terça-feira, 24 de fevereiro de 2009

Mariologia: plano de curso

Apresento aqui os elementos básicos de um Plano de Curso de Mariologia para a graduação, que utilizo nas Faculdades de Teologia onde atuo. Se você tiver outra proposta, partilhe conosco neste blog.
Ementa
O curso de Mariologia oferece aos alunos uma visão ampla e articulada sobre a pessoa de Maria, a mãe de Jesus, no horizonte da cristologia e da eclesiologia. Reflete sobre a figura de Maria na bíblia, no dogma e no culto. Apresenta dados para enriquecer o diálogo ecumênico e a prática pastoral, articulados com a espiritualidade.

Objetivos centrais
Identificar os elementos bíblico-teológicos de Maria nos evangelhos de Lucas e João.
Compreender os dogmas mariais da maternidade divina, virgindade, imaculada conceição e assunção no contexto em que foram tematizados e reinterpretá-los na teologia contemporânea.
Justificar o lugar de Maria no culto cristão, no horizonte da comunhão dos santos, apontando sua legitimidade e limites.
Compreender teologicamente o fenômeno das Aparições.

Unidades de Ensino-Aprendizagem
1. Introdução
Perguntas sobre Maria, advindas da pastoral, da teologia ou da existência
Breve história da mariologia/marialogia
Para além do maximalismo: tarefas da mariologia

2. Maria na Sagrada Escritura
Maria no Antigo Testamento?
A nova família de Jesus: o enfoque de Marcos e Mateus
Perfeita discípula e peregrina: Maria em Lucas
A mãe da comunidade, no quarto evangelho
As interpretações de Apocalipse 12.

3. Os dogmas marianos
Passagem da bíblia ao dogma
Problemática teológico-pastoral dos dogmas
Maria, Mãe do filho de Deus encarnado
A polêmica sobre a Virgindade de Maria
Maria, toda de Deus: Imaculada
A glorificação de Maria: Assunção

4. Maria na devoção e na liturgia
Principais manifestações devocionais a Maria
O fundamento: a comunhão dos santos
Orientações teológico-pastorais

5. Contribuições recentes do magistério da Igreja:
Lumen Gentium 8,
Marialis Cultus, Redemptoris Mater,
Documento de Aparecida

