domingo, 22 de dezembro de 2013

Chorinho de Belém


Salve ó noite silenciosa
em que o chorinho do bebê
nascido de Maria,
como suave canto
ecoou alegremente
nos quatro cantos
da Terra.


domingo, 8 de dezembro de 2013

Prece com Maria Imaculada


Alegra-te Maria, agraciada pelo Deus da Vida (Lc 1,28), mulher cheia de graça, encantada e encantadora.

Contigo cantamos festivamente, homens e mulheres de todos os cantos da Terra, distintos hinos e canções, em muitas vozes. Ação de Graças e espera confiante na vinda do messias. Ao teu lado proclamamos a bondade e a fidelidade de Deus, que fez em ti, como também realiza em nós,  grandes maravilhas (Lc 1,49).

Como o profeta Jeremias, recordamos o projeto de Deus para a humanidade, a graça original: “Antes mesmo de ser formado no útero de tua mãe, eu te conheci e te consagrei” (Jer 1,5).

Com o apóstolo Paulo, oramos: “Bendito Seja Deus, que nos abençoou com toda sorte de bênçãos em Cristo! Ele nos escolheu antes da fundação do mundo para sermos santos e imaculados, no amor” (Ef 1,3s).

Neste dia agradecemos a Deus, pois tu és o sinal da humanidade recriada, que cultiva a inteireza, integra as pulsões e dá sentido ao todos os fragmentos da existência. Em ti, a partir de Cristo, foi superado o existencial negativo que pesa sobre os humanos (pecado original, conforme Agostinho).

Em ti reconhecemos a vitória da graça de Cristo (Rm 5,17), proclamamos a vitória do Bem sobre todas as formas de fragmentação, de falta de rumo e de iniquidade: pessoais, comunitárias e estruturais.

Salve, Imaculada, utopia realizada do sonho de Deus em relação à humanidade!

segunda-feira, 2 de dezembro de 2013

Maria na nova evangelização (2)

Da Carta Apostólica do Papa Francisco: Maria e a alegria do Evangelho

287. À Mãe do Evangelho vivente, pedimos a sua intercessão a fim de que este convite para uma nova etapa da evangelização seja acolhido por toda a comunidade eclesial. Ela é a mulher de fé, que vive e caminha na fé, e «a sua excepcional peregrinação da fé representa um ponto de referência constante para a Igreja».
Ela deixou-se conduzir pelo Espírito, através dum itinerário de fé, rumo a uma destinação feita de serviço e fecundidade. Hoje fixamos nela o olhar, para que nos ajude a anunciar a todos a mensagem de salvação e para que os novos discípulos se tornem operosos evangelizadores. Nesta peregrinação evangelizadora, não faltam as fases de aridez, de ocultação e até de certo cansaço, como as que viveu Maria nos anos de Nazaré enquanto Jesus crescia: «Este é o início do Evangelho, isto é, da boa nova, da jubilosa nova.

Não é difícil, porém, perceber naquele início um particular aperto do coração, unido a uma espécie de “noite da fé” – para usar as palavras de São João da Cruz – como que um “véu” através do qual é forçoso aproximar-se do Invisível e viver na intimidade com o mistério. Foi deste modo efetivamente que Maria, durante muitos anos, permaneceu na intimidade com o mistério do seu Filho, e avançou no seu itinerário de fé».

288. Há um estilo mariano na atividade evangelizadora da Igreja. Porque sempre que olhamos para Maria, voltamos a acreditar na força revolucionária da ternura e do afeto. Nela, vemos que a humildade e a ternura não são virtudes dos fracos, mas dos fortes, que não precisam maltratar os outros para se sentir importantes. Fixando-a, descobrimos que aquela que louvava a Deus porque «derrubou os poderosos de seus tronos» e «aos ricos despediu de mãos vazias» (Lc 1,52.53) é mesma que assegura o aconchego dum lar à nossa busca de justiça.

