Salve Rainha
Mãe, educadora e discípula de Jesus
filha querida do Deus misericórdia.
Sinal humano da Trindade:
Vida, doçura e esperança.
A ti clamamos,
homens e mulheres filhos da Terra.
Contigo nos alegramos nas conquistas do Bem,
Contigo suspiramos, chorando nos momentos de dor.
Volta seu olhar para nós.
Mostre-nos Jesus, o bendito fruto do teu ventre.
Roga por nós, santa mãe do Filho de Deus encarnado,
Jesus nosso mestre e Senhor.
Amém!
Oração: Ir. Afonso Murad
Imagem: Imaculada - Rubens (detalhe)
quinta-feira, 11 de novembro de 2010
terça-feira, 2 de novembro de 2010
Salve Rainha para nossos dias
Você já deve ter percebido que a oração da "Salve Rainha" tem muitas expressões que já perderam o sentido para o homem e a mulher do nosso tempo. Esta oração, de origem medieval, expressa uma visão pessimista. Denomina os seres humanos como "degredados filhos de Eva". Vê o mundo somente como "vale de lágrimas". E sem contar que não faz referência a Deus Pai e ao Espírito Santo. Jesus aparece somente no final, e não no centro da oração
Hoje recebi um bilhetinho verde intitulado "Salve Rainha para o Século XXI", de atoria do Ir. Glauco Vilhena.
A partir de sua bela oração, arrisco, sem pretensões, uma Salve Rainha atualizada: referida ao Deus trindade, com um visão mais positiva sobre o mundo e nós.
Se você gostou, reze com ela e a divulgue.
Salve Rainha, Filha predileta de Deus Pai,
Mãe e educadora de Jesus, e Templo do Espírito Santo.
A vós suplicamos, desta terra abençoada,
em que Deus nos colocou
para realizar a obra de sua glória.
Guiai-nos, confortai-nos e protegei-nos.
Ajudai-nos a encontrar a verdadeira alegria e a felicidade,
tornando Jesus conhecido, amado e seguido,
no serviço aos irmãos e irmãs,
e no cuidado com o nosso planeta.
E assim, caminhando com o vosso olhar materno,
conduzi-nos até o encontro definitivo com Deus.
Amém.
Hoje recebi um bilhetinho verde intitulado "Salve Rainha para o Século XXI", de atoria do Ir. Glauco Vilhena.
A partir de sua bela oração, arrisco, sem pretensões, uma Salve Rainha atualizada: referida ao Deus trindade, com um visão mais positiva sobre o mundo e nós.
Se você gostou, reze com ela e a divulgue.
Salve Rainha, Filha predileta de Deus Pai,
Mãe e educadora de Jesus, e Templo do Espírito Santo.
A vós suplicamos, desta terra abençoada,
em que Deus nos colocou
para realizar a obra de sua glória.
Guiai-nos, confortai-nos e protegei-nos.
Ajudai-nos a encontrar a verdadeira alegria e a felicidade,
tornando Jesus conhecido, amado e seguido,
no serviço aos irmãos e irmãs,
e no cuidado com o nosso planeta.
E assim, caminhando com o vosso olhar materno,
conduzi-nos até o encontro definitivo com Deus.
Amém.
domingo, 24 de outubro de 2010
Quando a devoção faz mal
Certa vez, tive uma afta na boca. Recomendaram-me que aplicasse tintura de própolis, diluída em 70% de água. Não entendi a razão. Pensei comigo: se é bom, porque diluir? Felizmente, descobri a resposta antes de usar o remédio. Se utilizasse o concentrado, a tintura queimaria a minha mucosa bucal, em vez de curá-la. Guardei esta lição prática: até o bom remédio, natural, com poucas contra-indicações, deve ser usado com equilíbrio, na medida certa. Caso contrário, provoca mais malefício do que cura.Este princípio tão simples vale também para a devoção. Nós, católicos, reconhecemos que as práticas devocionais são boas, pois nos levam a viver em sintonia com Deus e a seguir Jesus intensamente. No entanto, todo exagero faz mal. É como o bom remédio, fora da medida adequada: pode destruir em vez de curar.
Atualmente, presenciamos um exagero de devoção no catolicismo. Em alguns casos, o remédio se parece com uma doença. Simplesmente, porque não há limites. E tudo que se faz sem critérios e limites, corre o sério risco de decair em extremismos. No campo religioso, isso se manifesta na intolerância e na miopia espiritual. As pessoas passam a condenar a todos o que não pensam como elas e são incapazes de se auto-criticarem. Mesmo que estejam recheadas de boas intenções.