6. As aparições
Leitura interdisciplinar do fenômeno
Critérios de discernimento

7. Síntese: Maria nas Igrejas Cristãs

Autoria: Ir. Afonso Murad

sábado, 21 de fevereiro de 2009

Mariologia: conceito

A mariologia (ou marialogia) é a disciplina teológica que estuda o lugar de Maria no projeto salvífico de Deus e sua relação com a comunidade eclesial. Está presente sobretudo na Igreja católica.
Enquanto saber teológico, a marialogia é uma reflexão sistemática, crítica e sapiencial que parte da fé e à fé retorna. É sistemática porque articula e organiza as informações. Sendo crítica, emite um parecer sobre a forma como o cristãos católicos reverenciam Maria, em relação com o conjunto da fé cristã. Visa purificar aquilo que é exagerado ou anacrônico. Por fim, exercita a sabedoria, ao equilibrar a contribuição da tradição com as questões atuais.
A melhor marialogia é aquela que nos ajuda a seguir a Jesus com mais empenho e a compreender melhor aquilo que cremos.
A reflexão teológica sobre Maria se faz como uma escada de três degraus.
(1) No nível básico está o estudo sobre Maria de Nazaré na Bíblia. Os dados bíblicos sobre a mãe de Jesus são imprescindíveis, para não se construir uma marialogia sobre o vazio. Afinal, toda reflexão teológica baseia-se na Sagrada Escritura.
(2) No segundo nível se situam os dogmas marianos, que condensam grande parte da reflexão eclesial sobre ela, sem esgotá-la. Há quatro dogmas católicos sobre Maria: Maternidade divina, virgindade, imaculada conceição e assunção.
(3) O terceiro nível corresponde o estudo sobre o culto à Maria, compreendendo a devoção popular e a liturgia. No âmbito da pastoral, o culto, especialmente nas suas manifestações devocionais, é o aspecto mais visível e pode parecer o único importante.
Os três degraus se relacionam mutuamente, mas há uma prioridade da Sagrada Escritura sobre o dogma e a devoção. Caso contrário, já leremos os textos bíblicos sem nos deixar tocar por eles, e somente confirmaremos o que está proclamado nos dogmas.
A elaboração da marialogia atual exige, em primeiro lugar, uma boa base bíblica. Isso significa conhecer os textos sobre Maria, relacionando-os com o autor bíblico e sua teologia. Em segundo lugar, necessita percorrer a história da reflexão de fé da Igreja, para compreender como surgiram os dogmas marianos, e situá-los em seu contexto.
Além disso, para pensar sobre o sentido de Maria, o mariálogo deve relacioná-lo com outros campos da reflexão teológica que falam de Jesus, da Igreja, do mistério do ser humano à luz da fé e de sua salvação (cristologia, eclesiologia, a antropologia teológica e soteriologia). Ou seja, ele(a) passeia pelas disciplinas teológicas e com elas vai tecendo a mariologia.
O grande problema de livros, artigos, sites e blogs de marialogia reside num horizonte teológico estreito, que parece ver somente Maria, com exclusividade e parcialidade. Ora, se você vai escrever sobre Maria no evangelho de Lucas, deve conhecer bem a teologia do terceiro evangelista. Se alguém vai refletir sobre o dogma da Assunção, deve ir a fundo na disciplina teológica da escatologia, que trata sobre o último e definitivo em todas as coisas, inclusive a morte e a ressurreição. Não basta que seja uma reflexão recheada de citações dos Padres da Igreja, dos Concílios e dos Papas. Ela precisa ser consistente e abrangente.
Por fim, a reflexão atual sobre Maria está sintonizada com peregrinação existencial e espiritual dos homens e mulheres de hoje. Isso requer do teólogo uma aguçada sensibilidade histórica e dialogal. Ele(a) está atento não somente aos livros publicados, mas também aos fatos significativos e às suas interpretações. Assim, atualiza e reinterpreta os dados bíblicos-teológicos sobre Maria à luz dos sinais dos tempos e de novas práticas eclesiais.
Leia mais em: Afonso Murad. Maria, toda de Deus e tão humana, introdução
Figura: Ir. Anderson, MSC.

