sábado, 14 de junho de 2014

Viva São Pedro, Viva Santa Maria!

Neste mês, as famílias e as comunidades se encontram em torno das festas juninas. Em várias cidades organizam-se “barraquinhas” com canjica ou mungunzá, pé-de-moleque, quentão, cocada e quentão. As crianças e os jovens dançam quadrilha, com vestes coloridas e engraçadas. Em algumas regiões ainda se oferecem quentão de vinho, pinhão cozido,  milho verde e pamonha. Isso sem falar das devoções, dos cantos e da prática de “levantar o mastro”. Que festa boa! No mês de junho lembramos-nos de Santo Antônio (dia 13), São João (dia 24) e São Pedro (dia 30). Vamos falar hoje sobre um deles: São Pedro. Você já pensou que ele e Maria, a mãe de Jesus, tem características semelhantes, e outras diferentes?

Pedro era pescador e se chamava Simão. Vivia em torno do Lago de Genesaré, que era tão grande, a ponto de ser chamado de “Mar da Galiléia”. Logo que começou sua missão, Jesus o chamou, junto com outros três companheiros de jornada (Mc 1,16-20). E eles, abandonando tudo, o seguiram. Tornaram-se “discípulos”, aprendizes do mestre Jesus, na escola da vida. Pedro tinha uma personalidade forte. Homem decidido, falava as coisas com clareza e sinceridade. Mas era lento para compreender tudo o que Jesus lhe ensinava (Lc 9,45). Certa vez, Jesus perguntou quem ele era, para além do que os outros diziam. Pedro respondeu com firmeza: “Você é o Cristo” (Mc 8,27-29)!. E Jesus o parabenizou, por ter dito isso, inspirado por Deus (Mt 16,17). O mestre logo alertou que, se as coisas continuassem como estavam, ele deveria sofrer e até ser assassinado pelas autoridades judaicas. Então, Pedro “escorregou” na fé, e não aceitou isso de forma nenhuma. Como podia o ungido de Deus passar por tamanha provação? Em resposta Jesus o censurou, mostrando que tais pensamentos não eram de Deus (Mc 8,33).
Este homem tão corajoso teve também seu momento de extrema fraqueza. Foi justamente na hora que Jesus mais precisava dele. Com medo de ser condenado, Pedro negou a Jesus três vezes. Depois se arrependeu, e desatou a chorar (Mc 14,66-72). E Pedro aprendeu com o erro. Depois da ressurreição de Jesus, ele e os outros discípulos enfrentaram as autoridades judaicas, sabendo do risco que corriam. Quando lhes proibiram de falar ou ensinar em nome de Jesus, Pedro e João responderam: “Não podemos calar a respeito daquilo que vimos e ouvimos” (At 4,21). Juntamente com Paulo, ele se tornou a principal liderança na origem da Igreja.

O caminho traçado por Maria se cruza com o de Pedro. Como ele, Maria recebeu um chamado divino e respondeu logo, com prontidão (Lc 1,28.38). Embora vivesse tão pertinho de Jesus, ela não compreendia logo tudo o que Jesus falava e fazia, como aconteceu no desencontro no Templo (Lc 2,50). Por isso mesmo, Maria conservava os fatos no coração e meditava sobre o seu sentido (Lc 2,51). Por um bom tempo, Maria foi a educadora de Jesus, junto com São José. Quando o  filho se torna adulto e começa a anunciar o Reino de Deus, Maria se faz discípula, aprendiz. Faz parte da comunidade dos seus seguidores, da qual faziam parte Pedro, os outros discípulos e algumas mulheres (At 1,14).
Mas, onde está a grande diferença em relação a Pedro? Na hora mais difícil da Cruz, Maria não fugiu. Permaneceu de pé, com o discípulo amado e outras mulheres (Jo 19,25). Perseverou na fé. Enquanto Pedro era o líder da comunidade, Maria era a mãe (Jo 19,26) e guia, que recordava aos discípulos: “Façam tudo o que ele lhes disser” (Jo 2,5)
Ambos são exemplos de vida para nós.  Pedro aprendeu com os acertos e erros e deu a volta por cima. Assim, animou e dirigiu a comunidade cristã. Maria não vacilou. Renovou constantemente o seu “sim” no correr da vida e como nossa mãe, acolhe-nos ternamente na Família de Jesus.

(Material de uso popular - Publicado na Revista de Aparecida, junho de 2014)

quinta-feira, 24 de abril de 2014

Maria e a ressurreição: da dor à alegria pascal

Lena tem um filho de 11 anos, chamado Zezinho. Faz dois anos, os médicos descobriram que o menino estava com câncer. Logo que diagnosticado, começaram o tratamento com quimioterapia e outros recursos. A criança emagreceu muito, perdeu os cabelos, ficou pálida. Parecia que ia morrer. Lena sentiu uma dor imensa, vendo o filho sofrer. Fez tudo o que podia. Rezava muito, preparava a alimentação adequada. Acompanhava-o ao hospital, quando podia.  Estava ao seu lado dando carinho e força. Felizmente, depois de muito sofrimento, Zezinho está curado. No dia do seu aniversário, Lena fez um bolo de chocolate e convidou os parentes, os vizinhos e os colegas de Zezinho. Não tinham dinheiro para fazer festa. Mas aquele simples bolo caseiro tinha o sabor de vitória da vida sobre a morte. A alegria deles foi imensa! Riam, gargalhavam, se abraçavam, cantavam e agradeciam a Deus. É assim! Quem já passou por situações extremas de dor e sofrimento, vendo a morte de perto, prova imenso contentamento quando supera esta situação.