Há alguns dias recebi um canto sobre Maria. Para quem está mergulhado neste excesso de piedade, parece sublime, belo, perfeito. Intitula-se: “A primeira que comungou”. Veja:
A primeira que comungou foi a Virgem MariaA primeira que recebeu Jesus no coração
A primeira que anunciou foi a Virgem Maria
A quem gerou na fé o profeta que de Isabel nasceu.
Foi por ela que aconteceu a primeira adoração
E quando os magos a encontraram
Houve a primeira grande exposição.
Mãe capela do santíssimo sacrário do amor
Expõe para nós teu filho
Mãe capela da santíssima morada do senhor
Expõe para nós teu filho
Primeiro ostensório do Senhor.
O Concílio Vaticano II, ao promover uma grande renovação da Igreja, pediu que voltássemos à fonte do Evangelho e das primeiras comunidades cristãs. No capítulo 8 do documento sobre a Igreja, intitulado “Lumen Gentium”, apresenta a figura de Maria na dosagem saudável. Diz que Maria deve ser compreendida em relação a Cristo e à Igreja. A partir dessa orientação, confirmada anos mais tarde por um lúcido documento do Papa Paulo VI sobre o Culto a Maria (Marialis Cultus), se busca uma devoção mariana equilibrada, bem dosada.
Infelizmente, não é o que se vê na música acima. O uso exagerado da analogia, ultrapassando o bom senso, leva a afirmações que não são corretas. “Comungar”, no sentido de participar da ceia do Senhor e receber seu corpo e sangue, aconteceu em primeiro lugar com os discípulos de Jesus, antes de sua paixão. Se Maria esteve lá, também tomou parte deste momento que resume a vida, morte e ressurreição de Jesus. Mas dizer que ela foi a primeira que comungou extrapola o bom senso e não retrata o que aconteceu.
Devemos usar com cuidado as analogias ou as figuras de linguagem, para não dizer coisas ambíguas, que escandalizam outros cristãos, inclusive os próprios católicos. Não seria uma imagem inadequada e anacrônica (fora do nosso tempo), dizer que Maria é o primeiro ostensório? Tal afirmação não tem base bíblica e nem raízes nos Pais e mães da Igreja dos primeiros séculos.
A linguagem devocional, quando usada sem limites ou critérios de verificação, acaba produzindo um fenômeno parecido com os termos esotéricos: só pode ser compreendida por quem está dentro do movimento dos iniciados. Aos outros, soa como algo estranho ou sem sentido. Para quem está mergulhado num devocionismo, não há limites em usar as figuras de linguagem. E aqui está o grande problema. Lentamente, Maria se torna mais importante do que Jesus. E o Jesus da devoção também está distante do nosso mestre e Senhor, apresentado nos Evangelhos.
A devoção exagerada não cura. Ao contrário, lentamente leva a terríveis desvios.
Maria merece nosso respeito. A devoção a ela é legítima. Mas não pode extrapolar o bom senso. Cultivemos a lucidez!
Maria e Jesus agradecem... A humanidade também.
Ir. Afonso Murad
quinta-feira, 14 de outubro de 2010
Maria e a política
Texto do Padre Zezinho, SCJ

Não consta que Maria fosse uma jovem triste nem que cantava ou dançava. Provavelmente, se comportou como as jovens judias de seu tempo. Aliás, sabe-se tão pouco sobre ela que corremos dois riscos: idealiza-la perfeita demais, incapaz de rir ou brincar; ou como a jovem dedicada somente à oração. É verdade que, por seu chamado especial, foi diferente das demais mulheres. Afinal, não é sempre que se concebe um filho em suas condições. Mas foi igual às outras no aspecto mais comum da feminilidade e no seu modo bonito de ser mulher. Até aposto que ria, cantava e dançava. O Evangelho traz alguma coisa a respeito.