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2009

Bodas de Caná: a ação simbólica de Maria

Continuemos a percorrer o texto da cena da Caná. Vejamos os símbolos no relato de Jo 2,5-11. Assim, pode-se compreender o sentido profundo da ação de Jesus e da intervenção de Maria.
A ação e a palavra de Maria (v.5): É comum no quarto evangelho que haja momentos de impasse e “mal entendido” entre Jesus e seus interlocutores. Enquanto eles estão num nível de compreensão superficial, de “baixo”, Jesus fala das realidades “do alto”, mais profundas e além das aparências. É preciso dar um salto de fé, para passar de um nível ao outro. Às vezes, há discussões longas, com vários mal entendidos Assim acontece, por exemplo, nos diálogos com Nicodemos e com a Samaritana (Jo 3,1-12 e Jo 4,6-27), ou na conversa com a multidão, sobre o pão da vida (Jo 6,26-58). Jesus fala em nascer de novo e Nicodemos entende de forma literal, como se alguém tivesse que voltar ao útero materno. Jesus anuncia a água viva à Samaritana, e ela pensa na água do poço. Jesus fala do pão como “minha carne” e eles se escandalizam.
Ao contrário dos outros interlocutores, Maria rapidamente salta para o nível de fé, sem discutir com Jesus. Entende o que ele quer. Compreende que não se trata somente de resolver um problema de falta de vinho, de atender a uma necessidade concreta. Mas sim, o que este fato vai ajudar as pessoas a conhecerem melhor quem é Jesus e se posicionarem diante dele.
Maria se volta para os serventes: “Façam tudo o que ele lhes disser” (Jo 2,5). Essas palavras têm uma grande força simbólica. Você se recorda da frase de Maria ao final da anunciação, em Lucas: “Eis aqui a servidora do Senhor. Eu desejo que se faça em mim conforme sua palavra” (Lc 1,36). Segundo João, Maria não só realiza a vontade de Deus na sua vida, mas também orienta os outros a fazerem o que Deus lhes pede. Há um deslocamento do foco e uma ampliação de sentido. Da perfeita discípula e seguidora de Jesus, em Lucas, para a pedagoga e guia dos cristãos, em João.
Da água para o vinho (v. 6-10): Jesus faz o primeiro sinal de forma discreta. Nem sequer dá uma benção ou evoca o nome de Deus. Tudo na simplicidade. O bom vinho alegra as pessoas e faz a festa ficar melhor ainda. Mas por que João coloca como primeiro sinal de Jesus a transformação da água em vinho, numa festa de casamento? Porque não uma cura ou expulsão de demônios? O primeiro sinal de Jesus pretende começar a revelar quem ele é para nós. A partir do sinal, entendemos que Jesus é o vinho novo para e existência humana. Ele é capaz de transformar as situações desafiadoras em festa e alegria compartilhadas.
Nas Escrituras Judaicas, o vinho simboliza a felicidade e a abundância que acontecerá para todos, quando o Messias chegar (Ver Os 2,23s e 14,8; Am 9,13s; Is 25,6 e 62,5; Jr 31,12; Zc 9,17). No livro do Cântico dos Cânticos, o vinho lembra o desejo entre o homem e a mulher, o amor que os fascina e os une, uma imagem do grande amor de Deus pelo seu povo (Ct 1,2-4; 2,4; 4,10). Com o sinal do vinho, Jesus está dizendo que ele é o vinho novo, que o dia do Messias está chegando. Começou o tempo da graça, superando as situações de miséria e tristeza.
Cada detalhe do relato tem um sentido simbólico. As seis vasilhas de pedra, destinadas à purificação dos judeus, aludem ao número da imperfeição, da finitude humana (o seis), à frieza e dureza da lei judaica, que será superada com Jesus. O chefe da festa não sabe da origem do vinho, como os chefes judaicos não conhecem que Jesus vem do Pai. Somente os que servem sabem! As talhas são enchidas até a borda, e têm muito vinho, quase 700 litros. Isso significa que Deus nos oferece seus bens em abundância. Quem está com Jesus tem vida sobrando. Jesus é o bom vinho, guardado até o momento do início da manifestação dos sinais. Com ele, começa o tempo novo, que os evangelhos sinóticos chamam de “Reino de Deus”.
O sinal de Caná e a fé (v.11): Qual é o resultado da ação de Jesus, devido à intervenção de Maria? João nos diz que Jesus “manifestou sua glória e seus discípulos creram nele”. Jesus começa a mostrar quem ele é: não somente o carpinteiro de Nazaré, mas uma pessoa que comunica vida e alegria, como Filho de Deus. A glória para Jesus não é o poder e a fama mundanos, mas a capacidade de realizar o bem e tornar Deus conhecido e amado.
Os sinais de Jesus são uma ocasião para os discípulos exercitarem sua fé. Quem crê, vê além do sinal. O sinal não força ninguém a acreditar, só abre a porta do coração para a fé (Jo 2,11.23; 3,3, 4,54). Jesus mesmo não gosta das pessoas que só acreditam quando vêem sinais. Ele até desconfia desse tipo de fé que necessita sempre de sinais (Jo 2,23s). Jesus não gosta das pessoas que buscam milagres só para resolverem seus problemas pessoais (Jo 6,26). À medida que avança a missão de Jesus, os sinais também se mostram polêmicos.O último sinal de Jesus, que é trazer Lázaro de volta a essa vida, causa divisão entre os judeus. Uns acreditam nele, outros não (Jo 12,37), e alguns se posicionam de forma violenta, organizando-se para matá-lo (Jo 11,45-54). Portanto, os sinais são uma oportunidade para a fé, não uma prova miraculosa. Eles interpelam as pessoas. E o primeiro sinal, o de Caná, abre caminho para os discípulos entrarem na aventura da fé.
O sinal que unifica (v.12) : Depois que Jesus faz seu sinal, o discípulos crêem nele e saem juntos, com “sua mãe e seus irmãos”. O sinal de Caná une o grupo dos seguidores de Jesus em torno a ele. A partir do gesto de Caná começa a se formar o gérmen da comunidade cristã, com os discípulos, os familiares e a mãe de Jesus.
Fonte: A.Murad, Maria Toda de Deus e tão humana. Paulinas.
Imagem da Internet