O sofrimento e alegria de Lena nos fazem imaginar como foram intensas a dor e o contentamento de Maria, a mãe de Jesus, diante de sua missão, paixão, morte e ressurreição. No começo, foi aquela surpresa, ao ver o seu filho pregar a Boa nova do Reino de Deus, curar os doentes, acolher os marginalizados, partilhar a mesa com os pobres e pecadores. Maria, como mãe, educadora e seguidora de seu Filho, estava lá, discretamente, acompanhando tudo e aprendendo. Meditando no coração, fazendo comunidade com os outros.

Depois, veio a terrível experiência do conflito de Jesus com as autoridades religiosas e políticas de seu tempo: os escribas e fariseus, na Galiléia; o conselho do Sinédrio e Pilatos, em Jerusalém. Jesus foi condenado à morte. Desprezado pela multidão, abandonado pelos seus próprios discípulos, experimentou intenso sofrimento e solidão. Viu a morte de perto, mas dela não escapou. Teve a dolorosa e vergonhosa morte de cruz, reservada aos bandidos e aos agitadores contra o império romano. Maria acompanhou tudo. Mas, ela não podia fazer nada. Diferentemente de Lena, estava em situação de impotência. Ela acompanhou o doloroso caminho do calvário, com outras mulheres. E ao final, estava lá firme, ao pé da cruz, com Madalena e o discípulo amado. Seu gesto silencioso dizia: “Eu estou aqui, meu filho. Apesar de todo o fracasso, eu acredito em você e na causa”. Como Jesus viveu o momento mais radical da fé: crer e esperar contra toda a esperança! Na noite escura da sexta-feira da paixão, a morte venceu!

Maria e os outros seguidores de Jesus provaram por um tempo a amargo sabor do fracasso, a angústia da morte. Tudo tinha acabado! E eis que, surpreendentemente, eles provaram que Jesus está vivo! Não é um morto que foi reavivado. Mas sim o Cristo que está glorificado junto Pai. E também perto da comunidade, dando-lhe alegria, esperança e sentido para viver. Maria, as mulheres, os discípulos, todos sentem um contentamento imenso! Como Jesus já havia dito, ao pressentir a sua morte: “Vocês vão gemer e se lamentar (..), ficarão angustiados. Mas esta angústia se transformará em alegria. Quando uma mulher dá a luz, fica tão alegre que até esquece das dores de parto” (Jo 16,20-21). E assim aconteceu. Quando eles provaram Jesus ressuscitado, foram tomados de um contentamento que ninguém conseguiu tirar deles (cf. Jo 16,22).

Maria é nossa companheira na dor e na alegria, nas situações de morte e de ressurreição, no fracasso e na vitória. Na páscoa, rezemos com Maria esta nova versão da Oração da Alegria Pascal:
Maria dos Céus, alegrai-vos, aleluia.
Pois o Senhor, que concebeste em teu corpo, aleluia.
Venceu a morte e está entre nós, aleluia.
Alegrai-vos com todos os seguidores de Jesus, aleluia.
Pois ele ressuscitou verdadeiramente, aleluia.

(Publicado na Revista de Aparecida, abril de 2014)

terça-feira, 15 de abril de 2014

Mulher, eis ai o teu Filho! Eis ai a tua Mãe! (Jo 19,26)

Por causa desse Homem, o mais totalmente humano,
Tu és bendita entre todas as mulheres!
Mãe de todas as mães, doce Mãe nossa,
Por causa desse Filho, irmão de todos!
Construamos, pois, a casa, ó Mãe!
Construamos a família de todas as famílias,
de todas as nações!
Por conta dessa Carne, irmã de toda carne,
Destroçada na cruz, Hóstia do mundo.

Cansados ou perdidos,
Nós precisamos, ó Mãe, do teu aconchego,
Sombra clara de Deus em toda cruz humana,
Canção de ninar em todo sonho humano.

Queremos ser discípulos amados,
Ó Mestra do Evangelho!
Queremos ser herdeiros de Jesus,
Ó Mãe, vida da Vida!
Nessa troca de filhos,
Tu sabes bem, Maria,
Que nos ganhas a todos e não perdes o Filho
Já de retorno ao Pai,
Para esperar-nos com a casa pronta.