Lucas diz (cap. 1, 39-56) que ela acompanhou os últimos três meses de gravidez da já idosa Isabel e a intimidade do parentesco as fez cúmplices do mistério que as envolvia. Quem não crê achará inverossímil Isabel e Zacarias terem um filho especial e Maria ter um filho de Deus. Mas é como diz Isabel: “Feliz aquela que acreditou”. Maria foi ajudar Isabel, que, no dia do encontro, demonstrou saber do importante segredo da sua parenta. Maria não se conteve: agora poderia repartir sua alegria de poder ser mãe tão especial, já que os outros a achariam louca e pretensiosa. E ali mesmo, segundo Lucas, ela improvisou um canto, a partir do cântico de Ana, mãe de Samuel (1 Sm. 2, 1-10), e de outros que conhecia. Quem meditava as coisas de Deus e as guardava no coração (cf. Lc. 2, 19) era muito bem capaz de improvisar uma oração, como a rezada por Maria diante de Isabel. Maria cantou um pouco do livro do Deuteronômio, de Samuel, de Isaías e dos Salmos 111, 107, 103, 98 e 89.
O canto de Maria tem força teológica. Fala de um Deus misericordioso que pensa em todos os homens e mulheres, chama a todos, mas dá tarefas e missões especiais a alguns, sem, com isso, amar de maneira limitada; de um Deus justo que defende os pequenos e oprimidos, tira o poder da mão dos injustos e, um dia, dá chance aos pobres e pequenos, enquanto mostra, a quem tem tudo, a experiência de não ter. Teria sido também um canto político, improvisado por uma jovenzinha desinformada? Ou cheio de fé, ensaiado por alguém inspirado nas lutas e no sofrimento de seu povo? Se Maria cantou, então mostrou conhecer muito bem os erros e acertos de Israel, as profecias e as constantes presenças de Deus na história de seu povo. Trata-se, pois, de excelente oportunidade de refletirmos.
É difícil imaginar Maria inserida em política partidária ou indiferente à sorte de seu povo e incapaz de compreender o peso de sua missão. Seu canto tinha alta teologia e política, mas também amor e misericórdia. Só não vê quem não quer. A quem idealiza apenas como a mãe de um grande político judeu, o canto é um prato cheio; mas, para os que a imaginam como uma jovem mãezinha assustada, é mais difícil negar que ela tenha cantado. Maria amou a seu Deus, seu tempo e seu povo. E, nesse contexto, não é provável que ela tenha contado a Lucas o ocorrido naquele encontro: que cantou a experiência de ser mãe de alguém que anunciaria um novo tempo e uma ordem para o mundo. É mais um motivo para admirarmos essa mulher.

Não consta que Maria fosse uma jovem triste nem que cantava ou dançava. Provavelmente, se comportou como as jovens judias de seu tempo. Aliás, sabe-se tão pouco sobre ela que corremos dois riscos: idealiza-la perfeita demais, incapaz de rir ou brincar; ou como a jovem dedicada somente à oração. É verdade que, por seu chamado especial, foi diferente das demais mulheres. Afinal, não é sempre que se concebe um filho em suas condições. Mas foi igual às outras no aspecto mais comum da feminilidade e no seu modo bonito de ser mulher. Até aposto que ria, cantava e dançava. O Evangelho traz alguma coisa a respeito.
Lucas diz (cap. 1, 39-56) que ela acompanhou os últimos três meses de gravidez da já idosa Isabel e a intimidade do parentesco as fez cúmplices do mistério que as envolvia. Quem não crê achará inverossímil Isabel e Zacarias terem um filho especial e Maria ter um filho de Deus. Mas é como diz Isabel: “Feliz aquela que acreditou”. Maria foi ajudar Isabel, que, no dia do encontro, demonstrou saber do importante segredo da sua parenta. Maria não se conteve: agora poderia repartir sua alegria de poder ser mãe tão especial, já que os outros a achariam louca e pretensiosa. E ali mesmo, segundo Lucas, ela improvisou um canto, a partir do cântico de Ana, mãe de Samuel (1 Sm. 2, 1-10), e de outros que conhecia. Quem meditava as coisas de Deus e as guardava no coração (cf. Lc. 2, 19) era muito bem capaz de improvisar uma oração, como a rezada por Maria diante de Isabel. Maria cantou um pouco do livro do Deuteronômio, de Samuel, de Isaías e dos Salmos 111, 107, 103, 98 e 89.