domingo, 8 de fevereiro de 2009

Bodas de Caná e Maria: os símbolos

A cena do Sinal de Caná está recheada de imagens, analogias e símbolos. Vamos desvendar alguns deles, para compreender melhor o sentido do gesto de Jesus e da atuação de Maria. Leia Jo 2,1-4 e acompanhe.
No terceiro dia (v.1) ou “três dias depois”: A cena de Caná está “costurada” pelo evangelista João no início da missão de Jesus. Conclui a sua semana inaugural, que começa quando João Batista aponta Jesus aos seus discípulos (Jo 1,19.29.35.43). A festa aconteceria dois dias depois do encontro de Jesus com Filipe e Natanael. Neste encontro, Jesus relembra a imagem do sonho de Jacó, da escada que liga o céu e a terra (Ver Jo 1,49-51). O céu aberto, com os anjos subindo e descendo, significa que Deus irá se comunicar conosco e nos dará sua graça. O primeiro sinal mostra que, com Jesus, começa este tempo novo de presença de Deus junto de seu povo.
A festa de casamento (v. 1-2): No tempo de Jesus, a festa de núpcias era muito importante. As famílias se uniam em torno do casamento dos filhos. Renovava-se a confiança na vida e se esperava a vinda de filhos, primeira garantia da continuidade do povo de Deus. Além disso, evocava um sentido simbólico. Os profetas usaram a imagem da união amorosa do homem e da mulher, que se celebra no casamento, para falar da Aliança, do amor de Deus e de sua intimidade com o povo eleito (Is 62,4b-5; Os 2,18-22).
Era comum oferecer um banquete na festa de casamento (Gn 29,22; Jz 14,10). Nas vilas e cidadezinhas do interior, como Caná, a festa durava normalmente sete dias (Gn 29,27; Jz 14,12; Tb 11,20). O vinho era a bebida básica, espalhada por toda a parte, pois as famílias produziam e consumiam vinho caseiro. Numa festa, especialmente a de casamento, não podia faltar vinho. A festa acabaria tristemente.
A falta do vinho e o pedido de Maria (v. 3): Maria está na festa. Jesus e seus discípulos também. Mas parece que chegaram separadamente. Então, o vinho está terminando e Maria se dirige a Jesus. Ela está dizendo: “Tenha pena deles, senão a festa vai acabar”. Há um pedido claro, não somente uma constatação. No evangelho de João, quando alguém precisa de algo, basta apresentar a Jesus sua necessidade, que ele entende. Por exemplo, o paralítico em Jo 5,7; as irmãs de Lázaro em Jo 11,3. Mas ao contrário destas pessoas, Maria não pede para si, e sim para os outros.
A resposta de Jesus (v. 4) parece indelicada e até desrespeitosa: “O que nós temos a ver com isso? Algumas bíblias traduzem com expressões ainda mais duras essa frase de Jesus: “Que queres de mim”, ou “que há entre mim e ti”. Esta frase, de difícil tradução, expressa que Jesus não deseja se envolver com o problema, e que há um distanciamento, uma diferença de percepção entre ele e Maria.
“Mulher” (v.4): Muita gente estranha porque Jesus chama sua mãe de “mulher”. Mas João está nos dizendo algo mais profundo: para Jesus, Maria é mais do que sua mãe, é mulher. O evangelista é muito sensível à participação das mulheres na missão de Jesus e na comunidade dos seus amigos. Jesus não as trata pelo nome, mas com o título de “mulher”. Maria, sua mãe, presente no início e no final de sua missão, é chamada em Caná e na cruz de “mulher” (Jo 2,4 e 19,26). Jesus denomina também “mulher” à samaritana (Jo 4,21), primeira anunciadora do messias para os não-judeus (Jo 4,28.41s). Por fim, trata da mesma forma a Madalena (Jo 20,15), a primeira testemunha da ressurreição (Jo 20,17s). Ora, os profetas usavam a imagem da mulher para representar o povo de Deus em relação ao Senhor da Aliança (Os 1,2; Is 26,17; Jr 31,4). Portanto, quando Jesus chama sua mãe de “mulher” não a ofende. Ao contrário, mostra o valor dela, como mulher e figura efetiva e simbólica da comunidade cristã.
“Minha hora ainda não chegou” (v.4): Um homem ocidental moderno imaginaria a cena de uma maneira banal. Jesus olharia para o relógio e diria que não estava no momento ainda. Mas não se trata disso. A “hora”, no evangelho de João, tem um sentido simbólico. Quer dizer o momento em que Jesus vai manifestar quem ele é, sua identidade de Filho, e comunicar de forma ímpar o amor do Pai. Isso só vai se completar na morte e ressurreição (Jo 12,23.27; 13,1; 16,32; 17,1). Ali será “a hora h”, como a gente diz. Mas, enquanto isso, cada palavra ou sinal de Jesus é uma parte dessa hora e a prepara. “Minha hora ainda não chegou” significa que Jesus acha que não é ainda o momento oportuno de começar sua missão e se manifestar plenamente como Filho.
No próximo artigo, nesse blog, veremos ainda outros símbolos do relato de Caná e descobriremos o sentido da ação de Maria.
Texto: A. Murad, Maria Toda de Deus e tão humana, Paulinas.
Quadro de Fernando Gallego.