E é a mesma também que conserva cuidadosamente «todas estas coisas ponderando-as no seu coração» (Lc 2,19). Maria sabe reconhecer os vestígios do Espírito de Deus tanto nos grandes acontecimentos como naqueles que parecem imperceptíveis. É contemplativa do mistério de Deus no mundo, na história e na vida diária de cada um e de todos. É a mulher orante e trabalhadora em Nazaré, mas é também nossa Senhora da prontidão, a que sai «à pressa» (Lc 1,39) da sua povoação para ir ajudar os outros.

Esta dinâmica de justiça e ternura, de contemplação e de caminho para os outros faz dela um modelo eclesial para a evangelização. Pedimos que ela nos ajude, com a sua oração materna, para que a Igreja se torne uma casa para muitos, uma mãe para todos os povos, e torne possível o nascimento dum mundo novo.

Maria na nova evangelização (1)

Da Carta Apostólica do Papa Francisco: Maria e a alegria do Evangelho

(284) Juntamente com o Espírito Santo, sempre está Maria no meio do povo. Ela reunia os discípulos para o invocarem (At 1, 14), e assim tornou possível a explosão missionária que se deu no Pentecostes. Ela é a Mãe da Igreja evangelizadora e, sem Ela, não podemos compreender cabalmente o espírito da nova evangelização.

(285) Na cruz, quando Cristo suportava em sua carne o dramático encontro entre o pecado do mundo e a misericórdia divina, pôde ver a seus pés a presença consoladora da mãe e do amigo. Naquele momento crucial, antes de declarar consumada a obra que o Pai lhe havia confiado, Jesus disse a Maria: «Mulher, eis o teu filho!» E, logo a seguir, disse ao amigo bem-amado: «Eis a tua mãe!» (Jo 19, 26-27). 
Estas palavras de Jesus, no limiar da morte, não exprimem primariamente uma terna preocupação por sua Mãe; mas são, antes, uma fórmula de revelação que manifesta o mistério duma missão salvífica especial. Jesus deixava-nos a sua Mãe como nossa Mãe. E só depois de fazer isto é que Jesus pôde sentir que «tudo se consumara» (Jo 19, 28).
Ao pé da cruz, na hora suprema da nova criação, Cristo conduz-nos a Maria; conduz-nos a Ela, porque não quer que caminhemos sem uma mãe; e, nesta imagem materna, o povo lê todos os mistérios do Evangelho. Não é do agrado do Senhor que falte à sua Igreja o ícone feminino. Ela, que o gerou com tanta fé, também acompanha «o resto da sua descendência, isto é, os que observam os mandamentos de Deus e guardam o testemunho de Jesus» (Ap 12, 17). 

Esta ligação íntima entre Maria, a Igreja e cada fiel, enquanto de maneira diversa geram Cristo, foi maravilhosamente expressa pelo Beato Isaac da Estrela: Nas Escrituras divinamente inspiradas, o que se atribui em geral à Igreja, Virgem e Mãe, aplica-se em especial à Virgem Maria (...). Além disso, cada alma fiel é igualmente, a seu modo, esposa do Verbo de Deus, mãe de Cristo, filha e irmã, virgem e mãe fecunda. (...) No tabernáculo do ventre de Maria, Cristo habitou durante nove meses; no tabernáculo da fé da Igreja, permanecerá até ao fim do mundo; no conhecimento e amor da alma fiel habitará pelos séculos dos séculos.

(286) Maria é aquela que sabe transformar um curral de animais na casa de Jesus, com uns pobres paninhos e uma montanha de ternura. Ela é a serva humilde do Pai, que transborda de alegria no louvor. É a amiga sempre solícita para que não falte o vinho na nossa vida. É aquela que tem o coração trespassado pela espada, que compreende todas as penas. Como Mãe de todos, é sinal de esperança para os povos que sofrem as dores do parto até que germine a justiça.
Ela é a missionária que se aproxima de nós, para nos acompanhar ao longo da vida, abrindo os corações à fé com o seu afeto materno. Como uma verdadeira mãe, caminha conosco, luta conosco e aproxima-nos incessantemente do amor de Deus. Através dos diferentes títulos marianos, geralmente ligados aos santuários, compartilha as vicissitudes de cada povo que recebeu o Evangelho e entra a formar parte da sua identidade histórica (..).