O canto de Maria tem força teológica. Fala de um Deus misericordioso que pensa em todos os homens e mulheres, chama a todos, mas dá tarefas e missões especiais a alguns, sem, com isso, amar de maneira limitada; de um Deus justo que defende os pequenos e oprimidos, tira o poder da mão dos injustos e, um dia, dá chance aos pobres e pequenos, enquanto mostra, a quem tem tudo, a experiência de não ter. Teria sido também um canto político, improvisado por uma jovenzinha desinformada? Ou cheio de fé, ensaiado por alguém inspirado nas lutas e no sofrimento de seu povo? Se Maria cantou, então mostrou conhecer muito bem os erros e acertos de Israel, as profecias e as constantes presenças de Deus na história de seu povo. Trata-se, pois, de excelente oportunidade de refletirmos.
É difícil imaginar Maria inserida em política partidária ou indiferente à sorte de seu povo e incapaz de compreender o peso de sua missão. Seu canto tinha alta teologia e política, mas também amor e misericórdia. Só não vê quem não quer. A quem idealiza apenas como a mãe de um grande político judeu, o canto é um prato cheio; mas, para os que a imaginam como uma jovem mãezinha assustada, é mais difícil negar que ela tenha cantado. Maria amou a seu Deus, seu tempo e seu povo. E, nesse contexto, não é provável que ela tenha contado a Lucas o ocorrido naquele encontro: que cantou a experiência de ser mãe de alguém que anunciaria um novo tempo e uma ordem para o mundo. É mais um motivo para admirarmos essa mulher.
sexta-feira, 1 de outubro de 2010
Maria com cuidado
Há 25 anos leciono Comunicação Religiosa. Isso não me faz mais sábio nem mais culto do que outros padres e bispos. Apenas me autoriza a sugerir expressões e linguagem que cheguem com mais clareza ao povo de Deus. Já errei usando termos confusos, mesmo depois de padre e mesmo lecionando Comunicação. Ninguém é tão perfeito que não cometa alguma imperfeição ao falar ou escrever. Por isso digo aos meus alunos que falem de Cristo e de Maria com cuidadosa escolha de palavras. Se tiverem o que dizer, digam com clareza. Sim, a Igreja ensina isso! Não, a Igreja não diz isso! Um deles escrevera que Maria é santíssima porque é mãe da SSma. Trindade e veio debater comigo. Desafiei-o a me mostrar uma só passagem da Bíblia ou dos documentos da Igreja, onde Maria é chamada de Mãe da Santíssima Trindade. Não achou.
Na minha juventude já fui corrigido algumas vezes ao falar de Maria. Era presidente da congregação mariana e minha devoção era tanta que, no meu entusiasmo dizia coisas que a Igreja jamais diria. Diga-se de passagem que também lia alguns textos marianos nada serenos. Davam ao terço tanta garantia que praticamente não sobrava mais nada nem ninguém para Jesus Cristo salvar... A vinda do Concílio Vaticano II foi me abrindo os olhos. A essas alturas já era sacerdote. Lá, descobri a fundamentação dos muitos títulos dados a Maria. Mais tarde em Puebla o discurso ficou ainda mais direto. Os documentos dos papas nesses últimos 40 anos também me ajudaram a pensar em Maria com o máximo de cuidado. Tenho tentado dizer isso aos pregadores quando sou perguntado sobre Maria: “ Não ousemos ir mais longe do que a Igreja foi”.
Quando escrevi a canção Senhora e Rainha, onde acentuo que Maria “ “não é deusa nem mais do que Deus, mas depois de Jesus ninguém foi maior do que ela neste mundo” estava traduzindo o Concilio Vaticano II, que diz isso com toda a clareza. Para nós católicos ela é verdadeira mãe de Deus e é membro super-eminente da Igreja. É modelo de quem quer seguir Jesus. Há tanto o que dizer em favor de Maria que nos faltam palavras também sobre ela, da mesma forma que faltam quando falamos do seu Filho que é maior do que ela, porque Jesus Cristo é Deus e ela não é.