sexta-feira, 23 de janeiro de 2009

A mulher de Apocalipse 12

Leia Apocalipse 12,1-17. Veja como a narrativa se desenvolve. Observe cada personagem, para compreender o texto em sua profundidade.
O sinal no céu (v. 1-2): Apocalipse 12 começa como um sonho lindo. Um grande sinal aparece no céu: uma mulher com a glória e o poder de Deus, pois está brilhando, vestida de sol. Lida de forma equilibrada com as forças da natureza, e o ciclo da vida, pois tem a lua debaixo dos pés. A mulher já recebeu de Deus a certeza da vitória, pois carrega uma coroa de doze estrelas, sinal de poder real.
Mas nem tudo é bonito no sonho. A mulher está grávida, vai dar à luz. Passa por momentos confusos e difíceis, de muita dor, mas sabe que eles são preparação para um novo tempo. Assim é o povo de Deus nesse mundo. Ele recebe do Senhor a glória e o poder, para gerar o novo na história. Mas experimenta um parto doloroso. Na bíblia, a dor de parto significa a crise que acompanha a passagem para uma situação nova, na qual a vida vai triunfar. Assim aconteceu com os discípulos de Jesus, quando acompanharam sua morte e ressurreição (Jo 16, 21s).
A imagem pode também aludir a Maria, a mãe de Jesus, que deu à luz ao Messias e experimentou o tempo novo do Reino de Deus e da ressurreição de Jesus. Assim, primariamente, a mulher significa a comunidade cristã, o povo messiânico. Mas pode também se estender a Maria, a mãe do messias.
O dragão e a mulher (v. 3-6): O sonho se transforma em pesadelo. Aparece um dragão, um literalmente um “bicho de sete cabeças”, cheio de poder e força. Intimida com os seus dez chifres. Carrega nas cabeças sete diademas, sinal que é respeitado como autoridade aparentemente perfeita e invencível. Quer devorar o filho da mulher, como as forças do mal fizeram com Jesus, durante sua vida, desembocando sua paixão e morte. Mas o Senhor ressuscitado já está junto de Deus. O mal não pode com Ele. Perceba que a narrativa não é linear. O filho, logo depois de nascido, já foi arrebatado para junto de Deus e de seu poder eterno (=trono). Na prática, Jesus, o filho de Deus encarnado, viveu neste mundo um longo tempo, o que não pode ser ignorado.
É preciso ter claro que, no apocalipse, o “céu” não corresponde ao conceito clássico, que o contrapõe ao inferno. A palavra é a mesma, mas o sentido é muito diferente. Trata-se dos “bastidores da história”, onde se joga a luta decisiva do bem e do mal, e não do lugar ou situação pós-morte, reservado aos eleitos de Deus. Você imaginaria que o símbolo da maldade pudesse atacar Maria em pleno céu, como o entendemos tradicionalmente? Não podemos fazer uma interpretação literal de Apoc 12, senão entraremos num beco sem saída.
A mulher foge para o deserto, onde Deus lhe prepara um lugar e a alimenta por um tempo limitado. Quem é a mulher? O povo de Deus, os seguidores de Jesus que, como Maria, fazem a sua vontade de Deus e dão à luz ao Messias. Enquanto estamos nesse mundo, passamos pelas durezas de deserto. Mas não estamos sós, pois Deus nos nutre com sua Palavra e seu Espírito. Na Bíblia, o deserto é lugar da tentação e do encontro com Deus, o espaço de purificação e crescimento, onde a pessoa e o povo têm a oportunidade de provar o Essencial.