sexta-feira, 4 de outubro de 2013

Maria no diálogo ecumênico internacional (introdução)

Marcial Maçaneiro

Há quarenta anos o diálogo ecumênico internacional tem acolhido Maria como tema de sua agenda teológica. O que poderia ser, aparentemente, um tema-limite se tornou oportunidade de encontro, estudo e aprimoramento de nossas compreensões sobre a redenção e a graça, Cristo e a Igreja. Isto se verificou especialmente no diálogo católico-reformado e católico-evangélico, em geral, já que as Igrejas do Oriente (armênia, copta, antioquena, assíria e greco-ortodoxa) reconhecem conosco o ministério específico da Mãe de Jesus e a veneram liturgicamente.

A teologia católica e o magistério eclesial sabem que há enfoques biblicamente coerentes para a mariologia, dentro das coordenadas dogmáticas da Teologia da Graça, da Soteriologia e da Eclesiologia. Isto, tendo por centro a pessoa e o mistério de Jesus Cristo – autor da graça, redentor universal e único mediador entre Deus e a humanidade (cf. 1Tm 2,4-5; Hb 12,2.24). Situar Maria dentro dessas coordenadas é garantir-lhe o justo lugar, ajudando não só os evangélicos – mas também os católicos – a compreenderem o papel de Maria no plano de Deus, como primeira dentre os remidos do Novo Testamento e discípulo fiel do próprio filho Jesus.

Importa recordar especialmente que, para a doutrina católica, Maria não é uma personagem biográfica, mas sim uma figura protológica: a teologia e a liturgia não vêem Maria do ponto de vista histórico-factual, com base na sua suposta biografia e trajeto individual; mas a contemplam do ponto de vista histórico-salvífico, com base na sua exemplaridade de serva e discípula, enquanto typos, ícone ou figura exemplar da própria Igreja. Isto se verifica nas narrativas bíblicas em que Maria representa a comunidade crente, fiel e discipular, expressando em sua pessoa as atitudes exemplares de fé, esperança e caridade. Não estamos, portanto, diante de um dado biográfico, mirando a uma mulher heróica de infinitos méritos, mas sim diante de uma figura protológica em quem se antevê a plenitude da graça: Maria anuncia, desde seu lugar no plano da salvação, o operar salvador de Deus para toda a humanidade, a começar da comunidade dos discípulos – onde ela mesma se insere (cf. Mc 3,33-35; At 1,14).

É nesta perspectiva que se fundamenta a dogmática católica, que vai traduzir os grandes momentos de nossa salvação como eventos já realizados – pela graça de Cristo – na pessoa desta mulher que foi sua mãe e também discípula. Semelhantes a ela, também nós fomos lavados na mácula original pelas águas do Batismo (1Cor 6,11; Ef 1,4; Tt 3,5: imaculados); também nós fomos elevados pela graça e um dia seremos plenamente assumidos na glória de Deus (Mt 25,31-34; Jo 14,2-3 At 7,55-56; Col 3,4: assuntos na glória). Nela a Igreja vê seu próprio rosto, em luz escatológica, como num ícone excelente: serva, discípula e mãe são qualidades da Igreja, exemplarmente percebidas em Maria (cf. Lc 1,38; Jo 2,5; Jo 19,27) (...)

Reconhecer Maria biblicamente como protologia (figura exemplar) da Igreja é fundamental para nossa compreensão de sua pessoa e de seu duplo ministério no plano de Deus, como mãe do Redentor e, em seguida, sua discípula. “Grande por ter sido a mãe de Jesus; maior ainda por ter se tornado discípula do próprio filho” – dizia Agostinho. Seja na Bíblia, seja na liturgia, Maria está sempre referida a Jesus, como lua voltada para o sol, de quem recebe luz e a partir de quem a reflete. Esta é abordagem da Lumen Gentium, da encíclica Marialis cultus e do Documento de Aparecida.