Continuo ouvindo em algumas pregações de rádio e de televisão que Maria é mãe da SSma. Trindade. Tenho dito a quem usa tal expressão que tome cuidado ao dizê-la, porque não é clara. Maria é mãe do Filho de Deus, e por isso a chamamos de Mãe de Deus. Mas a Igreja nunca disse que ela é mãe do Pai, do Filho e do Espírito Santo. Mãe da Trindade ela não é. Podemos chamá-la de Nossa Senhora da SSma Trindade porque ela é filha, é mãe e é esposa, mas não das três pessoas. Não é esposa do Filho, nem é mãe do Espírito Santo, nem do Pai. É filha do Pai, mãe do Filho de Deus encarnado e esposa do Espírito Santo. As palavras são pequenas demais para dizer da relação de Deus conosco. Com Maria, que foi geratriz do Verbo encarnado, faltam-nos os adjetivos. Afirmamos que desde todo o sempre o Pai gera o Filho, mas Maria não é mãe do Filho de Deus desde todo o sempre. Ela não existiu desde toda a eternidade. Quando o Filho de Deus se encarnou, aqui, neste mundo, ela foi a mãe dele; mas não antes. Por isso, as palavras “Mãe da Trindade” podem confundir. É melhor explicá-las. Sem explicação leva muita gente a dizer que Maria é mãe das três pessoas da Trindade. E ela não é .
Quando alguém entra em debate comigo sobre este tema, peço para reler a frase que ele disse. Depois mostro mais de 200 passagens com os títulos dados a Maria. Nunca a Igreja diz que ela é mãe da três pessoas da SSma. Trindade. Nem poderia! No ventre dela quem esteve foi o Filho de Deus encarnado. Mas como Jesus diz que Ele e o Pai são um (Jo 10,30) é claro que Maria, ao carregar seu Filho no ventre, carregou o mistério que ele trazia. Nem assim Igreja diz que ela gerou a Ssma. Trindade. Isso, a Igreja não diz. É por isso que a Igreja pede no número 158 que se evitem os falsos exageros ou as estreitezas. Meu conselho aos amigos e alunos é que tomemos cuidado ao proclamar a grandeza da humilde Maria. Nossas frases precisam ser claras e não devem deixar margem a dúvidas.
Neste mundo ninguém melhor do que ela assumiu o mistério da Ssma.Trindade em sua vida, porque ninguém esteve tão intimamente ligado ao Filho de Deus quanto ela. Mas havia limites e Maria sabia disso! Ela continuou a vida inteira “ serva do Senhor”, mesmo sendo mãe do Filho de Deus. E é isso que faz Maria tão especial e tão digna de nossos elogios. Imagino que ela seja a mais interessada em que não a louvemos acima do que ela foi e é.
Texto: Padre Zezinho, SCJ.
Na minha juventude já fui corrigido algumas vezes ao falar de Maria. Era presidente da congregação mariana e minha devoção era tanta que, no meu entusiasmo dizia coisas que a Igreja jamais diria. Diga-se de passagem que também lia alguns textos marianos nada serenos. Davam ao terço tanta garantia que praticamente não sobrava mais nada nem ninguém para Jesus Cristo salvar... A vinda do Concílio Vaticano II foi me abrindo os olhos. A essas alturas já era sacerdote. Lá, descobri a fundamentação dos muitos títulos dados a Maria. Mais tarde em Puebla o discurso ficou ainda mais direto. Os documentos dos papas nesses últimos 40 anos também me ajudaram a pensar em Maria com o máximo de cuidado. Tenho tentado dizer isso aos pregadores quando sou perguntado sobre Maria: “ Não ousemos ir mais longe do que a Igreja foi”.
Quando escrevi a canção Senhora e Rainha, onde acentuo que Maria “ “não é deusa nem mais do que Deus, mas depois de Jesus ninguém foi maior do que ela neste mundo” estava traduzindo o Concilio Vaticano II, que diz isso com toda a clareza. Para nós católicos ela é verdadeira mãe de Deus e é membro super-eminente da Igreja. É modelo de quem quer seguir Jesus. Há tanto o que dizer em favor de Maria que nos faltam palavras também sobre ela, da mesma forma que faltam quando falamos do seu Filho que é maior do que ela, porque Jesus Cristo é Deus e ela não é.
