”, no sentido eclesial, de que provem do laicato. Como toda realidade religiosa, é ambígua e pode ser apropriada por diferentes personagens, a serviço de muitos interesses. Alguns, santos e admiráveis. Outros, espúrios e questionáveis.

O adjetivo “popular”, aplicado à devoção, tem também sentido cultural e sociológico. Acredita-se que tais devoções sejam “populares” porque nascem e são vividas principalmente nos setores sociais empobrecidos, no campo e nos bairros da periferia das cidades. No entanto, o adjetivo é impreciso. A religiosidade de cunho devocional é promovida, vivida e difundida simultaneamente por pessoas e grupos de diferentes segmentos sociais. Há grupos de elites ricas e poderosas que promovem a oração do rosário, como também há comunidades de gente pobre, e de setores médios. Hoje, a devoção mariana está espalhada em todos os segmentos sociais. Em sentido cultural e sociológico, não é mais popular. Foi, em outros tempos.
Um trabalho a ser empreendido pelos teólogos e cientistas da religião consiste em identificar os elementos comuns e a originalidade de cada segmento eclesial (e social), quando assume, reelabora e dissemina determinada prática de piedade mariana.

Pelas razões aludidas acima, parece mais plausível utilizar somente a palavra “devoção” sem o adjetivo “popular”, quando se trata das práticas cultuais católicas que se situam no campo da piedade, fora do âmbito litúrgico. E sem dúvida, a piedade mariana é a mais expressiva.

Afonso Murad. A ser publicado em novo livro de Marialogia.