Inclusive os dogmas marianos – com sua linguagem litúrgica inspirada na teologia da graça – são todos referidos soteriologicamente a Jesus. Cada dito sobre Maria preserva uma verdade sobre o Verbo Encarnado, de quem ela foi mãe, sem deixar de ser a primeira servidora (cf. Lc 1,38.48). Quando lemos os dogmas marianos referidos unicamente a Maria, caímos no equívoco de interpretá-los de modo excludente, como se Maria fosse sua chave de leitura suficiente. Em vez disso, devemos ler os dogmas marianos com referência a Jesus (sua pessoa e mistério): então descobrimos que neles se inclui a humanidade redimida, pois sua chave de leitura é a obra universal da graça, que Jesus consumou no mistério pascal.

A falta desta compreensão – além de problematizar a devoção mariana em geral – acarreta olhares limitados sobre a pessoa de Maria, incapazes de perceber sua conexão com o mistério da salvação realizado por Jesus Cristo. É daí que surgem equívocos e incoerências, altamente complicadores para a catequese, o culto e a devoção popular. Por outro lado, olhar Maria sob a luz de Cristo – como figura exemplar da Igreja, em quem já se realiza a plenitude escatológica da graça – nos aproxima das narrativas bíblicas, esclarece o sentido pascal das celebrações marianas e confere coerência doutrinal à devoção das comunidades.

Logo, podemos afirmar que a compreensão bíblica e soteriológica de Maria – sempre referida ao filho Jesus – não só favorece a unidade dos cristãos com relação à Mãe do Senhor, como esclarece aos próprios católicos o ministério desta mulher no plano de Deus e seu lugar singular na fé da Igreja. Afinal, antes de ser considerada uma “santa católica”, Maria é acima de tudo uma “mulher evangélica” – no sentido pleno no termo.

segunda-feira, 9 de setembro de 2013

Maria a partir do Vaticano II

Afonso Murad - Publicado na Revista Convergência, Maio 2013, XLVIII, Nº 461; ISSN 0010-8162; páginas 265-272

Maria é uma pessoa especial, a quem reconhecemos como Mãe de Jesus e nossa Mãe na fé. Nela vemos os traços da perfeita seguidora de Jesus. Para Maria dirigimos nossa oração com afeto; a ela recorremos em muitos momentos da vida. A partir da existência cristã, situada no mundo contemporâneo, se colocam várias perguntas diante da relação filial e devocional para a mãe de Jesus: qual é o limite da devoção mariana? Como ela se associa à centralidade de Jesus? Qual é o lugar de Maria no culto cristão? Existem pontos comuns entre a visão católica de Maria e a de outras Igrejas cristãs?
Examinaremos como o Concílio Vaticano II abordou estas questões, no Capítulo 8 da Constituição Dogmática Lumen Gentium. Tal visão sobre Maria foi fruto de longo processo de diálogo, discussão, reflexão, oração, concessões entre as correntes em conflito, até alcançar consenso. Por que tanta dificuldade? Durante muitos séculos a Igreja católica enalteceu de tal forma a pessoa de Maria, que se perdeu o necessário equilíbrio com a figura de Jesus. Maria foi elevada ao máximo. Esta era a idéia reinante: quanto mais se falasse de Maria e se exaltasse os seus privilégios, o que ela tem a mais do que nós, melhor seria. Tratava-se do “maximalista”. Em reação a tal tendência, o Concilio quis recolocar Maria no seu lugar. Nem mais, nem menos. O lugar legítimo que ela merece.

1.    Capítulo 8 da Lumen Gentium
Em primeiro lugar, vale recordar, o Concílio rejeitou a proposta de fazer um documento exclusivo sobre a mãe de Jesus. Preferiu inserir Maria “no mistério de Cristo e da Igreja”. Esta é a grande chave de interpretação do Vaticano II. Maria não é considerada de maneira isolada, como a santa poderosa, a rainha e a intercessora infalível, mas sim no contexto da História da Salvação, em relação a Jesus e como referência para a comunidade de seus seguidores e seguidoras. O documento Conciliar apresenta o seguinte esquema:
1. Introdução (52-54)
2. A missão de Maria na História da salvação (55-59)
3. Maria e a Igreja (60-65)
4. O culto a Maria na Igreja (66-67)
5. Conclusão: Maria, sinal de esperança para o Povo de Deus peregrino (68-69).