Continuo ouvindo em algumas pregações de rádio e de televisão que Maria é mãe da SSma. Trindade. Tenho dito a quem usa tal expressão que tome cuidado ao dizê-la, porque não é clara. Maria é mãe do Filho de Deus, e por isso a chamamos de Mãe de Deus. Mas a Igreja nunca disse que ela é mãe do Pai, do Filho e do Espírito Santo. Mãe da Trindade ela não é. Podemos chamá-la de Nossa Senhora da SSma Trindade porque ela é filha, é mãe e é esposa, mas não das três pessoas. Não é esposa do Filho, nem é mãe do Espírito Santo, nem do Pai. É filha do Pai, mãe do Filho de Deus encarnado e esposa do Espírito Santo. As palavras são pequenas demais para dizer da relação de Deus conosco. Com Maria, que foi geratriz do Verbo encarnado, faltam-nos os adjetivos. Afirmamos que desde todo o sempre o Pai gera o Filho, mas Maria não é mãe do Filho de Deus desde todo o sempre. Ela não existiu desde toda a eternidade. Quando o Filho de Deus se encarnou, aqui, neste mundo, ela foi a mãe dele; mas não antes. Por isso, as palavras “Mãe da Trindade” podem confundir. É melhor explicá-las. Sem explicação leva muita gente a dizer que Maria é mãe das três pessoas da Trindade. E ela não é .
Quando alguém entra em debate comigo sobre este tema, peço para reler a frase que ele disse. Depois mostro mais de 200 passagens com os títulos dados a Maria. Nunca a Igreja diz que ela é mãe da três pessoas da SSma. Trindade. Nem poderia! No ventre dela quem esteve foi o Filho de Deus encarnado. Mas como Jesus diz que Ele e o Pai são um (Jo 10,30) é claro que Maria, ao carregar seu Filho no ventre, carregou o mistério que ele trazia. Nem assim Igreja diz que ela gerou a Ssma. Trindade. Isso, a Igreja não diz. É por isso que a Igreja pede no número 158 que se evitem os falsos exageros ou as estreitezas. Meu conselho aos amigos e alunos é que tomemos cuidado ao proclamar a grandeza da humilde Maria. Nossas frases precisam ser claras e não devem deixar margem a dúvidas.
Neste mundo ninguém melhor do que ela assumiu o mistério da Ssma.Trindade em sua vida, porque ninguém esteve tão intimamente ligado ao Filho de Deus quanto ela. Mas havia limites e Maria sabia disso! Ela continuou a vida inteira “ serva do Senhor”, mesmo sendo mãe do Filho de Deus. E é isso que faz Maria tão especial e tão digna de nossos elogios. Imagino que ela seja a mais interessada em que não a louvemos acima do que ela foi e é.
Texto: Padre Zezinho, SCJ.
sábado, 28 de agosto de 2010
Simplicidade de Maria
Outro dia, li na internet o poema abaixo, intitulado “Sem dobras”. Ele me fez pensar numa atitude de Maria, que é inspiradora para os cristãos: a simplicidade.
Aprendo com o tempo
a felicidade vibra na frequência
das coisas mais simples
o que amacia a vida
acende o riso
convida a alma para brincar
coisas pequeninas
bordadas com fios de luz
no tecido áspero do cotidiano
como o toque bom do sol
quando pousa na pele
o café da manhã com pão quentinho
sonho compartilhado
repouso os olhos em olhos amados
o sono relaxado que põe tudo pra dormir
a presença da intimidade legítima
o banho bom que reinventa o corpo
o cheiro de terra
o cheiro de chuva
o cheiro do tempero do feijão da infância
o cheiro de quem se gosta
o acorde daquela risada que acorda tudo na gente
todas, simples assim.
J. Ramalho (http://www.semargem.blogspot.com/ )
Dizem que uma das possíveis raízes etimológicas da palavra “simplicidade” é “sem dobras”. Quem não se lembra daquelas saias antigas, cheias de dobra e difíceis de passar, chamadas de “plissadas”, porque exatamente estavam cheias de dobra? Ou então de uma realidade “complexa”, pois tem muitos elementos ao mesmo tempo, como se fossem muitas dobras, de forma a se tornar “complicada” para decifrar.
Uma pessoa simples não é um bobo ou ingênuo. Por vezes, utilizamos este belo adjetivo de forma equivocada, para classificar alguém que cultiva pouca cultura letrada, apresenta limitação intelectual ou se expressa mal. Nada disso tem a ver com simplicidade.
A simplicidade não está no começo do caminho da humanização, mas ao final. São Tomáz de Aquino dizia que a sabedoria e o conhecimento, na medida que evoluem, se simplificam. É admirável encontrar pessoas com alta capacidade artística, técnica, intelectual, operacional, que mantém a simplicidade, pois não se deixam iludir com o poder, o conhecimento, os cargos ou o dinheiro. Como são simples, sabem viver intensamente os pequenos e grandes momentos. Conhecem sua beleza e sua limitação. Por isso, a simplicidade é companheira da lucidez e da humildade. As pessoas simples aprendem com o tempo. Aliás, continuam sempre aprendizes. Adultos comprometidos, mas com a alegria e a fluidez do coração de criança.