A luta continua (v. 7-17): O dragão, o dono do time do Mal, e seus guerreiros combatem contra os anjos de Deus e perdem a luta, nos bastidores (=céu). João tem claro que Deus já venceu a peleja. E os cristãos também, especialmente os que, como Jesus, são capazes até de morrer para serem fiéis ao bem e à verdade. Mas a luta na terra vai ficar ainda mais forte. A mulher é perseguida de novo pelo dragão, que quer destruí-la. Felizmente, Deus vem em seu auxílio. Dá asas de águia à mulher. No deserto, ela é alimentada por Deus. A corrente caudalosa, vomitada pela serpente, é tragada pela terra. O apocalipse sinaliza que também a natureza colabora com aqueles que se empenham pelo Bem.
O final do relato é ainda mais forte: “enfurecido contra a mulher, o dragão foi combater o resto da descendência dela, os que observam os mandamentos de Deus e guardam o testemunho de Jesus” (v.17). Faz lembrar da promessa de Gênesis 3,15s, de que a humanidade (= descendência da mulher) não vai mais ceder à tentação do mal (= a serpente) e que os dois lutarão. Mesmo ferida, a mulher esmagará a cabeça da serpente, matando-a. Mas, no apocalipse, a vitória sobre a serpente (= o dragão) virá do poder de Deus, através de um enviado (Ap 20,2s).
Muitas vezes nos sentimos como essa mulher no deserto: frágil, desprotegida, cercada pelo poder da maldade, mas envolvida e salva por Deus. O Apocalipse foi escrito para alimentar nossa esperança. Sabemos que, como Maria, recebemos a glória e o poder de Deus. Mas estamos situados num mundo de pecado, cheio de violência e de mal. Aliás, cada um de nós carrega um pouco de mulher e de dragão, de bem e mal, de ternura e de violência. Mas estas dimensões de luz e trevas estão em proporções distintas em cada pessoa. À medida que crescemos na fé, na esperança e no amor solidário, passamos de forma mais clara para o time de Jesus. Deixamos de ser torcedores de arquibancada e entramos no jogo para valer. Maria, nossa companheira, nos assegura, junto com Jesus, que a vitória será de Deus e de seus aliados. E terá um resultado lindo: uma nova criação, um novo céu e uma nova terra. Dela participarão todos os seres, especialmente os humanos.
Resumindo: o texto de Apocalipse 12 primariamente se refere à comunidade dos seguidores de Jesus, a Igreja perseguida, o grupo de homens e mulheres que se empenham pelo Bem, o Povo de Deus peregrino, que continuamente gera o messias, sob a ação da Graça de Deus. Portanto, é um relato de natureza cristológico e eclesiológico. Sua mensagem esperançada é clara: mesmo que o Povo de Deus esteja sofrendo para garantir o Bem e construir o novo na história, e o poder destruidor do Mal pareça mais forte, Deus está conosco, e sua vitória é garantida.Mas, secundariamente, apocalipse 12 pode ser também aplicado a Maria, com a mãe do messias e imagem do Povo de Deus. Especialmente porque a plasticidade das imagens e das analogias do apocalipse nos permitem interpretações múltiplas e complementares.
Fonte: Maria, toda de Deus e tão humana. Ir. Afonso Murad. Paulinas.
Desenho: Ir. Anderson msc

sábado, 13 de dezembro de 2008

Oração à Maria peregrina

Maria, fortalece-nos na nossa travessia.
Tu, que foste peregrina na fé, arriscando-te em Deus, renovando tua opção diante dos novos desafios, ajuda-nos a não parar no meio da estrada.
Quantas vezes, Maria, a escuridão nos invade a alma.
O desânimo toma conta de nós e não temos mais vontade de caminhar.
Mostra-nos que vale a pena, dá-nos a mão.
Jesus está conosco!
Ensina-nos, sobretudo, a descobrir, como tu, que a travessia é bela.
Amém.