Na introdução, diz-se que o Concílio não propõe a doutrina completa sobre Maria, nem quer resolver as questões ainda não trazidas à plena luz pelo trabalho dos teólogos (LG 54). Evitam-se títulos exagerados ou controversos. Os Padres Conciliares reconhecem Maria como “Mãe dos membros de Cristo, porque cooperou pela caridade para que na Igreja nascessem os fiéis que são membros desta Cabeça” (LG 53). Situam Maria na Comunhão dos Santos, e não de forma isolada. Ela “ocupa na Igreja o lugar mais alto depois de Cristo e o mais perto de nós” (LG 54). Aqui reside uma das pérolas da visão conciliar. Diríamos em linguagem afetiva: “Maria está tão perto de Deus quanto está pertinho de nós”. O fato de ser glorificada não significa que ela tenha se distanciado de nós, ao contrário.

Vejamos agora as principais afirmações da primeira parte do documento. Aqui o Concílio apresenta Maria a partir da Bíblia, sua missão na História da Salvação. O Capítulo 8 da Lumen Gentium é original pela forma como resgata a contribuição da Teologia Bíblica, que não era considerada no discurso sobre Maria nos últimos séculos. Aliás, nem havia teologia bíblica ainda. Rejeitaram-se os exageros da apologética mariana, que usava citações bíblicas de forma alegórica e fora de seu contexto, simplesmente para ilustrar o que já se afirmava antes. Optou-se por uma visão sistêmica, a partir da História da Salvação. Assim, diz-se que no Antigo Testamento, Maria é “profeticamente esboçada como a mulher que vence a serpente, a Virgem mãe do Emanuel, uma dos pobres de Javé e a Filha de Sião” (LG 55).
Ao trazer à luz os textos dos Evangelhos sobre a Mãe de Jesus, o concílio traça um perfil dinâmico de Maria. Afirma que na Anunciação, Maria não é um instrumento meramente passivo, mas cooperou para a salvação humana com livre fé e obediência (LG 56). A união entre Mãe e Filho na obra da salvação é um processo, que se estende da concepção virginal até a morte de Cristo (LG 57).
A grande novidade, depois de tantos séculos de exaltação a Maria, como a santa prontinha, acabada e perfeita desde o nascimento, reside nesta afirmação: No ministério público de Jesus, Maria avançou em peregrinação de fé, de Caná até a cruz (LG 58).
O documento conciliar encerra suas considerações sobre Maria na Bíblia e dá um salto para a linguagem devocional e dogmática: Em Pentecostes e na Assunção, para que mais plenamente estivesse conforme o seu Filho, foi exaltada como Rainha do Universo (LG 59).

A terceira parte do documento aborda a relação de Maria com Jesus e a Igreja. O Concílio Vaticano II responde com clareza a esta pergunta dogmático-pastoral: Se Jesus é o único mediador entre Deus e a humanidade, como compreender então a intercessão dos santos e especialmente a de Maria?  Conforme o documento conciliar, Cristo é o único mediador. A missão materna de Maria não diminui a mediação única de Cristo, mas mostra a sua potência. Não se origina de uma necessidade interna, mas do dom de Deus. Não impede, mas favorece a união dos fiéis com Cristo (LG 60). Nenhuma criatura jamais pode ser colocada no mesmo plano do Verbo encarnado e redentor. Mas o sacerdócio de Cristo é participado de vários modos pelo povo de Deus e a bondade de Deus é difundida nas criaturas. A única mediação do Redentor suscita nas criaturas uma variada cooperação, que participa de uma única fonte (LG 62). O concílio reconhece a legitimidade de recorrer à intercessão de Maria, pois se trata de cooperação na única mediação de Cristo. Não se utiliza a expressão “medianeira”, que é ambígua e pode ser maximalista.