A simplicidade de Maria reúne estas características. O Evangelho de Lucas a apresenta como uma mulher que cultiva a alegria, que descobre no encontro com Isabel a presença do Espírito vivificador. Educadora e mãe de Jesus, faz-se também sua discípula e seguidora, aprendendo com ele. Surge nos momentos importantes, como em Caná, na cruz, na preparação de Pentecostes, e depois se retira tranquilamente, pois não tem necessidade de permanecer no centro das cenas.
A simplicidade de Maria também foi uma conquista. Para saborear as coisas belas de sua existência, ela guardava e meditava no coração, muitas vezes. Para acolher as situações desafiadoras, também.
Que aprendamos de Maria a simplicidade da consciência alerta, que, em acorde com o Palavra de Deus e a beleza da vida, está desperta para saborear, anunciar, lutar e perseverar.
Aprendo com o tempo
a felicidade vibra na frequência
das coisas mais simples
o que amacia a vida
acende o riso
convida a alma para brincar
coisas pequeninas
bordadas com fios de luz
no tecido áspero do cotidiano
como o toque bom do sol
quando pousa na pele
o café da manhã com pão quentinho
sonho compartilhado
repouso os olhos em olhos amados
o sono relaxado que põe tudo pra dormir
a presença da intimidade legítima
o banho bom que reinventa o corpo
o cheiro de terra
o cheiro de chuva
o cheiro do tempero do feijão da infância
o cheiro de quem se gosta
o acorde daquela risada que acorda tudo na gente
todas, simples assim.
J. Ramalho (http://www.semargem.blogspot.com/ )
Dizem que uma das possíveis raízes etimológicas da palavra “simplicidade” é “sem dobras”. Quem não se lembra daquelas saias antigas, cheias de dobra e difíceis de passar, chamadas de “plissadas”, porque exatamente estavam cheias de dobra? Ou então de uma realidade “complexa”, pois tem muitos elementos ao mesmo tempo, como se fossem muitas dobras, de forma a se tornar “complicada” para decifrar.
Uma pessoa simples não é um bobo ou ingênuo. Por vezes, utilizamos este belo adjetivo de forma equivocada, para classificar alguém que cultiva pouca cultura letrada, apresenta limitação intelectual ou se expressa mal. Nada disso tem a ver com simplicidade.
A simplicidade não está no começo do caminho da humanização, mas ao final. São Tomáz de Aquino dizia que a sabedoria e o conhecimento, na medida que evoluem, se simplificam. É admirável encontrar pessoas com alta capacidade artística, técnica, intelectual, operacional, que mantém a simplicidade, pois não se deixam iludir com o poder, o conhecimento, os cargos ou o dinheiro. Como são simples, sabem viver intensamente os pequenos e grandes momentos. Conhecem sua beleza e sua limitação. Por isso, a simplicidade é companheira da lucidez e da humildade. As pessoas simples aprendem com o tempo. Aliás, continuam sempre aprendizes. Adultos comprometidos, mas com a alegria e a fluidez do coração de criança.
A simplicidade de Maria reúne estas características. O Evangelho de Lucas a apresenta como uma mulher que cultiva a alegria, que descobre no encontro com Isabel a presença do Espírito vivificador. Educadora e mãe de Jesus, faz-se também sua discípula e seguidora, aprendendo com ele. Surge nos momentos importantes, como em Caná, na cruz, na preparação de Pentecostes, e depois se retira tranquilamente, pois não tem necessidade de permanecer no centro das cenas.
A simplicidade de Maria também foi uma conquista. Para saborear as coisas belas de sua existência, ela guardava e meditava no coração, muitas vezes. Para acolher as situações desafiadoras, também.
Que aprendamos de Maria a simplicidade da consciência alerta, que, em acorde com o Palavra de Deus e a beleza da vida, está desperta para saborear, anunciar, lutar e perseverar.
quarta-feira, 18 de agosto de 2010
Oração a Maria, caminheira na fé
Voltamos nosso olhar e nosso coração para Ti.
E te contemplamos hoje, cheia de luz e revestida pela Graça vencedora de Deus.
Tu, a primeira ressuscitada, em quem se realizou de forma maravilhosa e antecipada,
a promessa e o sonho de Deus para todo ser humano.