Poema de Dom Pedro Casaldáliga

segunda-feira, 24 de março de 2014

Anunciação na visão de pintores clássicos

Para você ver, meditar, contemplar e partilhar em comunidade as diferentes atitudes de Maria na Anunciação, retratadas por pinturas clássicas.


quarta-feira, 19 de março de 2014

Conversa com São José

São José, meu amigo.
Você  recebeu um grande presente de Deus:
conviver com sua amada Maria e educar o filho adotivo Jesus.
Quem não gostaria de fazer parte de uma família assim?
Quantas vezes vocês riram juntos, contaram casos, rezaram Salmos, partilharam o pão...
José, companheiro efetivo de Maria nas tristezas e alegrias, 
surpresas e desafios da existência.
Jesus aprendeu a ser homem e a ser filho com você.
Quando adulto, com liberdade e alteridade, Jesus pôde chamar a Deus de “Pai”.
Pode parecer pouco, mas é o essencial.
Aliás, você é o ícone do essencial. Do simples, cotidiano, sem alarde.
Consciente de seu lugar e de sua identidade,
acolhe e reverencia com humildade o Mistério.
Nós temos muito o que aprender com você!
(Afonso Murad)

sexta-feira, 14 de março de 2014

Maria na Campanha da Fraternidade

Certa vez, fui dar uma palestra numa paróquia, no início da Campanha da Fraternidade. O Doutor Alberto, senhor rico e bem vestido, advogado famoso na cidade, levantou-se e com voz arrogante falou: “Eu não gosto de Campanha da Fraternidade. Em vez de acentuar o jejum e a penitência, a Igreja fica falando de problemas sociais. Eu quero é viver a quaresma, como antigamente”.
Eu entendo o que ele disse. Alguns assuntos das Campanhas da Fraternidade são difíceis de serem traduzidas em atitudes de conversão concretas e visíveis, no cotidiano das pessoas. Os grandes temas sociais por vezes parecem tão complexos e difíceis de resolver, que a pregação da Campanha da Fraternidade pode se reduzir a um tema geral, que não atinge a vida de cada um.

O engano consiste em separar a penitência e a conversão pessoal da mudança social. Na pregação dos profetas, estas duas realidades sempre vão juntas. Na primeira sexta-feira da quaresma, lê-se na liturgia o texto de Isaías 58. O profeta começa recorda a reclamação daqueles que dizem invocar a Deus e não serem atendidos. "Por que jejuamos, e tu não viste? Por que nos humilhamos totalmente, e nem tomaste conhecimento?" Deus responde: “Acontece que, mesmo quando estão jejuando, vocês só cuidam dos próprios interesses e continuam explorando quem trabalha para vocês. O jejum que eu quero é este: acabar com as prisões injustas, desfazer as correntes do jugo, pôr em liberdade os oprimidos e despedaçar qualquer jugo; repartir a comida com quem passa fome, hospedar em sua casa os pobres sem abrigo, vestir aquele que se encontra nu, e não se fechar à sua própria gente” (Is 58,3.6-7).
A originalidade da Campanha da Fraternidade consiste justamente em acreditar que a conversão individual se faz ao mesmo tempo com mudanças culturais, sociais e políticas. Esta convicção já está presente na pregação e na prática de Jesus. No sermão da planície, em Lucas 6,20-28, o Mestre anuncia as “Bem Aventuranças”: felizes são os pobres, os famintos, os que choram, os perseguidos por causa da justiça, pois o Reino de Deus está chegando especialmente para eles. E dirige palavras duras para os gananciosos e injustos. Quando Jesus come com os pecadores e pobres, acolhe cada um deles, mas também anuncia com seu gesto que se inicia uma sociedade que supera a exclusão social e religiosa.

O cântico de Maria, a mãe de Jesus, tradicionalmente chamado de “Magnificat” (Lc 1,46-55), manifesta o mesmo espírito de conversão e mudança das Bem-Aventuranças. Maria começa proclamando a grandeza de Deus que fez nela grandes maravilhas. Mas não se detém somente na sua experiência pessoal. Ela proclama que Deus vai operar grandes mudanças na sociedade, como saciar de bens os famintos e derrubar os poderosos de seus tronos. Maria compreende que a conversão individual e as mudanças estruturais fariam parte do mesmo projeto salvador e libertador de Jesus.
Peçamos a Maria que nesta quaresma ela nos faça melhores, mais bondosos(as), desprendidos(as), livres para servir a Deus, com um coração renovado. E, ao mesmo tempo, que ela nos dê consciência crítica para nos inteirarmos de situações desumanizadoras que clamam por transformação. E a lucidez para empreender iniciativas comunitárias e sociais contra o tráfico de seres humanos, nas suas diversas formas. Assim, a quaresma nos preparará para celebrar, de maneira sempre nova, a vida, morte e ressurreição de Jesus. E neste caminho pascal, Maria vai conosco, abre nossa mente e nosso coração, aponta para Jesus e o seu Reino. Amém!
Afonso Murad
Publicado na Revista de Aparecida – Março 2014.

quinta-feira, 20 de fevereiro de 2014

René Laurentin

Uma homenagem especial ao mariólogo francês René Laurentin, figura essencial de renovação da teologia marial nos últimos 50 anos.