Com isso, se passa à quarta parte do documento conciliar sobre a Mãe de Jesus, que trata da legitimidade e dos limites do culto a Maria na Igreja. Conforme o Capítulo 8 da Lumen Gentium, a colaboração de Maria não está no mesmo plano da missão redentora de Jesus. Situa-se em função desta missão e dela depende incondicionalmente. O culto a Maria é singular, diferindo e se orientando para o culto à Trindade (LG 66). Assim se resume a visão equilibrada e sábia do Vaticano II:
Recomenda-se o culto à Maria, evitando tantos os exageros quanto a demasiada estreiteza de espírito. A verdadeira devoção à Maria não consiste num estéril e transitório afeto, nem numa vã credulidade, mas no reconhecimento da figura de Maria e no seguimento de suas virtudes” (LG 67).
No que diz respeito à relação de Maria com a Igreja, o Concílio mostra que ela é membro, símbolo e mãe da Igreja, a partir de sua relação ímpar com Jesus. Não se trata somente da maternidade. Maria é mãe, companheira e serva do Senhor, tornando-se assim para nós mãe, na ordem da graça (LG 61). Devido à sua maternidade, à união de missão com Cristo e às suas singulares graças e funções, Maria está também intimamente relacionada com a Igreja (LG 63). Como Maria, a Igreja é mãe e virgem: gera novos filhos pelo batismo, guarda a palavra dada ao Esposo, vive na fé, esperança e caridade (LG 64).

A Lumen Gentium, Constituição Dogmática do Vaticano II sobre a Igreja, encerra-se com uma bela imagem acerca de Maria, sinal para o Povo de Deus peregrino. Distanciando-se do discurso triunfalista dos privilégios marianos, apresenta a Mãe de Jesus como figura realizada do cristão e da Igreja:
Maria assunta ao Céu é a imagem e o começo da Igreja como deverá ser consumada no tempo futuro. Assim também brilha aqui na terra como sinal de esperança segura e do conforto para o povo de Deus em peregrinação, até que chegue o dia do Senhor (LG 68).

2.      A contribuição do Concílio para uma visão atual sobre Maria
Sintetizemos em breves frases a contribuição do Vaticano II para uma visão atual acerca de Maria.
- Apresenta a Mãe de Jesus não de maneira isolada, mas sim em interdependência com Cristo e a comunidade de seus seguidores, a Igreja.
- Traz nova luz para os dogmas marianos e o culto a Maria, a partir da História da Salvação e da teologia bíblica.
- Mostra que é possível e necessário elaborar o discurso mariano de maneira equilibrada, lúcida e contemporânea, que evite a lógica exclusiva dos “privilégios de Maria”.
- Não encerra a reflexão sobre Maria num tratado fechado e nem pretende responder a tudo. Antes, estimula os teólogos(as) a continuar seus estudos, para esclarecer e aprofundar os temas em fase de maturação (cf. LG 54). A partir do espírito do Concílio, os teólogos e teólogas não são considerados como meros repetidores do magistério da Igreja. Em comunhão com a Bíblia, a Tradição, o magistério e os Sinais dos Tempos, eles(as) tem a missão de contribuir para o avanço da teologia mariana na Igreja.
- A reflexão sobre Maria articula-se principalmente com textos bíblicos e patrísticos. Não há referências explícitas aos tradicionais tratados de devoção a Maria dos últimos cinco séculos, em grande parte marcados pelo maximalismo (exagero mariano).
- Ignoram-se as mensagens de videntes e de aparições.  Simplesmente, não se fala delas, pois apresentam caráter devocional e não dogmático.
- O documento amplia as características bíblico-teológicas de Maria. Nos últimos séculos, seu perfil ficou restrito praticamente a três elementos: o sim da anunciação, a maternidade biológica, a união com o filho no momento da cruz. O Concílio descortina outras características, tais como: companheira e servidora de Jesus (LG 61), mulher que avança em peregrinação na fé, de Caná até a cruz (LG 58).
- Põe as bases teológicas necessárias para superar a ambiguidade de títulos marianos como “medianeira” e “corredentora”. Sem meias palavras, reafirma-se o dado bíblico central: “Jesus é o único mediador”. Maria e os Santos cooperam na missão salvífica de Jesus. Tal cooperação não os colocam no mesmo nível de Jesus.
- Aponta as múltiplas e complementares formas de relação de Maria com a comunidade dos seguidores de Jesus. Maria é simultaneamente membro, mãe e protótipo da Igreja.
- O Concílio alerta sobre os equívocos dos extremos do minimalismo (subtrair a presença de Maria do cotidiano dos católicos) e do maximalismo (devocionismo que se afasta da centralidade de Jesus). Nem toda forma de devoção mariana é saudável. Critica-se o afeto estéril e transitório e a vã credulidade. Valoriza-se conhecer e inspirar-se nos traços do perfil bíblico-espiritual de Maria.