Antes de seres tecida no útero de Sant’Ana, o Senhor te conheceu e te consagrou.
Ao longo de tua vida renovaste o compromisso com Deus,o “Sim” que em determinado momento brotou de teu coração e de teus lábios.
Tu, peregrina nas estradas empoeiradas, sinuosas e arriscadas da existência humana.
Provaste os riscos dos falsos atalhos e dos des-caminhos,
as tentações de toda sorte, até aquela de acomodar-se na mediocridade.
Nós te vemos em Nazaré, companheira de José, mãe e educadora de Jesus.
Ensinaste o filho de Deus encarnado a ser homem.Pelas tuas mãos e as de José, Jesus se educou e se fez pessoa.
Aprendeu a falar e a ouvir, desenvolveu atitudes e hábitos,
estruturou valores que marcaram sua vida.
Conheceu seus limites e sentiu as infinitas possibilidades da liberdade.
Tu, jardineira sensível, plantaste na terra fértil de Jesus as sementes do Bem.
Mas tua vida não se encerrou na tarefa de mãe e educadora.
As águas do Jordão marcaram o nascimento público de Jesus,
como o corte dolorido e necessário de um segundo cordão umbilical.
Foste surpreendida (ou talvez não) pelo homem adulto, dono de seu destino,
Pois parece que toda mãe vê no filho a sempre criança que um dia embalou nos braços.
Jesus percorre vilas e aldeias falando do Pai e do Reino.
Chama homens e mulheres para compartilhar com ele sonhos e tarefas.
Aprendizes na arte de viver, suas escolas são povoados, estradas, lagos e montanhas.
Agora, és uma discípula. Teu papel de mãe se modifica, parece eclipsar-se.
O Mestre olha com compaixão para a multidão
sem perspectiva, doente, abandonada.
Com o olhar recriador do Pai, vê mais do que miséria e perdição.
Descobre e suscita oportunidades salvadoras, abre portas e janelas de luz.
Animado pelo sonho do “Reino de Deus”, Jesus põe em marcha um “momento novo”.
E teu coração vibra, contagiado de emoção.
Acompanhas Jesus, que encanta as multidões com as parábolas,
surpreende os poderosos com palavras simples e sábias
e desconcerta os donos de uma religião sem coração.
Vês com alegria como as mãos do menino que tu seguraste
estão livres para curar, abençoar, acolher e libertar.
Jesus come e faz festa com os pecadores, as prostitutas, os “sem esperança”.
Aquela grande mesa de pão e inclusão é para ti extensão de Belém e de Nazaré,
a casa de nova família da humanidade, para além dos laços sanguíneos.
Teus olhos acompanham Jesus, quando muitas vezes ele se retira ao monte,
para falar e ouvir o Pai na intimidade.
Tu rezas por ele e com ele.
As forças do mal tramam contra Jesus,
e na tua intuição já pressentes o que lhe espera:
sofrimento, traição, fracasso, dor de perda, morte.
Ao pé da cruz, a fidelidade de um amor à toda prova.
Ao terceiro dia, a surpreendente experiência da vida que vence a morte.
Não sabemos se Jesus ressuscitado apareceu diante de ti. Talvez não precisasse.
Tua fé já tinha chegado a nível tal, que o sinal não é mais necessário.
Tornou-se confiança radical, entrega e sintonia.
Um dia, tua peregrinação terrestre também terminou.
Ao celebrarmos tua “Assunção”, professamos cheios de alegria,
Que o Senhor assumiu e transformou toda tua pessoa e tua existência,
até a corporeidade;
Ele que “faz novas todas as coisas”.
Olha para nós.
Tu conheces cada um de nós, como conhecias Jesus pelo cheiro e pelo olhar.
Fortalece-nos, pois recebemos tanto e correspondemos pouco à Graça do Senhor.
Dá-nos um espírito humilde e renovado
para sermos discípulos e anunciadores de Jesus.
Que recriemos a simplicidade e o encanto de Belém,
o espírito de família e o aconchego de Nazaré,
a força do Espírito que nos unge no Cenáculo,
a coragem e a presença pública de Jerusalém.
Queremos ser “todo de Deus” e para Ele.
Recebe nossas palavras, nossos gestos, nossas ações e nossos desejos. Amém.
Texto: Ir. Afonso Murad
Imagem: Frei Anderson, msc
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