Peregrina na fé

O evangelho de Lucas diz que Jesus caminha à frente dos seus discípulos, em direção a Jerusalém. Trata-se de um longo trajeto, narrado de Lc 9,51 a 19,28. É no caminho que Jesus vai ensinando aos seus seguidores uma nova forma de ver as pessoas e o mundo, de se relacionar com os outros e com o Pai. Pelo caminho, Jesus encontra pessoas que não agüentam as exigências do seguimento (Lc 9,57-61). Envia os setenta e dois discípulos em missão (Lc 10,1-17). Estando a caminho, entra num vilarejo, onde é recebido por Marta e Maria (Lc 10,38-41). Por onde passa, cura doentes (Lc 14,1-5). Reintegra os pobres e excluídos no convívio social. Cada encontro ou acontecimento é motivo de uma nova aprendizagem para os discípulos. Jesus fala do Reino em parábolas (Lc 12,16-48; 13,18-21). E revela o Pai misericordioso (Lc 15). Alerta para o perigo do apego às riquezas (Lc 16,13). Nestes 10 capítulos de Lucas, alternam-se fatos e palavras, expressões e gestos.
Jesus chama à conversão (Lc 13,5), esse movimento de mudança do mal para o bem, ou do bem para um bem maior. Muitas vezes, o seguidor de Jesus tem que mudar de rota, para se manter no caminho certo. Outras vezes, é só corrigir um pouco. Mas precisa estar sempre atento, com o espírito de aprendiz e o coração de criança. A travessia da fé e do seguimento é tão nova e original, que os discípulos têm dificuldade de compreender o sentido de muitas palavras de Jesus, que lhes parecem obscuras: “Mas eles não compreenderam nada. Esta palavra lhes permanecia velada e eles não sabiam o que Jesus queria dizer” (Lc 18,34).
Com Maria, a perfeita discípula de Jesus, acontece algo semelhante. Ela deu um “sim” decidido a Deus, quando era muito jovem. Iniciou uma travessia, que ela não sabia com detalhes aonde iria levá-la. Faz parte da experiência da fé arriscar, abrir-se ao novo, passar pela incerteza da noite escura. Ela teve que renovar seu compromisso com Deus muitas vezes. Como nós, estava sujeita a desviar da rota ou parar no caminho.
Muitos imaginam que Maria já nasceu como uma “santa prontinha e acabada”. Pensam que já sabia de tudo, já conhecia com detalhes o que ia acontecer com ela e seu filho. Alguns chegam a afirmar que ela teria sido poupada de fazer a travessia da fé. Já estaria, desde o começo, com todas as certezas. A partir de Lucas, vemos que essa idéia é equivocada. Na cena da apresentação de Jesus, Simeão dirige a palavra a Maria: “Eis que esse menino causará a queda e a elevação de muitas pessoas. Será um sinal de contradição, - e para você, uma espada traspassará sua alma – e assim serão revelados os pensamentos íntimos de muitos corações” (Lc 2,34s).
Normalmente, interpreta-se que a “espada”, da qual fala Simeão, seria o sofrimento na cruz. Podemos imaginar que Maria tenha experimentado uma grande tristeza, no momento da morte de Jesus. Naturalmente, a imagem da uma espada cortando a alma evoca tristeza. É comum usar a expressão: “isso me cortou o coração”, para expressar um sentimento de sofrimento, de dor. E a piedade cristã, especialmente a partir da Idade Média, moldou com muita força a imagem de Maria como a “Mãe das Dores” (Mater Dolorosa), sofrendo e chorando aos pés de cruz. Esta não é a mensagem transmitida por Lucas. O evangelista parece desconhecer a participação de Maria na paixão de Jesus. Na cena da morte de cruz, não cita a mãe de Jesus: “Todos os seus familiares se mantinham à distância, como também as mulheres que o seguiam desde a Galiléia e que olhavam” (Lc 24,49).
O sentido da expressão “espada que traspassa a alma” deve vir de outra analogia. Veja esta citação do profeta Isaías: “O Senhor fez da minha boca uma espada afiada”(Is 49,2), e da Carta aos Hebreus: “Pois a palavra de Deus é viva, eficaz e mais penetrante do que qualquer espada de dois gumes. Julga as disposições e as intenções do coração. E não há criatura oculta à sua presença” (Heb 4,12s).