Conclusões abertas
A reflexão sobre Maria avançou muito nos últimos anos. Felizmente, o quadro é tão amplo e enriquecedor, que merece, no mínimo, outro artigo. Do ponto de vista do magistério da Igreja, destaca-se a ousada posição de Paulo VI na “Marialis Cultus”. Em nosso continente, ganham expressão as afirmações dos Documentos de Puebla e de Aparecida. Teólogos e teólogas redescobrem o rosto bíblico de Maria a partir dos Evangelhos de Lucas e de João: perfeita discípula de Jesus, peregrina na fé, sinal da opção preferencial pelos pobres, mulher, mãe da comunidade, perseverante na fé até a cruz. Na pastoral, incentiva-se a percorrer o caminho humano de Maria, em consonância com Jesus, que é O caminho. Percebe-se que a Maria glorificada é a mulher de Nazaré, caminhante da fé, conosco.
Tais descobertas, tão importantes, incitam os religiosos(as), os leigos(as) e os presbíteros a manterem o equilíbrio na devoção mariana e a cultivar a centralidade de Jesus na vida de fé. Tal postura exige, em muitos casos, denunciar o equívoco de devoções exageradas, que atentam até contra o bom senso. E, principalmente, propor expressões cultuais de acordo com o espírito do Concílio. Para as congregações que cultivam devoções marianas tradicionais, é necessário discernir os elementos originais daqueles que foram expressão de uma época já passada e perderam significado. A devoção mariana é boa e saudável, se considera devidamente a Maria dentro do mistério de Cristo e da Igreja, como anunciou o Concílio. Que tenhamos a lucidez de realizar as mudanças necessárias e superar um devocionismo “vão e estéril”, como diz o texto conciliar.
A grande virada consiste em voltar à Maria dos Evangelhos. E, a partir daí, dosar a intensidade e reelaborar as expressões devocionais, que agora devem estar marcadas por uma espiritualidade encarnada e trinitária.
Certa vez me pediram para atualizar a Salve Rainha, uma oração bonita, mas com elementos teológicos anacrônicos. Partilho com você, caro leitor(a), esta prece transformada em canto, com a melodia do Padre Joãozinho, na esperança de estimular iniciativas similares.

Salve Rainha
Mãe, educadora, seguidora de Jesus
filha querida do Deus misericórdia
Sinal humano da Trindade:
Vida, doçura e esperança nossa, salve.
A ti clamamos,
os filhos da Terra.
Contigo nos alegramos nas conquistas do Amor,
E suspiramos, gemendo e chorando nos momentos de dor.
Volta o teu olhar para nós os filhos teus
E mostra-nos Jesus
O Filho de Deus!

Amém!

domingo, 18 de agosto de 2013

O que é mariologia?

Certa vez, um estudante de teologia entrou numa grande livraria católica em busca de bibliografia atualizada sobre Maria. Perguntou ao atendente: “Onde estão os livros de mariologia?”. O funcionário da loja ficou um pouco assustado com a pergunta. Imediatamente se refez da surpresa, e disse: “Ah, livros sobre Nossa Senhora... Temos vários!”. E apresentou uma estante repleta de caderninhos, livretos e livros nos quais estavam expostos novenas, ladainhas, terço em família e tantas outras devoções. O cliente insistiu: “Mas eu quero livros de mariologia!”. “Eles estão aí e lhe garanto que são muito bons! Todo dia tem gente que vem comprar!”.

Este simples fato elucida algo comum nos meios católicos. Confunde-se facilmente o estudo sobre Maria, esta disciplina da teologia denominada mariologia ou marialogia, com a devoção mariana. Ambas são legítimas, mas comportam formas diferentes de se aproximar da mãe de Jesus. A devoção compreende a relação de entrega, confiança, súplica, discernimento, gratidão e louvor a Deus e aos santos. Está no âmbito da religiosidade, das práticas cultuais. Expressa a dimensão mística e culturalmente situada da crença. Já a mariologia exercita outra dimensão da fé: o conhecimento. Pois quem ama, quer conhecer o outro(a) para ama-lo(a) melhor e construir uma relação lúcida e madura. A piedade mariana sem teologia corre o risco de perder a lucidez, mover-se sem critérios e limites e degenerar-se em crendice. Já a teologia sem mística e piedade se degenera num discurso racional que se distancia do fascínio divino. Mostra-se desrespeitosa e pastoralmente inconsequente.

A reflexão teológica sobre Maria, que denominamos mariologia ou marialogia, é simultaneamente sistemática e crítica, pois organiza as informações, apresenta e justifica a compreensão católica sobre a mãe de Jesus, ao mesmo tempo em que corrige os eventuais desvios, aponta para as limitações históricas e propõe novas interpretações, que sejam fiéis à Bíblia, à Tradição viva de Igreja e à atualidade. A marialogia conjuga razão e emoção, aceitação amorosa e busca. Reverencia a mãe de Jesus, reconhecendo seu lugar especial. Mas também ousa pensar, questionar, refletir, ponderar e propor alternativas visando uma fé madura.

Do ponto de vista do contéudo, a marialogia pode se dividida ao menos em três segmentos. O primeiro aborda Maria na Bíblia. Mostra quem é Maria de Nazaré, enquanto figura histórica e simbólica da comunidade cristã das origens e reflete sobre seu significado para os dias de hoje. O segundo segmento trata do culto a Maria na Igreja, compreendendo a liturgia e a devoção. O terceiro estuda os quatro dogmas marianos: maternidade divina, virgindade, imaculada e assunção e os explica em linguagem compreensível. Resumidamente, a mariologia estuda sobre a pessoa de Maria com o tríplice olhar da bíblia, do culto e do dogma. Procura assim responder à pergunta: Qual é o lugar e a importância de Maria no projeto salvífico de Deus, iniciado na criação; mediado na vida, morte e ressurreição de Jesus Cristo e continuado pela ação do Espírito Santo na história?

Há ainda outras abordagens sobre Maria. Pode-se fazer a leitura histórico-eclesial, que contempla como a comunidade cristã compreendeu sua figura no correr dos tempos. Com a ajuda das ciências da religião, faz-se uma análise das diferentes visões sobre a mãe de Jesus em diversos cenários religiosos e sócio-culturais, tanto no sincretismo religioso tradicional quanto nas formas fragmentárias da religiosidade pós-moderna. É possível também estudar a espiritualidade mariana, apresentando Maria como modelo de vida para os cristãos e a Igreja. Ou ainda perceber como Maria é vista em diferentes correntes teológicas cristãs atuais, como a teologia das religiões, a teologia da libertação, a teologia de gênero, a teologia indígena e negra etc.
Tal diversidade de temas e perspectivas sinaliza que a mariologia, como reflexão acerca do papel de Maria na História da Salvação, está viva e tem um belo caminho a percorrer.

Fonte: Afonso Murad, in: UMBRASIL (org.), Maria no coração da Igreja. Múltiplos olhares sobre a Mariologia. Paulinas, 2011, p.7-9