À luz desses textos, entendemos que a espada significa o desafio do próprio Jesus, Palavra viva de Deus. Maria foi desafiada pelas palavras e atitudes de Jesus, que eram tão diferentes das pessoas de seu tempo. À medida que Jesus diz ou faz algo novo, Maria se sente chamada a dar mais um passo na fé. Ela vive a experiência originária do seguidor de Jesus, de aprendiz do mestre. Tal interpretação, que pode nos parecer tão diferente, se confirma a partir da leitura do relato da perda e do reencontro de Jesus no templo. Leia Lc 2,41-50.
Ao ver Jesus adolescente, no meio dos mestres, Maria e José “ficaram tomados de grande surpresa” (Lc 2,48). Lucas antecipa aqui a consciência filial de Jesus em relação ao Pai, que na realidade só amadurecerá mais tarde: “Por que vocês me procuram? Não sabiam que eu devo estar junto do meu Pai?” A reação de Maria e de José é a mesma dos discípulos, já citada em Lc 18,34: “Mas eles não compreenderam o que lhes dizia” (Lc 2,50).
Maria não alcança ainda o sentido pleno das palavras de Jesus. Fazem parte do peregrinar da fé os momentos de escuridão, de compreensão limitada. Então, a razão se cala e alma se entrega a Deus, procurando um sentido mais profundo.
Logo após esta cena, aparentemente desconcertante para Maria, Lucas diz que Jesus volta para Nazaré, mostra-se um filho obediente, e passa pelas etapas de crescimento humano e espiritual: “Jesus crescia em sabedoria, idade e graça, diante de Deus e diante dos homens (Lc 2,51s)”. Como Maria enfrenta esta crise de crescimento? Fazendo memória, recordando, sendo aprendiz. “Ela guardava todos estes acontecimentos no seu coração” (Lc 2, 51).
Talvez o mais duro desafio que Maria enfrentou, em confronto com Jesus, foi aceitar posição de liberdade que ele tomou em relação à família. No tempo de Jesus, as relações familiares eram muito fortes. A pessoa se sentia dependente, por toda a vida, de seus pais, irmãos e parentes próximos. Deles recebia muitos favores e graças e se sentia na obrigação de retribuir. Devia manter a fama e o bom nome da família. Na família, a mãe trabalhava duramente, mas também tinha alguns privilégios. Controlava a vida dos filhos e era muito honrada por eles.
À medida que desenvolve sua missão, Jesus percebe que precisa estar livre para anunciar o Reino e falar da misericórdia do Pai. Ele faz uma ruptura difícil, que causou incompreensão no meio de seus parentes. Corta os laços de dependência com a família. E diz claramente que os membros de sua nova família são os que fazem a vontade de Deus (Lc 8,19-21). Jesus também incentiva seus discípulos a romper com essas relações familiares de dependência e a renunciar aos seus privilégios, para segui-lo mais de perto (Lc 18,28-30). Daí se entende a estranha frase de Jesus: “Se alguém vier a mim sem me preferir ao seu pai, à sua mãe, à sua mulher, aos seus filhos, aos seus irmãos e irmãs, não pode ser meu discípulo” (Lc 14,33). Jesus não está condenando a família, mas denunciando um tipo de relação familiar que faz mal às pessoas, pois lhes tira a liberdade para servir ao Pai e ao Reino.
Como Maria enfrentou tudo isso? Deve ter sido difícil para ela renunciar aos privilégios de mãe, perder o controle sobre Jesus, não tê-lo dentro de casa. Jesus não pertence mais à sua família. Sua posição é uma espada cortante. Mas Maria dá um salto de fé. Aceita o desafio e corrige sua rota. Entra humildemente no grupo dos seguidores, dos aprendizes de Jesus. Aquela que educou Jesus na infância e juventude, agora está lá para aprender. Não tem lugar de destaque. Despojou-se de seu poder de mãe para se tornar discípula de Jesus. Que bela travessia na fé!
Nós temos muito que aprender dessa atitude de Maria. Ao olhar para ela, sentimo-nos mais animados, pois compreendemos que não estamos prontos, que a vida é uma travessia. Descobrimos também que até as crises de fé são oportunidades de crescimento. Reconhecemos que somos peregrinos na fé e nos colocamos, com alegria e humildade, no caminho do Senhor.